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Aluno autista passa em primeiro lugar em curso do Ifes

Rogério Júnior de Aguiar tem 14 anos e estudava em uma escola da rede pública de Vila Velha; mãe narra história do filho desde o diagnóstico à conquista no Instituto Federal do ES

À esquerda, Ivanete Florindo, professora de educação especial; ao lado, a mãe, Rosemere de Aguiar; de preto, a diretora Sinara Linhares; de blusa jeans, a pedagoga Kleyde Mirandola; de vestido longo, a coordenadora Márcia Tosta
À esquerda, Ivanete Florindo, professora de educação especial; ao lado, a mãe, Rosemere de Aguiar; de preto, a diretora Sinara Linhares; de blusa jeans, a pedagoga Kleyde Mirandola; de vestido longo, a coordenadora Márcia Tosta
Foto: Bernardo Coutinho

O diagnóstico de um transtorno que é acompanhado de olhares preconceituosos é de desesperar qualquer mãe. Mas essa história, do início ao fim, é de luta, fé e amor. Ainda pequeno, Rogério Júnior de Aguiar Conceição, hoje com 14 anos, foi diagnosticado com autismo. Junto com o transtorno, vieram a hiperatividade e a bipolaridade. Mãe de primeira viagem, Rosemere não teve dúvidas de que o caminho seria difícil, mas sempre manteve a esperança pela vitória. E agora tem mais uma conquista do filho para comemorar!

É que Rogério passou em primeiro lugar na modalidade de vagas destinadas a deficientes para o curso técnico em Biotecnologia no Instituto Federal do Espírito Santo (Ifes) e poderá iniciar a caminhada para realizar o sonho de ser um médico cientista. Ele estudava na Unidade Municipal de Ensino Fundamental (Umef) Desembargador Ferreira Coelho, em Vila Velha. "Quando ele era menorzinho, era muito agitado, nervoso, não dormia. Levei a uma pediatra que tinha no posto de saúde da Glória; ela foi trabalhando com meu filho, cuidando dele, até que ele teve uma crise convulsiva", informou Rosemere.

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Ainda sem entender do que se tratava, a mãe do menino contou, em entrevista ao Gazeta Online, que passou por vários médicos e ouviu a opinião de diversos profissionais até saber que o filho é autista. "Uma médica me encaminhou para um psiquiatra e eu já fiquei desconfiada. Não sabia o que era o autismo, mas não fiquei triste não. Fiquei feliz que meu filho era diferente", disse.

A desconfiança de que tinha algo de diferente com o filho já era grande. Depois de tantas opiniões, Rosemere conseguiu entender do que se tratava. "Desde pequeno, com uns 3 anos, ele tinha alguns comportamentos diferentes. Entrava embaixo da cama, se assustava e não gostava de barulhos; ele também sempre selecionou muito os alimentos. É uma luta diária", contou a mãe.

Ela, que vive para cuidar do filho, detalhou a reação de como foi receber a notícia de que seu filho, autista, julgado pelas pessoas como incapaz, tinha passado em primeiro lugar no Ifes. "A tia da escola me ligou e perguntou: 'Você está sentada? Seu filho passou em primeiro lugar no curso de Biotecnologia no Ifes!'".

Eu não sabia se eu gritava, se eu pulava, se chorava... Muita gente me desencorajou e desmereceu a conquista dele, mas ele é meu orgulho e estou muito feliz!
Rosemere, mãe de Rogério

Rosemere finalizou dizendo que foram muitas dificuldades para chegar até essa conquista. "Por onde passamos, encontramos muitos anjos nas nossas vidas. Ele foi abraçado por todos, sempre foi muito amado e recebido". Assim que recebeu a notícia e foi contar a Rogério sobre a conquista, Rosemere lembra que o filho virou para ela e disse: "Aham, 'tá' bom, mamãe, eu já sabia". 

E o Rogério, feliz por ter conquistado o primeiro lugar, mandou uma mensagem para o Gazeta Online

Eu me sinto muito feliz por ter passado na prova do Ifes em primeiro lugar. Eu sinto que o meu futuro já está por vir e que eu vou me formar em médico cientista

EDUCAÇÃO ESPECIAL

Além do empenho e vontade de aprender de Rogério, a educação especial foi essencial e importante para a aprovação. A professora Ivanete Florindo acompanha o menino há dois anos e conta que não ficou surpresa com a aprovação dele porque já sabia do potencial de Rogério.

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"O segredo foi potencializar as habilidades dele dentro da escola para que ele pudesse sentir a felicidade que está sentindo agora e estudar para aprimorar o conhecimento; ele tem potencial para fazer o que quiser", disse.

Ela, que é professora exclusivamente de educação especial e lida diariamente com outros alunos com algum tipo de transtorno, explicou que a demanda da educação especial ainda desconhece alguns caminhos.

Eu sinto que ele teve o direito dele ao conhecimento garantido. A partir do momento em que ele é aprovado em um curso federal, onde a demanda da educação especial ainda desconhece estes caminhos, eu, enquanto professora, vejo que permiti essa possibilidade dele visualizar e alcançar o próprio desejo
Ivanete Florindo, professora de educação especial

Além de preparar uma metodologia diferente e acessível para Rogério e para cada aluno especial, Ivanete trabalha com as famílias e a equipe técnica da escola. "O meu sentimento é saber que pude permitir esse direito de aprendizagem dentro do ambiente escolar e sentir que a inclusão é possível e pode ampliar o ensino fundamental. Toda pessoa tem direito a aprendizagem escolar. Ele atingiu isso, alcançou esse objetivo", finalizou.

SEMED

A Secretaria de Educação da Prefeitura de Vila Velha (Semed) dispõe de educadores especiais em todo o município. Em entrevista, a coordenadora do Núcleo de Educação Especial, Alessandra Silveira, explicou que o papel do Semed é orientar e assessorar as escolas.

"Temos uma equipe de profissionais, assessores técnicos que dão esse encaminhamento: eles olham a questão da adequação de material, o que for necessário. Junto com o professor de sala de aula, ele vê quais são as adequações das necessidades dos alunos especiais", explicou.

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Na questão do Rogério, foi um trabalho em conjunto. A gente sabe que só um professor não faz tudo, só a família não faz tudo. Teve todo um envolvimento: escola, família e aluno

 De acordo com a profissional, no município, todas as escolas têm acesso a um professor de educação especial, em todos os turnos - de manhã, à tarde e à noite.

 

 

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