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Livro de Marielle Franco sobre segurança será lançado em Vitória

Publicação é dissertação de mestrado da vereadora assassinada sobre as UPPs no Rio

Vereadora Marielle Franco foi assassinada em março
Vereadora Marielle Franco foi assassinada em março
Foto: Mário Vasconcellos/CMR

O assassinato da vereadora carioca Marielle Franco completa nove meses no dia 14 de dezembro. Mas isso não impediu que sua memória e seus ideais de uma sociedade mais igualitária continuassem reverberando. A novidade é o lançamento de seu livro “UPP: A Redução da Favela a Três Letras”. O evento ocorrerá em 18 cidades simultaneamente amanhã. Em Vitória, será realizado no Museu Capixaba do Negro (Mucane), às 14 horas.

O livro é a compilação da dissertação de mestrado de Marielle, defendida em 2015 na Universidade Federal Fluminense. Ele faz uma análise da implementação das Unidades de Polícia Pacificadoras (UPPs) e os impactos dessa política de segurança pública no Rio de Janeiro. O livro será lançado pela editora N-1 Edições, que destinará a renda para familiares de Marielle.

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Segundo a irmã da vereadora, Anielle Franco, a família realiza um desejo da vereadora, que possuia esse projeto antes de morrer. “Ela aborda vários aspectos das UPPs do Rio de Janeiro. Na maioria das vezes, tinha um tom crítico porque, para ela, as UPPs não funcionavam e continuam não funcionando como deveriam.”

A psicóloga e uma das organizadoras do evento na Capital Luizane Guedes Mateus diz que o livro pode ser dividido em três momentos: primeiro, a formação das UPPs e uma análise sobre essa política de segurança pública; segundo, um olhar da vereadora sobre os significados das comunidades economicamente vulneráveis para a sociedade; e o terceiro, uma análise das estratégias de resistência das pessoas que vivem nas comunidades.

“O livro é um soco no estômago. Marielle nesse livro é a narradora e a personagem ao mesmo tempo porque ela traz narrativas que ela mesma, enquanto moradora do Complexo da Maré, experienciou”, esclarece.

Para Luizane, alguns pontos do livro que abordam aspectos da segurança pública no Rio de Janeiro se assemelham ao Espírito Santo. “O livro aborda um olhar sobre segurança pública voltado para a militarização, uma intervenção que isola os territórios ditos de risco, e não investindo nesses territórios com políticas sociais. É um enfrentamento do crime, e não das causas do crime”, acredita.

MORTE

O assassinato de Marielle ocorreu no dia 14 de março de 2018, no bairro Estácio, região central da capital fluminense. Os criminosos estavam em um carro que emparelhou com o da vereadora e efetuaram vários disparos, que também mataram o motorista Anderson Gomes.

Quase nove meses depois, o caso continua sem solução. “Está tudo basicamente do mesmo jeito do primeiro dia, a gente não tem resposta, não tem segurança. A gente sente um vazio grande, é uma perda enorme e uma dor que não diminui com o tempo. A saudade aumenta”, lamenta a irmã da vereadora.

Anielle diz que publicar  livro era um projeto da irmã
Anielle diz que publicar livro era um projeto da irmã
Foto: MAURO PIMENTEL

 

 

"É UMA DOR QUE NÃO DIMINUI COM O TEMPO"

A irmã da vereadora Marielle Franco, Anielle Franco, fala sobre o lançamento do livro e como está a vida da família desde que a irmã foi assassinada, no dia 14 de março.

Por que decidiram lançar o livro?

Marielle já iria lançar o livro, atendemos a um desejo dela.

Houve muitas modificações por ser uma dissertação de mestrado?

A Lia Rocha, amiga e professora da UERJ, foi a pessoa que fez pequenas adaptações para que pudesse virar um livro. Mas cerca de 98% da obra está igual.

Marielle defendeu a tese quando?

Ela defendeu a tese em 2015. Ela aborda vários aspectos dos modelos de UPPs do Rio de Janeiro. Na maioria das vezes ela tinha um tom crítico porque, para ela, as UPPs não funcionavam e continuam não atuando como deveriam.

Para ela somente o policiamento não resolveria o problema?

Sim. Porque a favela não pode ser resumida somente a isso e se basear apenas na UPP. Uma das maiores violências que existem nas comunidades no Rio é a entrada das polícias nas casas, é uma ação truculenta.

Dia 14 a morte da vereadora completará nove meses. Como vocês se sentem?

Basicamente do mesmo jeito do primeiro dia, não tem resposta, não tem segurança. A gente sente um vazio grande, é uma perda enorme e uma dor que não diminui com o tempo. A saudade aumenta.

Vocês têm resposta de alguma coisa?

Nada. A gente não sabe nada da investigação e não há nenhuma resposta.

Como é para família após nove meses não ter nenhuma resposta?

Fica um sentimento de impunidade.

As pessoas dizem que Marielle virou semente. O que vocês pensam sobre isso? Acredita que suas ideias estão se propagando?

Acho que sim, despertou um sentimento em muita gente Brasil e mundo afora. Muitas pessoas não aceitam injustiça e sabem que foi uma morte injusta e política. Acredito que ela é uma semente que dá vários frutos.

Os lançamentos serão independentes. O que você acha disso?

Serão lançamentos independentes. Cada Estado organizou de acordo com sua militância, eu acho importante. Tem sempre alguém ligado à militância das causas de Marielle, acho isso legal.

Para a família o lançamento do livro é importante?

Para todo mundo é importante para conhecer um pouco da história dela. Atualmente, existem muitas fake news, as pessoas falam sem saber. Acho importante conhecer o trabalho acadêmico dela.

Ela já estava no mundo político quando defendeu a tese?

Sim. Ela era da Comissão de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro. Ela se tornou vereadora em 2016.

 

 

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