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Cobrador de ônibus supera dificuldades e conquista diploma de Direito

Após deixar os estudos quando criança, Caio está perto de realizar o sonho de ser advogado

Caio se empenhou para dar conta de trabalhar nos ônibus, estagiar e estudar para a faculdade
Caio se empenhou para dar conta de trabalhar nos ônibus, estagiar e estudar para a faculdade
Foto: Marcelo Prest

Dos ônibus para os escritórios de advocacia: a vontade de estudar está mudando a vida do cobrador do sistema Transcol Caio César Silvério Soares, de 32 anos, que acabou de concluir o curso de Direito em uma faculdade particular de Vitória e sonha em ser advogado – o desejo depende da aprovação na prova da OAB, que ele fará ainda nesse primeiro semestre. Ele vai receber o diploma em cerimônia no mês que vem.

A rotina foi árdua para o cobrador de ônibus, que teve que conciliar o emprego, o estágio e as aulas na faculdade. Pegava no trabalho às 4h e só voltava para casa após às 23h. E as noites de pouco sono de Caio, que mora em Cariacica, estão longe de ser as únicas lutas que ele teve.

Mineiro de Governador Valadares, teve que interromper os estudos na 5ª série do ensino fundamental para ajudar a sustentar a família. Aos 7 anos, Caio já conseguia levar dinheiro para casa, vendendo picolé, engraxando sapato e lavando carros.

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Depois, com 8 anos, ele passou por um dos maiores baques da sua história: sua mãe foi baleada no pescoço pelo próprio marido, padrasto de Caio, durante uma briga, ficou tetraplégica e passou a depender ainda mais dos filhos. “Passa um filme na minha cabeça. Lembro da minha história, da minha mãe e de tudo que ela sonhava para os filhos”, disse o cobrador, quase chorando ao se lembrar da mãe, que faleceu de câncer em 2011.

Incentivado por amigos e parentes, Caio veio tentar a vida no Espírito Santo. Começou a trabalhar em um supermercado e, pouco tempo depois, conseguiu um emprego na empresa de ônibus do Sistema Transcol. Apertando o orçamento, arranjou um jeito de arcar com os custos da faculdade. E valeu a pena. “Não foi fácil, mas tenho muito orgulho da minha trajetória”, conta.

E quem tem o prazer de conhecer um pouco da vida de Caio durante o percurso do ônibus da linha 730 (Bairro Expedito - Terminal de Jardim América) vê nele uma inspiração, como comentou a passageira Cleuza Maria Wokosky, de 65 anos. “O que me chamou atenção no Caio foi a vontade dele de vencer. Ele é um herói e nadou contra a correnteza. O mundo precisa de mais gente como ele”, diz ela.

"DORMIR MAIS DE 3 HORAS POR NOITE ERA UM LUXO"

Foto: Marcelo Prest

 

 

O cobrador de ônibus Caio César Silvério, de 32 anos, que conseguiu concluir o curso de Direito, conta que dormia de duas a três horas por noite para dar conta de estudar. Hoje casado e com esposa grávida de cinco meses, o cobrador diz que sente muito orgulho de sua trajetória.

Você sempre sonhou em ser advogado?

Sempre tive curiosidade de conhecer as leis. Às vezes, quando adolescente, via os policiais dando batida nas ruas e queria ver como funcionava o sistema.

Por que precisou abandonar os estudos quando criança?

Por causa das condições da minha família. Minha mãe recebia um salário mínimo, mas tinha que pagar aluguel e muitas vezes faltavam as coisas dentro de casa.

Foi muito difícil tomar essa decisão, não é?

Sim. Desde criança, gostava de estudar. Tive que interromper meus planos, mas era preciso naquele momento.

Nessa sua trajetória difícil na infância e adolescência, o que mais marcou você?

Minha mãe ficou tetraplégica após levar um tiro do meu padrasto em uma briga. Saí para brincar na rua com meus amigos e quando cheguei em casa vi uma ambulância com as pessoas socorrendo minha mãe. O homem fugiu e nunca foi encontrado. Ela passou a precisar de ajuda para tudo: virar na cama, tomar banho e até comer.

 

 

Como era a sua rotina durante a faculdade?

Depois que consegui um estágio, entrava no trabalho às 4h e ia até 13h20. Trocava de roupa muitas vezes no próprio banheiro do terminal e seguia para o estágio e de lá para a faculdade. Só ia dormir por volta de meia-noite. Era muito puxado. Conseguir dormir mais de três horas por noite era um luxo.

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