Entrevista

Dona de creche: "Nem nos piores pesadelos imaginava passar por isso"

Vitor Jubini
Essa creche sempre foi um sonho em nossas vidas

Mesmo muito abalada, a dona da creche Praia Baby, localizada na Praia da Costa, em Vila Velha, quebrou o silêncio e concedeu à Rede Gazeta a primeira entrevista sobre o surto de infecção que matou um menino de dois anos e contaminou pelo menos outras 16 pessoas incluindo alunos, professores e funcionários do local. L.C. pediu para não ter o nome divulgado. Ela e o marido administravam a creche e demonstram, a todo momento, a dor que sentem diante dos últimos acontecimentos.

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“Nem nos nossos piores pesadelos imaginaríamos passar por um momento como esse, de sofrimento, de exposição, de perda de uma vida. Quero agradecer novamente as declarações da mãe do nosso querido aluno Theo. Ela não buscou culpados e deu exemplo de grandeza, de fé, de humanidade. Só uma grande mulher é capaz de um gesto como esse. Somos solidários à dor dessa mãe. Solidários também a todos os pais e mães que têm filhos na nossa creche. Ficamos emocionados com os apoios que recebemos desses pais e mães. Sabemos o trabalho sério que sempre realizamos. Somos trabalhadores. Essa creche sempre foi um sonho em nossas vidas.”

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A ENTREVISTA

Como foi o momento em que vocês perceberam que o episódio envolvendo alunos não se tratava de algo corriqueiro numa creche, onde crianças ficam doentes, caem, se machucam?

Quando tivemos três alunos com episódios de diarreia e vômito, até então tratados como viróticos. Esses episódios nos alertaram e, imediatamente, numa sexta-feira à noite (22/03), fora do horário comercial, acionamos o plantão da Epidemiologia da Prefeitura de Vila Velha e comunicamos o caso para que apurassem, a fim de que não houvesse uma proliferação. Portanto , todos os procedimentos necessários, em se tratando de vida de crianças, partiram inicialmente e exclusivamente da nossa creche. Sempre tivemos muito cuidado com nossos alunos.

O que motivou vocês a construírem uma fábrica artesanal de cerveja atrás da creche, mesmo sabendo da incompatibilidade de tal empreendimento no mesmo espaço de uma creche?

É preciso esclarecer que somos do ramo da Educação há mais de 25 anos. Não temos nenhum interesse, nem tempo, de nos dedicarmos a outra atividade que não seja a nossa escola. Portanto, esse ambiente era utilizado exclusivamente para depósito de materiais pessoais. Ele ficava completamente isolado do restante da creche e devidamente trancado.

Cervejaria artesanal funcionava nos fundos da creche, em local separado por um portão
Cervejaria artesanal funcionava nos fundos da creche, em local separado por um portão
Foto: Divulgação

Com que frequência a água do brinquedo AcquaPlay (chafariz) era trocada? E os meninos brincavam lá sempre?

Todos os alvarás e licenças para funcionamento da creche sempre estiveram rigorosamente em dia, inclusive do brinquedo - que já existe há quatro anos. O AcquaPlay era usado, em média, duas vezes por semana. A utilização dependia do clima. Em dia de chuva ou muito vento, por exemplo, não era utilizado. A água era totalmente renovada a cada utilização, após a limpeza total e higienização do brinquedo. Como temos o sistema de monitoramento online, é de ciência de todos os pais e mães como esse preparo era realizado.

Durante o período de renovação dos alvarás de funcionamento (desde o início das atividades da creche) as autoridades sanitárias recomendaram alguma alteração, adequação ou encontraram alguma irregularidade? Se sim, quais e o que foi feito?

A cada visita da vigilância sanitária, sempre cumprimos todos os requisitos de troca de filtro que estavam previstas. Temos recibos de todas as compras desse material, cujas cópias das notas fiscais sempre foram enviadas para o município.

O AcquaPlay utilizado pelas crianças
O AcquaPlay utilizado pelas crianças
Foto: Reprodução

Vocês estiveram com os pais dos alunos após o fechamento da creche? E com os pais do Theo? E como foi a conversa?

Mantemos contato permanente com os pais e mães. Sempre formamos uma família. Tanto é que as mensagens que temos recebido e que também enviamos são todas de muito respeito e carinho.

A abertura da creche foi a concretização de um sonho do casal. Como pensam a vida de agora em diante?

Deus tem propósito para todos. Ainda estamos tentando entender tudo isso. É momento de muita dor. Tivemos a perda de um aluno que o nosso filho, que também estuda na creche, também chamava de irmão, por terem o mesmo nome. Ninguém consegue imaginar como é difícil esse momento que vivemos. Neste momento a nossa preocupação está toda voltada para a saúde dos nossos alunos. Temos fé que tudo será esclarecido e que vamos conseguir retomar nossas atividades com segurança e a mesma qualidade que sempre tivemos.

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