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Surto: bactéria pode ter sido levada para creche, diz infectologista

Afirmação é de Lauro Ferreira Pinto, um dos especialistas ouvidos pelas autoridades de Saúde em meio à investigação do surto de gastroenterite em creche na Praia da Costa, Vila Velha

As investigações que buscam descobrir a origem da bactéria que provocou o surto de gastroenterite na creche Praia Baby, na Praia da Costa, em Vila Velha, apontam para uma fonte externa — que alguém que já estava doente levou a bactéria para dentro da instituição, onde se espalhou. A informação é do infectologista Lauro Ferreira Pinto, em entrevista à jornalista Fernanda Queiroz, na Rádio CBN Vitória (92,5 FM).

“Em princípio, as informações que os técnicos têm é de que, muito provavelmente, foi levada para lá (a bactéria). Uma criança doente, que pode ter vindo de fora e pode ter criado condições de contaminação para outras crianças”, afirmou o infectologista Lauro Ferreira Pinto, em entrevista à Rádio CBN Vitória ontem.
Lauro Ferreira Pinto, infectologista

As apurações, segundo o médico, continuam para que seja encontrada uma resposta definitiva. “A investigação de focos de contaminação está em andamento e as respostas ainda não estão colocadas”, diz. O infectologista é um dos especialistas ouvidos pelas autoridades de Saúde (Ministério da Saúde e secretarias de Saúde do Estado e de Vila Velha) para formulação de diretrizes para conter o surto e evitar propagação.

A reportagem questionou as autoridades de Saúde sobe as investigações da fonte do surto de infecção intestinal, mas não obteve retorno.

VÍTIMAS DO SURTO

Até o momento, 22 pessoas apresentaram sintomas, sendo 18 ligadas diretamente à creche (13 crianças e cinco adultos). As outras quatro pessoas são todas familiares de uma professora que trabalhava na instituição e que também ficou doente. Um menino de 2 anos morreu e uma criança segue internada na UTI de um hospital particular na Serra.

AS CARACTERÍSTICAS DA BACTÉRIA

Foto: Reprodução

A bactéria apontada como causadora do surto é a E.coli enterohemorrágica, que provoca sangramentos intestinais e diarreia. Ela produz ainda uma toxina (Shiga) que ataca principalmente os rins, coração e o cérebro. Essa complicação, chamada de Síndrome Hemolítico-urêmica, é mais comum em crianças pequenas. Esse tipo de E.coli foi encontrado em exames de duas crianças da creche.

Dentre os afetados, três crianças evoluíram para quadros mais graves e precisaram passar por procedimentos de diálise. Uma delas, o menino Theo Cypriano, de 2 anos, morreu no dia 27.

E. COLI, CONHECIDA COMO BACTÉRIA DO HAMBÚRGUER

Foto: Pixabay

A variação mais agressiva da bactéria Escherichia coli, que é enterohemorrágica, era conhecida como "bactéria do hambúrguer" após um surto nos EUA. A descoberta, feita por uma equipe de pesquisadores da Ufes, ajuda no tratamento específico dos pacientes.

>Surto em creche no ES é agressivo, raro e inédito no Brasil

Em entrevista à TV Gazeta, a microbiologista Liliana Spano, que estava à frente da pesquisa, falou sobre o tema e os riscos de antibióticos agravarem o quadro dos pacientes. O local em que ela trabalha auxilia o Laboratório Central de Saúde Pública do Estado (Lacen) na análise das amostras das pessoas infectadas e da água colhida na creche.

O que vocês descobriram durante esse trabalho no sábado?

Quando entraram (Secretaria de Estado da Saúde) em contato conosco, nós estávamos preocupados porque o surto já estava acontecendo há umas duas semanas e efetivamente, qual era o agente etiológico, não se tinha, embora se tivesse isolado a Escherichia coli.

Mas, como a Escherichia coli está na microbiota normal, o nosso trabalho em si foi ver se aquela E.coli era a normal no intestino ou se ela tinha alguma característica que responderia por ela causar o surto. Na realidade, ela corresponde a um tipo que causa doença no intestino que as normais não causam.

É uma bactéria agressiva?

É uma das mais graves daquelas que podem causar doença intestinal. É uma das mais graves que nós temos.

O que vocês já sabem sobre esse tipo de bactéria?

Nós temos várias características dela. Ela está associada a algumas consequências que são mais sérias, principalmente em crianças de até 10 anos de idade, que é chamada síndrome hemolítica urêmica, que pode ser fatal ou deixar sequelas renais.

Foto: Reprodução/TV Gazeta

Pela consequência que ela traz, causa uma colite (inflamação no intestino) hemorrágica. Ela começa com uma diarreia, depois uma diarreia com sangue por causa da colite hemorrágica que se desenvolve. Isto vai se dever à produção de uma toxina que foi detectada, que caracterizou essa bactéria.

Uma das características dela é a produção dessa toxina, que cai na circulação sanguínea e ela pode atingir diversos órgãos, o que vai ser responsável pelos casos mais graves dessa doença.

Essa bactéria já é conhecida de outros casos, inclusive era chamada de 'bactéria do hambúrguer'?

Exatamente. Ela foi chamada de bactéria do hambúrguer, porque o primeiro surto que evidenciou essa bactéria foi exatamente um surto que estava associado ao consumo de hambúrguer nos EUA. Foram dois surtos quase concomitantemente nos EUA e no Canadá, quando aconteceu a detecção dessa bactéria que era até então uma bactéria não conhecida.

E estudos que eles fizeram retrospectivos encontraram muito pouco, significando que, a partir daí, essa bactéria começou a emergir e passou a ser encontrada em quantidade mais importante em diversos países do mundo, como EUA, Argentina e Noruega.

No Brasil, ela acontece em uma frequência muito baixa.

Como deve ser o tratamento para esses casos? Como age o antibiótico no nosso organismo?

Quando você tem um quadro que tem um comprometimento intestinal mais sério, vai demandar o uso de antibiótico. Especificamente para essa bactéria, o que se sabe, é o seguinte: não é recomendado, mas a critério clínico ele (o médico) vai tomar a decisão se vai entrar com o antibiótico ou não.

Por que não é recomendado?

Porque tem alguns antibióticos que, para essa bactéria, o que eles podem fazer é estimular a produção de toxina. Então a bactéria produz toxina, ela passar a produzir mais toxinas.

Tem antibióticos que eles têm uma ação de destruir a célula da bactéria. Quando rompe a bactéria e mata, são chamados os antibióticos bactericidas, eles acabam liberando mais toxina. Eles estimulam mais a liberação da toxina e em quantidade maior na corrente sanguínea.

Essa descoberta ajuda a nortear o trabalho dos médicos?

Para o controle desse surto, quando você conhece o agente etiológico em relação à conduta clínica, o clínico já sabe quais são as condutas que ele vai tomar. E era o que eles estavam fazendo: a diálise nas crianças.

De onde pode ter vindo essa bactéria?

Quem é o reservatório é o gado e, predominantemente, é o gado bovino. Um indivíduo que entra em contato com o gado bovino pode adquirir a infecção. A carne mal cozida do animal ou crua. A carne mal cozida, como é o caso, por exemplo, dos hambúrgueres. A carne moída, principalmente, quando não é cozida de maneira adequada, de 70 graus para poder matar a bactéria, ela vai servir como fonte de infecção.

Leite não pasteurizado, águas que são contaminadas, além de legumes e verduras que sejam contaminados com água de irrigação. Ou esterco de boi mesmo usado como adubação. Tudo isso pode levar a uma contaminação que homem vai passar a ingerir.

Risco de transmissão.

Nós temos que considerar esse período em que elas foram infectadas e já estão afastadas e se estão ou não apresentando os sintomas. O que é sabido de tempo de excreção dessa bactéria é que a maioria dos indivíduos para de excretar essa bactéria depois de 7 a 9 dias do início dos sintomas.

Mas existem casos que levam semanas e até meses. O que a gente precisa considerar são medidas básicas de higiene, como lavar as mãos. Não só para essa bactéria, mas para uma série de agentes que causam infecção.

Perícia da Polícia Civil visitou creche onde houve surto de diarreia
Perícia da Polícia Civil visitou creche onde houve surto de diarreia
Foto: Vitor Jubini

OUTROS CASOS PELO MUNDO

Estados Unidos

Bactéria do hambúrguer

Esse tipo de bactéria E.coli foi registrada pela primeira vez nos Estados Unidos, em 1982. Os surtos foram relacionados à ingestão de hambúrguer de carne bovina mal cozido. Pessoas no Canadá também foram afetadas.

Comum

Em 20 anos, foram 350 surtos dessa bactéria na região. Cerca de 0,5% das pessoas infectadas morreram.

Japão

Escola

Em 1996, foram registrados surtos em escolas do Japão. O maior deles ocorreu na cidade de Sakai, com mais de 5.500 pessoas atingidas pelo consumo de broto de rabanete, com três mortes registradas.

EUROPA

Alemanha

Uma bactéria similar à que causou o surto na creche em Vila Velha (mas que também produz a Shiga) provocou até junho de 2011, 17 mortes: 16 na Alemanha e uma na Suécia. Inicialmente se desconfiou que a origem estivesse em pepinos da Espanha, mas depois descobriu-se que a bactéria vinha de brotos de feno grego, utilizados como guarnição em comidas

CRIANÇAS EM QUARENTENA

Após uma nota das autoridades de Saúde recomendar que as crianças da creche Praia Baby, na Praia da Costa, em Vila Velha, só voltem às aulas após o dia 28 de abril, muitos dúvidas surgiram, inclusive nos pais dos alunos a respeito da presença dessas crianças em outro ambientes. O médico Lauro Ferreira Pinto explica, entretanto, que os meninos e meninas podem sim frequentar espaços públicos. O que acontece é que as creches são espaços onde a contaminação é ampliada pelo grande contato entre as crianças e, por isso, há o cuidado em aguardar o retorno às aulas, explicou o infectologista em entrevista à jornalista Fernanda Queiroz, na Rádio CBN Vitória

Creche interditada na Praia da Costa, em Vila Velha

Na creche foi identificado um surto de gastroenterite no mês passado e, até o momento, 22 pessoas entre alunos, funcionários e parentes de pessoas da creche apresentaram sintomas. Um menino de 2 anos morreu no último dia 27.  

> As orientações do Ministério da Saúde para evitar gastroenterite

A orientação é de que, até 28 de abril, as crianças também não sejam matriculadas em outras instituições. O analista comercial Leonardo Có, que tem uma filha de 3 anos que estuda na Praia Baby, questionou nesta segunda-feira (8) a restrição feita a matrículas em outras creches e a falta de informação sobre a presença das crianças e familiares em outros ambientes. “Colocou agora essa impossibilidade de ir para creche até o dia 28. E ir para outro ambiente? Posso ir para o shopping? A nota não fala disso. Em nenhum lugar fala se eu posso ir para outro ambiente público. Ambiente com aglomeração de pessoas”, questiona.

Segundo o infectologista Lauro Ferreira Pinto, um dos especialistas consultados pela força-tarefa criada para conter o surto e evitar propagação, a princípio, não há restrições para que as crianças frequentem ambientes públicos, como shoppings e parquinhos, por exemplo. “Em princípio a criança não está proibida de nada. O que se pede de cautela é que a higiene pessoal delas, quando vai no banheiro, por exemplo, seja redobrada”.

CRECHE SEM DATA PARA REABRIR

Creche particular de Vila Velha que teve surto de gastroenterite no final de em março segue sem previsão de reabertura. Para que volte a receber os alunos, será preciso que exames laboratoriais e que a força tarefa do caso atestem que o local é seguro.

Desde que a primeira internação aconteceu, no dia 17 de março, a Polícia Civil periciou o local duas vezes e médicos estrangeiros se juntaram ao caso. A perícia foi motivada pela morte de um dos alunos da creche, um menino de 2 anos, em 27 de março. 

DONA DA CRECHE DESABAFA

Essa creche sempre foi um sonho em nossas vidas

Mesmo muito abalada, a dona da creche Praia Baby, localizada na Praia da Costa, em Vila Velha, quebrou o silêncio e concedeu à Rede Gazeta a primeira entrevista sobre o surto de infecção que matou um menino de dois anos e contaminou pelo menos outras 16 pessoas incluindo alunos, professores e funcionários do local. L.C. pediu para não ter o nome divulgado. Ela e o marido administravam a creche e demonstram, a todo momento, a dor que sentem diante dos últimos acontecimentos.

> ARTIGO | As lições de vida ensinadas pela 'Mãe do Theo'

“Nem nos nossos piores pesadelos imaginaríamos passar por um momento como esse, de sofrimento, de exposição, de perda de uma vida. Quero agradecer novamente as declarações da mãe do nosso querido aluno Theo. Ela não buscou culpados e deu exemplo de grandeza, de fé, de humanidade. Só uma grande mulher é capaz de um gesto como esse. Somos solidários à dor dessa mãe. Solidários também a todos os pais e mães que têm filhos na nossa creche. Ficamos emocionados com os apoios que recebemos desses pais e mães. Sabemos o trabalho sério que sempre realizamos. Somos trabalhadores. Essa creche sempre foi um sonho em nossas vidas.”

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A ENTREVISTA

Como foi o momento em que vocês perceberam que o episódio envolvendo alunos não se tratava de algo corriqueiro numa creche, onde crianças ficam doentes, caem, se machucam?

Quando tivemos três alunos com episódios de diarreia e vômito, até então tratados como viróticos. Esses episódios nos alertaram e, imediatamente, numa sexta-feira à noite (22/03), fora do horário comercial, acionamos o plantão da Epidemiologia da Prefeitura de Vila Velha e comunicamos o caso para que apurassem, a fim de que não houvesse uma proliferação. Portanto , todos os procedimentos necessários, em se tratando de vida de crianças, partiram inicialmente e exclusivamente da nossa creche. Sempre tivemos muito cuidado com nossos alunos.

O que motivou vocês a construírem uma fábrica artesanal de cerveja atrás da creche, mesmo sabendo da incompatibilidade de tal empreendimento no mesmo espaço de uma creche?

É preciso esclarecer que somos do ramo da Educação há mais de 25 anos. Não temos nenhum interesse, nem tempo, de nos dedicarmos a outra atividade que não seja a nossa escola. Portanto, esse ambiente era utilizado exclusivamente para depósito de materiais pessoais. Ele ficava completamente isolado do restante da creche e devidamente trancado.

Cervejaria artesanal funcionava nos fundos da creche, em local separado por um portão
Cervejaria artesanal funcionava nos fundos da creche, em local separado por um portão
Foto: Divulgação

Com que frequência a água do brinquedo AcquaPlay (chafariz) era trocada? E os meninos brincavam lá sempre?

Todos os alvarás e licenças para funcionamento da creche sempre estiveram rigorosamente em dia, inclusive do brinquedo - que já existe há quatro anos. O AcquaPlay era usado, em média, duas vezes por semana. A utilização dependia do clima. Em dia de chuva ou muito vento, por exemplo, não era utilizado. A água era totalmente renovada a cada utilização, após a limpeza total e higienização do brinquedo. Como temos o sistema de monitoramento online, é de ciência de todos os pais e mães como esse preparo era realizado.

Durante o período de renovação dos alvarás de funcionamento (desde o início das atividades da creche) as autoridades sanitárias recomendaram alguma alteração, adequação ou encontraram alguma irregularidade? Se sim, quais e o que foi feito?

A cada visita da vigilância sanitária, sempre cumprimos todos os requisitos de troca de filtro que estavam previstas. Temos recibos de todas as compras desse material, cujas cópias das notas fiscais sempre foram enviadas para o município.

Vocês estiveram com os pais dos alunos após o fechamento da creche? E com os pais do Theo? E como foi a conversa?

Mantemos contato permanente com os pais e mães. Sempre formamos uma família. Tanto é que as mensagens que temos recebido e que também enviamos são todas de muito respeito e carinho.

A abertura da creche foi a concretização de um sonho do casal. Como pensam a vida de agora em diante?

Deus tem propósito para todos. Ainda estamos tentando entender tudo isso. É momento de muita dor. Tivemos a perda de um aluno que o nosso filho, que também estuda na creche, também chamava de irmão, por terem o mesmo nome. Ninguém consegue imaginar como é difícil esse momento que vivemos. Neste momento a nossa preocupação está toda voltada para a saúde dos nossos alunos. Temos fé que tudo será esclarecido e que vamos conseguir retomar nossas atividades com segurança e a mesma qualidade que sempre tivemos.

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