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Surto em creche no ES é agressivo, raro e inédito no Brasil

Casos com bactéria mais agressiva são considerados raros

Perícia da Polícia Civil visitou creche onde houve surto de diarreia
Perícia da Polícia Civil visitou creche onde houve surto de diarreia
Foto: Vitor Jubini

O surto de gastroenterite originado no dia 15 de março em uma creche na Praia da Costa, em Vila Velha, é o primeiro com uma variação mais agressiva da bactéria Escherichia coli no país. Segundo especialistas consultados pela reportagem, casos isolados já foram registrados no Brasil, mas são raros.

“Essa infecção é muito comum em outros países, mas não no Brasil. Seria o primeiro surto no país”, afirma a professora do laboratório de Virologia e Gastroenterite Infecciosa da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) Liliana Cruz Spano. O local em que ela trabalha auxilia o Laboratório Central de Saúde Pública do Estado (Lacen) na análise das amostras das pessoas infectadas e da água colhida na creche.

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A contaminação já matou um menino, de 2 anos, e está em outras crianças, familiares e professores da creche Praia Baby foi provocada por uma variação da bactéria E.coli que é enterohemorrágica, o que significa que ela provoca lesões nas células do intestino. Além disso, esse tipo específico de E.coli também libera uma toxina, chamada de Shiga, que afeta os rins e pode até causar danos cerebrais.

Esse tipo de bactéria já foi confirmado em amostras de dois alunos. Atualmente, há 14 crianças afetadas e oito adultos — cinco professores e funcionários e três parentes de pessoas relacionadas a uma professora da creche. Nesta terça-feira (2), a perícia da polícia esteve na creche para recolher amostras do local e fazer mais exames.

A microbiologista da UVV Clarisse Arpini explica que esse tipo específico de E.coli é encontrado no intestino de animais, principalmente em bovinos. Pessoas adquirem a bactéria comendo alimentos contaminados com as fezes desses animais. Uma vez ingerida, a bactéria consegue sobreviver à acidez do estômago. “Ela tem um sistema de adesão que consegue ‘grudar’ no intestino e começa a se multiplicar. Pode chegar ao ponto de produzir uma lesão tão grande que entra na corrente sanguínea e afeta outros órgãos”, explica.

Essa bactéria gruda no intestino, começa a se multiplicar e pode chegar à corrente sanguínea
Clarisse Arpini, microbiologista da UVV

Nesses casos, ocorre a Síndrome Hemolítico-Urêmica, que causa morte celular nos rins, intestino e cérebro. Isso provoca, por exemplo, falência renal, como aconteceu com o menino Theo Cypriano, de 2 anos, que morreu no último dia 27.

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“De modo geral, 10% dos infectados vai evoluir para essa forma mais grave que é a síndrome. Essa bactéria é mais grave nas crianças porque elas, até 10 anos, são mais suscetíveis. A toxina (produzida pela bactéria) age se ligando em receptores nas células e as crianças têm mais receptores que os adultos. Isso leva à hemorragia intestinal”, esclarece Liliana. Mesmo quem sobrevive, pode, posteriormente, ter problemas renais, entre outros.

OUTROS CASOS PELO MUNDO

Estados Unidos

Bactéria do hambúrguer

Esse tipo de bactéria E.coli foi registrada pela primeira vez nos Estados Unidos, em 1982. Os surtos foram relacionados à ingestão de hambúrguer de carne bovina mal cozido. Pessoas no Canadá também foram afetadas.

Comum

Em 20 anos, foram 350 surtos dessa bactéria na região. Cerca de 0,5% das pessoas infectadas morreram.

Japão

Escola

Em 1996, foram registrados surtos em escolas do Japão. O maior deles ocorreu na cidade de Sakai, com mais de 5.500 pessoas atingidas pelo consumo de broto de rabanete, com três mortes registradas.

EUROPA

Alemanha

Uma bactéria similar à que causou o surto na creche em Vila Velha (mas que também produz a Shiga) provocou até junho de 2011, 17 mortes: 16 na Alemanha e uma na Suécia. Inicialmente se desconfiou que a origem estivesse em pepinos da Espanha, mas depois descobriu-se que a bactéria vinha de brotos de feno grego, utilizados como guarnição em comidas

HAMBÚRGUER

A professora conta que, em outros países, surtos como o que ocorre na creche são até comuns. “Nos Estados Unidos ela é conhecida como a bactéria do hambúrguer porque o primeiro surto registrado foi lá, em 1982, a partir de carne de hambúrguer contaminada”, diz Liliana.

A carne pode ser contaminada se, durante o processo de produção, entrar em contato com as fezes do animal. “Nos EUA, em 20 anos, foram 350 surtos dessa bactéria. Houve 0,5% de mortes”, aponta.

Na década de 1990, o Japão também teve um grande surto. Foram 6 mil casos. O problema se iniciou em uma escola a partir de brotos de rabanete contaminados.

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Mais recentemente, em 2011, um surto na Alemanha com uma bactéria similar resultou em 890 casos de pessoas com a síndrome, ou seja, mais graves. Ao todo, mais de 4 mil se contaminaram. ”A bactéria vinha de brotos de feno grego, utilizados como guarnição na Europa”, explica Liliana. Ele havia sido contaminado com água que vinha de uma fábrica de esterco.

Esse surto na Europa durou três meses, o tempo que os especialistas levaram para descobrir a origem. “Quando acontece um surto o problema é descobrir a fonte. Uma vez descoberta, você controla, mas não é simples. Tem que fazer um levantamento e investigar todas as possibilidades”, diz.

CONTAMINAÇÃO POR ATÉ 21 DIAS

Os pacientes sintomáticos podem continuar contaminando outras pessoas por até 21 dias. A informação é do infectologista Lauro Ferreira Pinto. Ele afirmou ainda, em reunião com técnicos das Vigilâncias Sanitária, Epidemiológica e Ambiental de Vila Velha, que as infecções mais graves ocorrem em crianças de 2 a 5 anos e podem demorar cerca de três dias até que os primeiros sintomas se iniciem.

Segundo a microbiologista da UVV Clarisse Arpini, em pessoas saudáveis um mesmo tipo de E.coli pode causar apenas uma diarreia que passa em alguns dias. “Pode ser que algumas pessoas nem percebam que foram infectadas”, afirma.

A bactéria E.coli foi encontrada na água que circulava em um playground molhado na creche – ainda não se sabe se é do mesmo tipo grave encontrado em duas crianças.

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Ela explica que a transmissão da E.coli mais agressiva de pessoa para pessoa ocorre comumente dentro de casa. ”Às vezes a pessoa até lava as mãos depois de ir ao banheiro mas acaba esquecendo alguma parte, por exemplo. A contaminação pode ocorrer também no banheiro como um todo ou na hora de lavar a roupa de alguém infectado”, enumera.

A microbiologista alerta que a melhor maneira de evitar a contaminação dentro de casa é lavando com água e sabão. No entanto, é preciso fazer bem a higienização. “Não é necessariamente usar sabonetes antibactericidas. É o ato mecânico de esfregar as mãos que faz com que as bactérias se desprendam. Elas podem até não morrer, mas já são eliminadas das mãos”, diz.

Ela diz que a limpeza tem que ser feita sem esquecer nenhuma parte. “Muita gente se esquece de limpar entre os dedos, por exemplo”, afirma.

Mas Clarisse diz que não é necessário entrar em pânico com relação à higiene das crianças. “Não é para colocar a criança em ‘uma bolha’ porque ela precisa desenvolver sistema imunológico, mas é preciso ficar atento. Em caso de alguma diarreia que não está normal, tem que levar ao médico”, diz.

INVESTIGAÇÃO

A Prefeitura de Vila Velha informou que, diante da gravidade do surto na creche na Praia da Costa, o secretário municipal de Saúde, Jarbas de Assis, irá acionar por ofício o Ministério da Saúde para que ajudem na investigação e elucidação do caso.

A prefeitura informou ainda que aguarda novos resultados das amostras enviadas ao Laboratório Central de Saúde Pública (Lacen) para tomar novas medidas.

MINIENTREVISTA

A professora e pesquisadora do departamento de Patologia da Ufes Liliana Cruz Spano estuda há cerca de 20 anos agentes como vírus e bactérias que afetam o trato intestinal. Atualmente, ela atua no Laboratório de Virologia e Gastroenterite Infecciosa da Ufes, que está auxiliando a Secretaria de Estado da Saúde na identificação dos agentes causadores do surto em uma creche na Praia da Costa, em Vila Velha.

Qual bactéria foi encontrada nas amostras dos alunos da creche?

Foi um tipo de E.coli enterohemorrágico. Esse tipo produz duas toxinas e, nas amostras, foi identificado uma delas, o tipo 2, que produz a toxina Shiga. Várias bactérias podem produzir essa toxina. Mas essa, além de produzi-la, tem um outro gene, responsável por causar lesão intestinal.

Onde essa bactéria vive?

Quem serve de reservatório para ela são os animais, e não o homem. Por isso é considerada uma zoonose. O homem passa de um para o outro quando está infectado, durante a apresentação dos sintomas. Ele não se mantém portador depois disso. Entre os animais, na maior parte do mundo, os que carregam esse tipo de bactéria são os bovinos.

É comum infecções em humanos em outras partes do mundo?

Sim. No Brasil que não é. Seria o primeiro surto no país. Mas outros países lidam com isso há muito tempo, como Uruguai, Argentina, Estados Unidos e no Japão. Neste último, inclusive, já houve surto com 6 mil infectados.

Esse tipo de bactéria é muito diferente dos outros tipos de E.coli?

Existem mais de 700 tipos de E.coli, mas nem todos provocam doença. São bactérias normais no trato intestinal de animais de sangue quente. Todo mundo tem E.coli nas fezes. Mas uma característica dela é adquirir virulências (capacidade de provocar doenças) diferentes, com isso, surgiram variações que atacam o intestino. Outros podem atingir o trato urinário, por exemplo. Quando se isola uma E.coli no intestino de paciente com distúrbio intestinal, temos que diferenciar se é um tipo normal ou se tem potencial de causar doença.

Foi a partir daí que foi encontrado o tipo que infectou as crianças da creche?

O Lacen mandou a cepa (o tipo encontrado) para cá e fomos pesquisar os vários genes de virulência que existem. Pesquisamos nove diferentes e encontramos a bactéria que produz essa toxina (Shiga), que leva à Síndrome Hemolítico-uréica.

Esse tipo é muio grave?

É grave nas crianças porque elas são mais suscetíveis. De modo geral, 10% dos infectados vai evoluir para essa forma mais grave que é a síndrome. A toxina age se ligando em receptores nas células e as crianças têm mais receptores que os adultos. Isso leva à hemorragia intestinal.

PREVENÇÃO

- A principal ação preventiva é o cuidado com a higiene. Lavar bem as mãos, com água e sabão, após usar o banheiro e antes de preparar refeições é fundamental. O ato mecânico de esfregar é mais importante que o sabão em si para eliminação das bactérias.

- No caso de ambientes com crianças, a atenção deve ser redobrada. O cuidador da criança que troca uma fralda, por exemplo, não pode pegar na chupeta sem lavar as mãos. Os brinquedos que usam devem ser frequentemente higienizados, uma vez que as crianças costumam levá-los à boca.

- Frutas e hortaliças devem ser higienizados não apenas com água corrente. O uso do hipoclorito de sódio (uma colher de sopa para cada litro de água, por 15 minutos) é indicado para esses casos.

- Carnes e frangos devem ser bem cozidos e sua origem deve ser verificada.

- Crianças com sintomas de diarreia não devem ser levadas a ambientes públicos, como escola e praia, sob risco de contagiar outras pessoas.

Fontes: especialistas ouvidos pela reportagem

MAIS 2 CRIANÇAS E 3 FAMILIARES COM SINTOMAS

Mais duas crianças e três adultos estão sendo monitorados entre os casos do surto de infecção intestinal originado em uma creche na Praia da Costa, em Vila Velha. Agora, já são 22 pessoas que apresentaram os sintomas no total.

Entre os novos casos, estão duas alunas da creche, cuja idade não foi divulgada. Além delas, estão o pai, o avô e a avó de um menino de 2 anos, que está internado.

Este menino segundo a Prefeitura de Vila Velha, nunca esteve na creche. No entanto, é filho de uma professora que também está entre os casos de surto. Ela chegou a trabalhar até o dia 26 de março, e trocou a fralda de um aluno que apresentou diarreia com sangue.

O filho da professora teve febre e diarreia e precisou ser internado em 27 de março no Hospital Vila Velha. Esse foi o primeiro caso de transmissão de gastroenterite para alguém que não estuda nem trabalha na creche.

INTERNAÇÕES

Além dele, mais três crianças estão hospitalizadas. Uma de 3 anos está no quarto do Hospital Unimed Vitória (Cias). Já uma menina, de 2 anos, segue na UTI neonatal no Vitória Apart Hospital. A terceira criança, também de 2 anos, já esteve internada e recebeu alto, mas foi novamente hospitalizada na segunda-feira no Hospital Vila Velha. No mesmo dia, duas crianças tiveram alta hospitalar.

EM CASA

Um bebê de sete meses, que frequenta a creche, apresentou sintomas de gastroenterite no fim de semana, mas está em casa. No total, nove crianças e oito adultos se recuperam em suas residências. Um menino de 2 anos, Theo Cypriano, morreu no dia 27 de março.

CASOS

Internados

Menino, 2 anos: início dos sintomas em 15/03. Recebeu alta hospitalar em 28/03, reinternado em 01/04.

Menino, 3 anos: início dos sintomas em 18/03, segue hospitalizado apresentando melhora.

Menina, 2 anos: iniciou sintomas dia 22/03, mas se tratava em casa. Foi internado dia 27/03 e segue em UTI.

Menino, 2 anos: filho de uma professora que trabalha na creche e que apresentou diarreia. Iniciou sintomas em 27/03, ficando hospitalizado. Recebeu alta dia 30/03 e foi reinternado dia 31/03, por precaução.

MORTE

Menino, 2 anos: Theo Cypriano iniciou sintomas em 18/03 e morreu no hospital em 27/03.

Em casa

Crianças:

Nove crianças entre 1 e 7 anos, todas alunas da creche, também apresentaram sintomas e se recuperam em casa. Duas delas, de 1 e 2 anos, receberam alta na última segunda-feira. Do total, dois casos foram registrados ontem pela Prefeitura de Vila Velha, mas as idades não foram divulgadas.

Adultos

Oito adultos também tiveram diarreia, mas os sintomas foram brandos e tiveram melhora espontânea. Entre eles, três são parentes de uma criança de dois anos, segundo divulgado ontem pela Prefeitura de Vila Velha.

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