Entrevista

Tudo o que você precisa saber sobre a vacina contra a gripe

Especialistas frisam: a vacina é a única forma de prevenir os quadros graves da doença

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Já são mais de duas décadas desde que começou a campanha de vacinação contra a gripe, mas há pessoas que ainda têm dúvidas sobre a imunização. Inclusive, se é seguro ou não tomar a vacina, ou se protege também contra resfriados. Para esclarecer essas questões, o Gazeta Online ouviu especialistas e, entre eles, pelo menos uma unanimidade: a vacina é a única forma de prevenir os quadros graves da doença. 

A gripe é uma doença extremamente frequente, mas não é banal. É uma doença grave, especialmente para crianças, idosos e pessoas com imunidade baixa, e altamente contagiosa. Então, a vacina é a arma que a gente tem, diminui a chance de pegar gripe, na forma grave, com internação, pneumonia
infectologista Carlos Urbano

Embora a vacina não faça uma proteção de 100%, Urbano reafirma que é a melhor opção para prevenção. Também é importante frisar: a vacina não causa gripe, garante o infectologista.

Danielle Grillo, coordenadora do Programa Estadual de Imunizações da Secretaria de Estado da Saúde (Sesa), observa que a vacina que estará disponível nas unidades de saúde a partir desta quarta-feira (10), quando começa a campanha, é a trivalente, que protege contra três vírus da gripe: influenza A (H1N1) e (H3N2) mais o influenza B, que coincidem com as principais cepas em circulação, tornando a vacinação mais eficiente. 

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Os dois especialistas explicam ponto a ponto os aspectos que causam mais dúvidas na população sobre a gripe, no quadro a seguir: 

Qual é o público-alvo da campanha?

Pessoas a partir dos 60 anos, crianças de seis meses a menores de 6 anos de idade, gestantes, mulheres até 45 dias após o parto, trabalhadores da saúde, professores de escolas públicas e privadas, povos indígenas, pessoas com doenças crônicas, população privada de liberdade e funcionários do sistema prisional.

Como funciona a vacina contra a gripe?

A vacina fornecida pelo SUS é a trivalente, contra três tipos de vírus: influenza A (H1N1) e (H3N2) mais o influenza B. Todo ano a Organização Mundial da Saúde (OMS), baseada em estudos epidemiológicos, aponta os vírus que vão compor a vacina para coincidir com as cepas circulantes. Este ano a vacina foi atualizada para dois tipos de vírus.

Não são os mesmos vírus do ano passado?

Os vírus podem sofrer mutação. No caso do H3N2 e influenza B, a vacina teve que ser atualizada. Não é a mesma da temporada de 2018. Continua sendo trivalente, mas houve mudança das cepas.

Por isso é necessário tomar a vacina todos os anos?

A vacina contra a gripe é anual por dois motivos. Um deles é porque o vírus pode sofrer mutação, como aconteceu agora, o outro é o tempo de duração da proteção. Como o vírus da vacina é inativado e fragmentado, a proteção varia de seis meses a um ano. Então, é preciso repetir anualmente para ficar preservado.

Há contraindicação?

Só se a pessoa estiver com febre alta, acima de 38 graus. Passada essa condição, pode tomar a vacina. Alguns textos também sugerem que, quem tem alergia grave a ovo, não poderia tomar. Mas isso é bastante questionado. Alguém ter esse tipo de alergia também é algo muito raro; a pessoa não pode nem comer bolo. 

E reações adversas?

São raras. No máximo, um incômodo local da aplicação. 

Por que houve a ampliação da faixa etária de crianças atendidas?

Temos que considerar a vulnerabilidade das crianças, principalmente as menores de 5 anos, mais suscetíveis às complicações da gripe. Um dos benefícios da vacinação do público infantil é indireto: a criança expele por mais tempo no ambiente o vírus da doença, prolongando a cadeia de transmissão por até três semanas. Então, vacinando mais crianças diminui tanto a vulnerabilidade, e os riscos de agravamento, quanto a disseminação do vírus no meio.

Algumas pessoas hesitam em tomar a vacina porque acreditam que podem ficar doentes. Tomar vacina dá gripe?

A primeira coisa a reforçar é que a vacina não tem como causar doença em uma pessoa. Trata-se de um vírus inativado, morto e fragmentado. Outra questão que muitas pessoas confundem é que a vacina contra a influenza não previne que a pessoa pegue um resfriado, que é causado por outros tipos de vírus. A influenza é uma infecção capaz de levar a complicações e até a morte. Tomar a vacina é a forma de prevenir formas graves da doença. Outro ponto importante é que a gente aplica o antígeno (partícula do vírus) e o organismo demora de 10 a 15 dias para produzir a imunidade. Então, se a pessoa já está com o vírus incubado ou se tem contato com o vírus durante esse período em que o organismo ainda está produzindo os anticorpos para protegê-la, ela pode desenvolver a doença.

Nesse caso, seria mais branda?

Às vezes não vai impedir que a pessoa pegue a infecção, por ainda estar desenvolvendo a proteção, mas pode sim ser mais branda.

Mas há chance de ter a doença mesmo depois de vacinar?

A vacina contra a gripe não é 100%. Em um adulto jovem protege em torno de 80%; um idoso, 50%. Ainda assim, a vacina é a arma que a gente tem, porque diminui a chance de contrair a doença, especialmente a gripe grave, com internação, pneumonia. É uma vacina muito boa!

Que tipo de complicações pode haver nas pessoas que contraem a gripe?

Uma das maiores preocupações é relacionada à pneumonia, uma complicação respiratória causada pelo próprio vírus, ou resultado de uma infecção secundária - o acúmulo de secreção pode abrir porta para infecção bacteriana.  Além disso, o influenza pode gerar a Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG), complicação da síndrome gripal, que provoca dificuldade do paciente respirar e o paciente pode morrer.

Para pessoas com doenças crônicas o risco é maior?

Sim. A pessoa com uma doença base que é infectada pelo influenza pode sofrer uma descompensação na doença dela. Um cardiopata, por exemplo, pode ter um infarto ou sofrer um AVC (Acidente Vascular Cerebral) em função da complicação da doença. Outro é o diabético, que tende a ter complicações como a pneumonia. Inclusive, a nossa mortalidade maior é entre pessoas com doenças crônicas e idosos.

Nas mortes por influenza?

Nosso cenário epidemiológico mostra que, dos óbitos por influenza no ano passado, quase 80% dos casos faziam parte desses dois grupos prioritários. Isso reforça a importância da vacinação. Eles estão entre as pessoas elegíveis para receber a vacina e morrem porque não tomam.

Além do vírus ser diferente, que outras características diferem a gripe de um resfriado?

Resfriado é um outro vírus e, por isso, a vacina contra a gripe não funciona nesses casos. Também não funciona para quem tem alergia, rinite. A gripe é um quadro infeccioso causado pelo influenza e faz a pessoa ficar de cama, com febre alta. Um resfriado, quando há febre, é baixa e causa apenas um leve mal-estar no corpo e coriza.  

Qual foi a cobertura vacinal no Espírito Santo em 2018?

Atingimos uma cobertura de 98,02%, índice acima da meta preconizada pelo Ministério da Saúde, que é de 90%. Mas essa cobertura não é homogênea entre os grupos prioritários. Do público que a gente mais vacina, no ano passado em dois deles não atingimos a meta: crianças e gestantes. Apesar de a cobertura não ter sido baixa - foi acima de 80% - fica um sinal de alerta. Nas crianças, pela vulnerabilidade, risco de adoecimento e complicação. E, no caso das gestantes, é o binômio mãe e filho desprotegidos. Lembrando ainda que a criança só pode receber a primeira vacina contra a gripe no sexto mês, ou seja, se a gestante não toma a vacina, o filho fica sem proteção até completar seis meses.

Algumas pessoas duvidam da eficácia da vacina oferecida pelo SUS. Há diferença entre a imunização da rede pública e a da rede privada?

Primeiro, é importante deixar claro que a vacina trivalente do SUS e da privada é a mesma, protege da mesma forma. A diferença que existe é que, na rede privada, existe a vacina tetravalente que, além de proteger a pessoa contra as três cepas de vírus da trivalente - H1N1, H3N2 e influenza B - tem mais uma linhagem do influenza B. Então, seria uma proteção adicional. Mas, do ponto de vista de saúde pública, a incidência maior de infecções é pelo vírus influenza A. Então, a trivalente já garante uma proteção muito grande porque os estudos epidemiológicos apontam os vírus circulantes e a trivalente coincide com essas cepas. O resultado tem sido excepcional ao longo dos últimos 21 anos de campanha e revela o tanto de benefícios que a vacinação trouxe para a população.

Qual período da campanha de vacinação?

Terá um período maior desta vez: será de 10 de abril a 31 de maio. Então, todos terão bastante tempo para procurar uma unidade de saúde e se vacinar. Para aquelas pessoas que não podem durante a semana, no dia 4 de maio, um sábado, será o Dia D da vacinação e as unidades de saúde estarão exclusivamente abertas para esse atendimento. Embora o prazo seja longo, quanto mais cedo a pessoa se vacinar, melhor porque a vacina demora até 15 dias para começar a proteger.

Algum grupo prioritário terá preferência no início da campanha?

Alguns estados adotaram essa estratégia, mas no Espírito Santo não vai ser assim. Aqui no Estado vai acontecer simultaneamente para todos os grupos prioritários. Essa foi uma decisão da Secretaria de Estado da Saúde (Sesa) e dos municípios, devido ao perfil epidemiológico daqui que tem, por exemplo, maior número de óbitos entre idosos e pessoas com doenças crônicas.

A vacinação deveria ser universal?

A OMS sugere isso, mas o país não teria como comprar vacina para 180 milhões de pessoas. Além do alto custo, não tem vacina para todo mundo; a produção é feita em um curto período e não daria tempo de adquirir para todos. Mas, para quem não é do público-alvo, tem a opção de vacinar na rede particular.

Além da vacina, que outros cuidados as pessoas podem adotar para se prevenir?

A vacina é indispensável, mas também é importante evitar locais aglomerados, ficar próximo de pessoas tossindo ou espirrando. Deve-se lavar as mãos com frequência e evitar tocar olhos e boca se as mãos não tiverem sido higienizadas.  Se for espirrar ou tossir, proteger a boca com um lenço para evitar contaminar outras pessoas. Vale dizer também que não há comprovação de produtos naturais, como alho, vitamina C, para evitar a gripe. A prevenção é pela vacina. 

 

 

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