Entrevista

Corte de verba na Ufes pode prejudicar até produção de café do ES

Instituição é a que mais produz artigos sobre o grão do tipo conilon no mundo. Alguns laboratórios já até comunicaram à pró-reitoria da Ufes que não têm como continuar em atividade se não houver investimentos em equipamentos e produtos

Incaper/Divulgação

A produção de café conilon no Espírito Santo, que varia entre 8,5 a 9,5 milhões de sacas por ano de conilon, segundo o Centro do Comércio do Café de Vitória, pode ser prejudicada devido ao corte nas verbas em Educação anunciada pelo Ministério de Educação (MEC). O motivo é que a redução dos repasses do governo federal vai  encerrar com muitas pesquisas desenvolvidas na Universidade Federal do Espírito Santo, que é a instituição que mais publica artigos científicos no mundo sobre esse tipo de grão. A instituição terá um bloqueio de 33% no dinheiro destinado a custeio (água, luz, segurança, limpeza e manutenção, entre outros).

"A Ufes é a entidade que mais publica artigos científicos no mundo sobre o café conilon. Isso porque interessa ao Espírito Santo o aumento da produção desse café. Ou seja, é um exemplo de entrelaçamento direto entre o que o Estado precisa e o que a Ufes pode oferecer. A universidade tem se aproximado da sociedade, mas essa ponte pode acabar por falta de dinheiro", explicou o pró-reitor de Pesquisa e Pós-Graduação da Ufes, o professor Neyval Costa Reis Júnior, em entrevista à rádio CBN Vitória (93,5).

Como explicado por Neyval, as pesquisas são uma contrapartida do que a universidade pode oferecer à sociedade. E este é um dos muitos cases de sucesso. Atualmente, o Espírito Santo é o maior produtor de conilon no país, com 75% da produção nacional do Robusta, e o segundo maior na produção de café do Brasil, com cerca de 25% da produção nacional. 

O professor Neyval Costa Reis Júnior, garantiu que alguns laboratórios já estão até comunicando a repartição de que não terão condições de continuar com as operações caso não haja investimento em manutenção de aparelhos, por exemplo. "Algumas das pesquisas dependem de tecnologias mais modernas e produtos, como reagentes químicos, que são mais caros. Esses serão os mais afetados", justifica. 

O pró-reitor de Pesquisa e Pós-Graduação da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), o professor e doutor Neyval Costa Reis Junior
O pró-reitor de Pesquisa e Pós-Graduação da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), o professor e doutor Neyval Costa Reis Junior
Foto: ICMBio/Reprodução

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De acordo com o professor, a Ufes está canalizando energia de trabalho em dialogar com reitorias de outras universidades brasileiras para ver quais são as melhores soluções para gerir o dinheiro que resta da melhor forma. "Não houve nenhum contato com o MEC. Então, estamos em reunião para saber o que fazer para fechar a conta", destacou.

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O pró-reitor ponderou que o corte na verba diz respeito à fatia de dinheiro que é destinada para custeio da universidade. Por isso, o salário dos servidores, por exemplo, não corre quaisquer riscos de ser afetado. "O que acontece é que os professores vão ganhar, mas algumas áreas da sociedade entendem que esse dinheiro não vai se converter em transmissão de conhecimento para a sociedade, já que o professor estará lá mas as pesquisas terão que ser descontinuadas", finaliza. 

Sobre os cortes no custeio da Ufes, quais são os levantamentos que a universidade já fez sobre isso? 

A gente tem encarado o momento com bastante preocupação. Se você analisar os cortes, eles vão influenciar todas as atividades da Ufes, assim como as do Ifes, também. Especificamente nós lidamos com atividades de pesquisa e aí temos um impacto duplo. O primeiro é direto no orçamento da universidade. No orçamento para pagar água, luz, então dinheiro de outro lugar vai precisar ser redesignado. No momento, por exemplo, a gente estava com edital para seleção de equipamentos novos e manutenção de aparelhos em laboratórios e uma das respostas que já temos é que isso vai ter que esperar, porque não terá dinheiro suficiente. Isso se traduz em interromper pesquisas. A maior parte das atividades de pesquisa é financiada também por órgãos federais, que independem da Ufes em questão de dinheiro, mas o orçamento deles também será afetado, então o repasse pode não acontecer. Teremos impacto direto nas atividades de pesquisa. Soubemos de algumas bolsas que já estão comprometidas. 

Há incertezas sobre a continuidade de pesquisas e avanços dentro da Ufes, então? 

Sim. Se você observar os números mais recentes e onde estão as pesquisas no Brasil, verá que 95% das publicações científicas são oriundas das universidades públicas, estaduais e federais. Se você atua ali, justamente, e as atividades dependem de financiamento, então há um real potencial de afetar todo o progresso científico do Brasil a longo prazo. Hoje nós conseguimos crescer muito. O Brasil é o 13º país que mais evolui nesse aspecto e isso é fruto de investimento. Com falta de dinheiro para financiar os projetos, temos ameaças concretas para bolsas de mestrado e doutorado. E muitos que fazem essas pesquisas trabalham, também, mas a maior parcela se dedica integralmente à pesquisa. 

Tem alguma área que seja mais sensível aos cortes? 

Sim. O que acontece é que dentro das pesquisas têm algumas que dependem muito de estrutura experimental. A crise no Brasil já vem se arrastando há algum tempo e nós vimos o investimento sendo reduzido paulatinamente. A manutenção dos equipamentos, então, está sendo reduzida aos poucos, mas isso já está no limite. Então as pesquisas que dependem de tecnologias mais sofisticadas estão mais ameaçadas. Na área de engenharia, biologia, biomédicas, física, química... São áreas que dependem muito desse tipo de equipamento. Alguns laboratórios já estão reportando que não há mais continuar com a operação. 

Há diferença de impacto em bolsas e salários de professores, custo com pessoal?

São dois centros de custo diferentes. O funcionário, o salário dos servidores, não vai ser afetado. O problema são as bolsas e dinheiro para as pesquisas. É dinheiro que o pesquisador usa para comprar um reagente químico, um aparelho, um equipamento mais moderno.

Algumas áreas da sociedade entendem que esse corte não afeta o pessoal, mas é que a Ufes terá o professor, o servidor que será pago, mas não vai conseguir reverter essa força de trabalho e conhecimento para a sociedade?

Sim. Eu defendo que a educação é o mecanismo mais transformador da nossa sociedade. E quando a gente fala de pesquisa tem um entrelaçamento entre o serviço da universidade muito grande com as pessoas. A pesquisa é um produto da universidade, sim, mas ela tem seu impacto na qualidade de educação que a gente dá. Se eu começo a pensar nas universidades só como formadores e sem condições para esses profissionais serem contratados, teremos menos impacto na sociedade. Se a gente observar de onde vieram os profissionais que hoje gerem os ambientes vamos chegar às universidades e institutos. E isso está totalmente relacionado às pesquisas que são desenvolvidas. A Ufes, por exemplo, é a entidade que mais publica artigos científicos no mundo sobre o café conilon. Isso porque interessa ao Espírito Santo o aumento da produção desse café. Ou seja, é um exemplo de entrelaçamento direto entre o que o Estado precisa e o que a Ufes pode oferecer. A universidade tem se aproximado da sociedade, mas essa ponte pode acabar por falta de dinheiro. 

Nesta terça (14) ventilou-se a possibilidade de o Ministério da Educação (MEC) voltar atrás nos cortes. Há alguma interlocução entre a pasta e a Ufes?

Ainda não houve contato nenhum. No momento, no entanto, eu estou aqui reunido com equipes de reitorias de várias universidades do Brasil e conversando com todos sobre formas para fazer a conta fechar. Estamos discutindo como minimizar o impacto. A crise existe, nós entendemos, mas queremos ajustar o orçamento disponível à política que consideramos adequada. É um momento de conversa. Ontem (terça-feira, dia 14) realmente surgiu essa possibilidade, de o Governo Federal voltas atrás nos cortes, mas depois vimos que isso não era verdade, como não se concretizou. Mas espero que nos próximos dias tenhamos boas notícias. As pessoas estão na rua protestando, defendendo a educação... Tomara que tenhamos boas notícias. 

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