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Especialista: "Não são necessárias grandes obras para melhorar o trânsito"

Especialista de Fortaleza conta que com mudanças simples, mortes reduziram em 40%

Em Fortaleza, pintura passou a sinalizar área de pedestres, onde antes passavam carros
Em Fortaleza, pintura passou a sinalizar área de pedestres, onde antes passavam carros
Foto: twitter Dante Rosado

Tinta no asfalto, placas e bancos vem mudando os paradigmas da mobilidade urbana em Fortaleza, no Ceará. O coordenador da Iniciativa Bloomberg de Segurança Viária Global de Fortaleza, Dante Rosado, afirma que não são necessárias grandes obras para ter um trânsito mais seguro e mais democrático nas cidades.

“A solução que todos enxergam, se inspirando em países europeus, é que o modelo de transporte das cidades tem que ser baseado nos transportes coletivo e nos transportes ativos como caminhada e bicicleta”, afirma ele, que está em Vitória para participar hoje do 2º Seminário de Segurança e Trânsito da Fetransportes.

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Os resultados já são visíveis. Além de reduzir a poluição, as ações também reduziram significativamente o número de mortes no trânsito. Em 2014, foram 377 vítimas. Em 2018, foram 226. Em entrevista para A GAZETA, o especialista explica como Fortaleza se transformou nos últimos anos com ações baratas e de alto impacto e diz que outra cidades brasileiras podem replicar o modelo.

Qual foi o principal entrave de se pensar mobilidade urbana dentro de uma cidade grande?

O problema da mobilidade é um efeito colateral das grandes cidades. Tradicionalmente a mobilidade foi centrada no transporte individual motorizado, principalmente desde os anos 1950. Isso acabou refletindo nas cidades que temos. Hoje sabemos que essa política está fadada ao fracasso. Os países que passaram por esse problema a mais tempo começaram a desenvolver novas políticas. É o processo que o Brasil está passando: as pessoas estão vendo que essa lógica tem que mudar. A solução que todos enxergam, se inspirando em países europeus, é que o modelo de transporte das cidades tem que ser baseado nos transportes coletivos e nos transportes ativos como caminhada e bicicleta.

Quais foram as principais mudanças executadas?

Primeiro podemos citar a ampliação da rede de faixas exclusivas. Em 2013, tinha 3 km e hoje tem 110 km incluindo dois corredores BRTs (faixa exclusiva para ônibus). O mesmo aconteceu com a política cicloviária. Hoje a cidade está com quase 260 km de rede cicloviária, em 2013 eram 108 km. Hoje boa parte da frota do transporte coletivo tem ar-condicionado, o que é muito importante para qualificar o modal. Existe o bilhete único. Não há ação específica. Mas o cerne é priorização do transporte coletivo e ativo.

Quais foram os resultados percebidos?

Como resultado temos redução do número de mortes. A gente sabe que a mobilidade sustentável, além de não poluir e outros benefícios, traz a questão da segurança no trânsito. Fortaleza, em 2014, tinha 377 mortes no trânsito e em 2018 foram 226. Redução de 40%, bem expressiva em um período curto. As intervenções que foram feitas não são grandes obras. São intervenções que mudam como o espaço viário é dividido.

Como foi receptividade da população a essas mudanças?

Cada cidade tem sua particularidade. Em Fortaleza, tivemos apoio político do prefeito, ele entendeu a importância de se avançar nesse sentido. Também montamos equipe específica para pensar fora da caixa. O grupo tinha como missão pensar ações justamente com esse enfoque: alto impacto, baixo custo e baseado em experiências internacionais. Esse grupo começou a idealizar projetos que foram primeiro implantados como pilotos depois ampliados. O último ponto foi o foco na comunicação. É preciso saber comunicar sobre esses projetos. Se basear com números, para mensurar os impactos positivos e eventualmente os negativos para que, com esses números, você possa discutir com a sociedade.

Essas ações podem funcionar em outros locais?

Com certeza. Não são necessárias grandes obras para melhorar o trânsito. Muitas mudanças são implementadas apenas com tinta. Muita gente no começo falava “só sabe pintar o asfalto”, mas não importa se é ou não uma pintura, mas a transformação que ela causa. No caso das faixas exclusivas e das ciclofaixas, basicamente é só pintar o asfalto para você transformar aquele local. Aqui também tivemos intervenções com foco no pedestre. Recuperamos áreas destinadas para carros, seja trânsito de veículos ou estacionamentos, e fizemos isso pintando o asfalto. Chamamos de Cidade da Gente. A região do Dragão do Mar (centro cultural, na foto ao lado) era um local com muita concentração de pedestres e o trânsito não estava adequado. Estreitamos a via prolongando as calçadas. Fizemos apenas pintando o asfalto e segregando essa nova área com plantas, bancos, balizadores. E estamos implantando áreas de trânsito calmo, como faixas elevadas, sinalização ostensiva de redução de velocidade mostrando que naquela região o pedestre é prioridade.

Parece ser uma iniciativa polêmica...

Por enquanto, ela existe em caráter piloto e talvez seja uma das mais polêmicas. A Organização Mundial da Saúde (OMS) recomenda que, nas vias urbanas, a velocidade máxima seja 50 km/h. Aqui no Brasil, temos como padrão 60 km/h. Começamos testes em Fortaleza em duas avenidas, as duas que mais tinham mortes. Fizemos readequação da velocidade para 50 km/h e estamos monitorando os resultados. Em uma delas, tivemos 83% de redução de atropelamento, mostrando que é uma boa política que merece ser replicada em outros locais da cidade.

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