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Projeto da Ufes de febre amarela depende de financiamento americano

Inédita no mundo, pesquisa sobre febre amarela teve financiamento reprovado três vezes

Ufes tem pesquisa sobre a febre amarela com mosquitos
Ufes tem pesquisa sobre a febre amarela com mosquitos
Foto: Vitor Jubini

O recente anúncio de cortes no investimento nas universidades e institutos públicos do Brasil não anima nem um pouco quem tem projetos em andamento nessas entidades. Inédita no mundo, uma pesquisa da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) tem 25 mil unidades de mosquitos congelados em bujões de nitrogênio líquido que serão usados em análises que darão conta do ciclo da febre amarela e outros mistérios que ainda cercam a doença.

No entanto, o gestor da pesquisa, o professor Aloísio Falqueto, não vê jeito de seguir com o processo sem financiamento. Até agora ele tirou do próprio bolso o dinheiro para investir em pessoal e equipamento, mas para a próxima etapa seriam necessários cerca de R$ 70 mil só para os procedimentos iniciais de análises. "Nós temos um acervo que ninguém no mundo consegue ter, dos mosquitos. E parece que para quem analisa os financiamentos desvendar a febre amarela não parece importante", dispara o coordenador.

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Aloísio esclarece que a primeira etapa do projeto foi concluída, que é a de captura e armazenamento dos insetos. Agora, a segunda etapa iria compreender análises da infecção viral. "Os produtos que se usam nesses processos são muito caros e eu não teria como custeá-los sozinho. E os Estados Unidos têm todo o interesse nesse tipo de pesquisa, por isso acho que um financiamento de lá será aprovado", adianta.

O capixaba destaca que fez contato com o Instituto Nacional de Saúde norte-americano e eles mostraram interesse pelo projeto. "Alguns amigos da Fiocruz me ajudaram na primeira etapa, então parte dos mosquitos já está lá, onde deve acontecer a próxima fase do projeto", conclui.

Os mosquitos podem ficar congelados pelo tempo que for, mas mantê-los assim custa cerca de R$ 700 por mês para pagar o nitrogênio líquido. Também é um custo que poderia não existir, se o projeto tivesse avançado
Aloísio Falqueto, pesquisador e professor da Ufes

PESQUISA DA FEBRE AMARELA

Segundo o professor, quando pronta, a pesquisa desenvolvida inicialmente dentro da Ufes seria capaz de definir quais são todos os insetos transmissores da febre amarela em ambiente tropical, além de ver qual é o ciclo dele. "Também conseguiríamos saber se há transmissão trans ovariana por parte dos mosquitos, isto é, se eles transmitem o vírus pelos ovos. Isso aumentaria o ciclo da febre amarela", relata.

SURTO DE FEBRE AMARELA

As pesquisas começaram em 2017, quando o Espírito Santo viu o número de casos de febre amarela saltar de uma forma astronômica. À época, a ideia era realizar um estudo amplo e, para isso, alguns pesquisadores e alunos foram a campo para coletar os insetos. "Usávamos redes especiais e íamos até em fim de semana para o meio da mata", lembra.

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Aloísio conseguiu juntar 25 mil mosquitos, que são conservados desde então em nitrogênio liquido. "Não tem o menor problema. O que não poderia era deixar ele morto muito tempo. Por isso, quando íamos à mata, levávamos um mini bujão de nitrogênio líquido para congelá-los segundos depois que eram capturados", aponta. Os cientistas levaram algo em torno de um ano para armazenar o volume de insetos.

 

 

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