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Ufes: corte de 150 bolsas de pesquisas

Número representa 12,5% das cerca de 1,2 mil bolsas da Capes

Reitoria da Ufes: universidade já está sob o impacto do bloqueio da verba
Reitoria da Ufes: universidade já está sob o impacto do bloqueio da verba
Foto: EDSON CHAGAS

A Ufes já está sob o impacto do bloqueio da verba de custeio da instituição promovido pelo Ministério da Educação (MEC), da ordem de R$ 33,2 milhões, e ainda pode ser afetada pelo corte de 150 bolsas de pesquisa da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes).

O número representa 12,5% das cerca de 1,2 mil bolsas custeadas pela Capes, fundação também vinculada ao MEC. A projeção foi feita pelo pró-reitor de pesquisa e pós-graduação, professor Neyval Costa Reis Junior, após informações divulgadas sobre o assunto. Hoje, em reunião no Rio de Janeiro, a Ufes saberá o tamanho do prejuízo para as pesquisas na instituição que, se tiverem que ser suspensas, também terão impacto negativo na sociedade.

O cálculo foi feito com base nos critérios do MEC, de reduzir 70% das bolsas de cursos avaliados com conceito 3 (regular) e 30% das com conceito 4 (bom). Para o professor Neyval, o critério não é justo, sobretudo para as instituições que estão ampliando a oferta de pós-graduação nos últimos anos. “São muitas instituições que, assim como a Ufes, estão em fase de crescimento. A gente criou vários cursos, que agora estão em consolidação, e se este for o critério, perderemos um número expressivo de bolsas”, lamenta.

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Em uma década (2009/2018), a Ufes passou de uma oferta de 45 cursos de mestrado e doutorado para 93, ou seja, mais que dobrou. No mesmo período, a produção científica também teve importante incremento. Só de publicações de artigos indexados - aqueles que ficam disponíveis para acesso de pesquisadores em todo o mundo - passou de 392 para 1.199. Isso demonstra, segundo o pró-reitor, a relevância do que está sendo pesquisado na Ufes e da formação de mão de obra para o mercado. “Essas publicações são usadas pelo próprio MEC como medida indireta de qualidade dos cursos”, frisa.

Cortes em bolsas já começaram a ser feitos na Ufes, sob a justificativa que estavam ociosas. Neste caso, foram 28, mas existe uma fase de transição entre o momento em que um aluno conclui sua pós e não tem mais direito à bolsa até a seleção de novo estudante. Já havia selecionados na fila, mas, ao tentar cadastrá-los, a Ufes descobriu que as bolsas não estavam mais disponíveis.

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O problema para a pesquisa na Ufes não para por aí. O professor Neyval disse que a pró-reitoria tinha uma reserva orçamentária para manutenção de equipamentos que possivelmente terá que ser direcionada ao pagamento de custeio, se confirmado o corte de R$ 33,2 milhões.

No Ifes, o pró-reitor de pesquisa e graduação, André Romero Silva, também demonstra preocupação com os cortes - estimados em R$ 24 milhões - porque parte da verba de custeio financia 197 bolsas fornecidas pela própria instituição.

“Além disso, o custeio também é utilizado para professores pesquisadores participarem de eventos ou mesmo fazer mestrado profissional”, disse.

COMISSÃO COBRA PLANO DE METAS DO MEC

Criada ontem, a Comissão Externa de Educação vai fiscalizar provas, investimentos e também vai cobrar que o MEC cumpra as metas previstas, apesar dos corte nas verbas das universidades e institutos públicos.

O relator da comissão, o deputado federal Felipe Rigoni (PSB-ES), quer entender como o ministério pretende continuar progredindo tirando das instituições verba que serve para incrementar os estudos. “Também vamos investigar o sigilo do Enem, Enade e outras provas desse tipo e queremos analisar a situação dos professores na rede pública”, adianta.

De acordo com ele, a comissão está preocupada com o que os cortes podem acarretar a longo prazo: “Só queremos ajudar, não é para criticar”, pontua.

O parlamentar reitera que ainda tem que colher dados e solicitará ao MEC que designe um porta-voz para tratar com a comissão.

CÂMARA VOTA E CONVOCA MINISTRO DA EDUCAÇÃO

A Câmara dos Deputados aprovou ontem a convocação do ministro da Educação, Abraham Weintraub, para que ele preste esclarecimentos ao plenário hoje, sobre bloqueios no orçamento do setor. Essa foi uma derrota para o governo de Jair Bolsonaro, que contava, em votação, conseguir maioria contra a ida do ministro à Casa.

Por se tratar de convocação, Weintraub é obrigado a comparecer à Câmara, sob pena de incorrer em crime de responsabilidade na hipótese de ausência “sem justificação adequada”, conforme prevê a Constituição Federal.

O requerimento de convocação foi aprovado por 307 votos favoráveis e 82 contrários. Weintraub será ouvido em uma “comissão geral” (sessão de debates no plenário). É o primeiro ministro do governo Jair Bolsonaro convocado por alguma das casas do Congresso.

A maioria dos partidos orientou as bancadas a votarem a favor do requerimento de convocação. Somente PSL e Novo orientaram contra a convocação.

O líder do governo na Câmara, deputado Major Vítor Hugo (PSL-GO), argumentou em plenário que o ministro já iria comparecer nesta quarta-feira a uma audiência pública conjunta na Câmara, de duas comissões permanentes. Por isso, considerou que a convocação era desnecessária.

Para a líder do governo no Congresso, Joice Hasselmann (PSL-SP), o ministro é preparado para discutir os temas. Mas admitiu que não é “nada agradável” para o governo ter um ministro obrigado a comparecer à Câmara. “O ministro da Educação é bastante preparado para falar sobre o assunto. Mas claro que não é nada agradável você ter um ministro convocado em vez de convidado”, disse

CAMPANHA CONTRA BLOQUEIO

Em defesa da instituição e para que mais pessoas conheçam a produção científica da universidade, uma campanha nas redes sociais convida professores a publicarem uma foto e um texto de seu projeto, com a hashtag #pesquisaufes.

A ideia é disseminar os trabalhos para que o público externo também tome conhecimento de que a Ufes é altamente produtiva na área de pesquisa.

Outra iniciativa é a 1ª Mostra Balbúrdia Universitária, que pretende dar visibilidade a projetos de ensino, pesquisa, extensão e assistência da Ufes. Os trabalhos serão expostos hoje, das 13 às 16 horas, na passarela coberta da Prograd ao CT, em Goiabeiras.

Ação semelhante será feita no campus do Ifes, em Vitória. Os trabalhos serão apresentados a partir das 8h, na calçada.

Hoje, o dia todo será de mobilização: foi convocada uma greve nacional contra os cortes na educação.

DE CARRO AUTÔNOMO A ASFALTO FEITO COM REJEITOS

Carro autônomo é um dos projetos da universidade
Carro autônomo é um dos projetos da universidade
Foto: RICARDO MEDEIROS

 

 

Os cortes no orçamento para custeio (manutenção) das universidades e institutos federais preocupa as instituições por ameaçarem, além do ensino, projetos de pesquisa e extensão que trazem inovação. Na Ufes e no Ifes há grupos que estão revolucionando áreas do mercado que vão da saúde à indústria e construção civil. Muitas atividades enchem os olhos do mercado e são apostas reais de inovação em linhas de produção, como é o caso do asfalto de material reciclado, óleo que vira biodiesel e sabão, e carros que andam sozinhos.

O engenheiro civil e professor da Ufes Patrício José Moreira Pires é quem gere o projeto que usa rejeitos da indústria do mármore e granito e das siderúrgicas para criar revestimento asfáltico e base para construção de estradas. O material já foi testado em trechos estratégicos em ruas de Anchieta, Sul do Estado, e as análises apontam que esse asfalto reciclado tem uma performance até superior ao produto tradicional. Em breve, ele irá implantar a tecnologia dentro da ArcelorMittal, que é quem fornece grande parte dos rejeitos para o projeto.

Outro projeto da universidade é o carro elétrico autônomo – sem motorista. A tecnologia, guiada pelo titular do Departamento de Informática da Ufes, professor Alberto Ferreira, foi pioneira no Brasil e também será levada para a indústria em breve. Até a Vale se interessou, de acordo com o pesquisador, e quer caminhões autônomos para diminuírem a poluição na Capital. Os carros que andam sozinhos foram desenvolvidos por ele e alunos por meio de um supersoftware.

“Até agosto de 2020 vamos entregar à Vale um protótipo. É um caminhão-pipa para regar áreas de transporte de pó de minério dentro da empresa para evitar que o vento carregue esse produto e polua a cidade”, detalha.

Já no Ifes, toneladas de óleo de cozinha são recolhidos pelo projeto Fábrica de Sabão Ecológico, na região do Aribiri, em Vila Velha, que transforma o material em sabão e ainda revende parte do que é reciclado para que seja transformado em biodiesel. Lá, o professor Mauro Cesar Dias coordena o trabalho, que começou em 2012 e já é responsável até por fazer girar a economia da região, com a solução criativa.

FINANCIAMENTO

Também há muitas iniciativas na área da saúde. O infectologista e professor Aloisio Falqueto é referência nos estudos da febre amarela no país e possui um acervo único no mundo, parte na Ufes e parte na Fiocruz. Trata-se de 25 mil mosquitos congelados em nitrogênio líquido que foram capturados por um grupo de pesquisadores em 2018, quando o Espírito Santo teve um surto da doença.

> Projeto da Ufes de febre amarela depende de financiamento americano

A ideia é investigar a fundo o ciclo de infecção do vírus, mas o projeto já sofre com problemas financeiros antes mesmo do corte de verbas anunciado pelo governo federal. É que já foram recusados três vezes os pedidos de financiamento a diferentes entidades ligadas à pesquisa no Brasil.

Agora, está em negociação com uma instituição norte-americana, que já acenou positivamente para a liberação do dinheiro. “Até agora, paguei tudo do meu bolso, mas para a próxima etapa precisaria desembolsar cerca de R$ 70 mil só para os primeiros trabalhos”, reitera.

Aloisio detalha que precisa de produtos específicos e caros, para estudar as interações do vírus no corpo dos insetos transmissores. “As análises também desvendariam outros aspectos sobre a febre amarela”, finaliza.

 

 

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