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Ufes cria programa de doações de corpos para estudos de saúde

Projeto surgiu há um ano e permite que cidadãos manifestem interesse em doar corpo

Professor Ricardo Eustáquio (centro) orienta alunos durante aula de anatomia
Professor Ricardo Eustáquio (centro) orienta alunos durante aula de anatomia
Foto: Ricardo Medeiros

O conhecimento da anatomia do corpo humano é de grande importância para que alunos da área de saúde possam se especializar. Mas havia um problema: a pouca concessão de cadáveres para estudos e pesquisas. Por isso, a Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) criou o Programa de Doações de Corpos.

O programa existe há cerca de um ano e, em um processo simples, todo cidadão pode manifestar interesse de doar seu corpo para a instituição. Basta preencher os formulários disponíveis no site sejadoador.ufes.br, autenticá-los em cartório, entregá-los no campus de Maruípe, em Vitória, ou enviá-los pelos correios.

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“O principal motivo das pessoas não doarem é a falta de informação. Elas não sabem que é possível doar e como fazer isso. É importante que população saiba da importância que esses corpos terão na formação dos diversos profissionais da área da saúde. A doação de corpos para estudo é uma das atitudes mais nobres que existem”, disse o professor de anatomia e coordenador do programa, Ricardo Eustáquio.

A diretora do Centro de Ciências da Saúde, professora Gláucia Abreu, afirmou que o programa – inédito no Espírito Santo – tem o objetivo de esclarecer à população que a doação é legalmente permitida. “É da mesma forma que se faz doação de órgãos. Claro que existe uma documentação que precisa ser seguida, mas tudo muito simples e sem burocracias”, explicou.

No departamento de anatomia da Ufes, a maioria dos corpos que chegam são não-reclamados (sem identificação) no Departamento Médico Legal (DML). Entretanto, nas últimas décadas, a oferta diminuiu.

“Antigamente os corpos para estudo eram de pessoas não identificadas, indigentes. As pessoas morriam na rua, não tinham familiar para reclamar. O corpo ia para o DML e depois de 30 dias, se não identificado, com a permissão da lei, era doado para universidades. Hoje, diminuiu a quantidade de corpos e temos inúmeras faculdades da área de saúde (o que aumenta a demanda)”, relatou Ricardo.

Os professores da universidade contam ainda que os últimos corpos chegaram à instituição em 2012. Com o uso constante dos cerca de 700 alunos que realizam as aulas de anatomia por semana, as peças se deterioram. Sem as doações, não será possível substituir as peças em um futuro próximo.

PESQUISAS

Ainda segundo o coordenador do Programa de Doação de Corpos, o número pequeno de cadáveres pode comprometer as pesquisas. Ele cita o projeto de dissecção, em que alunos após as aulas de anatomia voltam para o laboratório para, com a ajuda do bisturi, identificar uma série de estruturas como vasos, nervos e musculatura.

“É uma maneira melhor dele aprender anatomia. E isso não está sendo possível mais, porque temos uma quantidade pequena de corpos. Todos os professores tinham alunos de dissecção e tivemos que limitar isso para um por professor. E se continuar com essa falta de corpos podemos parar o projeto”, concluiu Ricardo.

O professor destaca ainda a importância do doador avisar à família sobre o desejo, para que a doação seja efetivada após a morte. “Depois que eu morrer eu perco meus direitos e meu corpo passa a ser da minha família. Se minha família quiser revogar minha doação, ela pode fazer isso. O mais importante nesse processo é avisar todos os familiares e amigos do seu desejo porque são eles que vão efetivar a doação”, disse.

ÓRGÃOS

Além dos cadáveres, a Ufes aceita órgãos também, como explica Gláucia. “A doação é ideal para o transplante. Mas, às vezes, é um órgão que já apresenta problemas: por exemplo, uma pessoa era cardíaca, então, não vai doar o coração porque não atende a um transplante. Mas atende para o estudo”, explicou.

Para fazer a doação de órgãos, de acordo com a professora, é necessário realizar os mesmos passos do processo de doação de corpos.

POLÍCIA CIVIL: DOAÇÕES TÊM RESPALDO

A Polícia Civil, por meio de nota, explicou que existe uma fila de doação de corpos no Departamento Médico Legal (DML), mas por serem realizados necropsias em caso de mortes violentas, nem sempre existem condições de doar esses cadáveres – a legislação não permite. A doação voluntária ou gratuita de cadáver está respaldada no artigo 14 do Código Civil.

COMO DOAR

Passo a passo

Como doar

Para doar cadáveres e órgãos à Ufes é preciso ser maior de 18 anos (a doação de menores poderá ser realizada pelos pais) e preencher os formulários disponíveis no site (sejadoador.ufes.br) ou comparecer à Secretaria do Departamento de Morfologia da Ufes, em Maruípe, Vitória. Após a inscrição, a documentação é registrada em cartório.

Sem restrição

Não há impedimentos quanto a doenças, amputações, altura ou peso. Mas os corpos oriundos de morte violenta, crime ou suicídio são proibidos por lei de serem doados.

Contato

Para mais informações, o telefone de contato é (27) 3335-7358. Há também o e-mail [email protected] e [email protected]

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