OBMEP 2018

Aluno autista de Vitória é ouro na Olimpíada Brasileira de Matemática

Gabriel Barroca, 13 anos, é o único aluno da Prefeitura Municipal de Vitória (PMV) a ganhar medalha de ouro na Olimpíada Brasileira de Matemática das Escolas Públicas (OBMEP) 2018

Laila Magesk

Publicado em 05/07/2019 às 10h55

Uma mãe radiante e com todos os motivos para isso. O estudante Gabriel Barroca, 13 anos, é o único aluno da Prefeitura Municipal de Vitória (PMV) a ganhar medalha de ouro na Olimpíada Brasileira de Matemática das Escolas Públicas (OBMEP) 2018. Ele estuda na Emef Experimental de Vitória - Ufes, que fica dentro da universidade, mas é da rede municipal. Ao todo, 24 alunos do Espírito Santo conquistaram medalha de ouro. 

O feito, por si só, já é muito significativo, mas, no caso dele, a alegria da família e dos professores é ainda maior por Gabriel ser autista. A capacidade de raciocínio dele se destaca na escola, mas o desafio era o adolescente colocar no papel tudo que se passa em sua mente. Ele conseguiu e irá receber o prêmio em Salvador, na Bahia, na próxima segunda-feira (08). A mãe, que é peça fundamental desse sucesso, vai junto.

Ele fez no ano passado, quando estava no sétimo ano, e, para a surpresa de todos, porque ele não tem interesse de escrever muito, foi medalha de ouro
Andreza Barroca, mãe do Gabriel

"Fez a primeira etapa objetiva e depois a segunda discursiva. Dia 07 é o embarque e dia 08 é a premiação", comemora a mãe, a servidora pública Andreza Barroca Pratti, 47 anos.

O autismo é um transtorno de desenvolvimento grave que prejudica a capacidade de se comunicar e interagir. No caso do Gabriel, o grau dele é leve.

 

2º VEZ

Segundo Andreza, o filho já havia participado da olimpíada, mas precisava de mais tempo para resolver as questões. "Na primeira vez, o professor me procurou e falou que o Gabriel quase alcançou a pontuação, mas ele precisava de um tempo estendido para fazer. E a OBMEP não oferecia esse tempo estendido. Só que, no ano seguinte, eles começaram a oferecer. No primeiro ano ele foi no quase e, no segundo, quando estenderam um pouco o tempo, ele conseguiu. Mas ele fez na mesma sala que os outros meninos, a mesma prova", diz.

NA ESCOLA

A mãe conta que Gabriel, na escola, é acompanhando pela educação especial. "Ele é um aluno diferente que não tem interesse sequer de abrir a mochila para fazer exercícios, fazer anotações. Ele não faz. Vou te dar um exemplo: a professora ensinou fração e ele me falou: 'mãe, é difícil ficar na escola. A professora ensinou fração, passou o dever na sala e ainda quis passar dever de casa'. Pra ele, já foi suficiente a primeira vez que a professora explicou. Ele aprende mais pelo ouvir do que pela prática, como habitualmente a gente faz".

A PROVA

Gabriel teve um estímulo para responder as questões. Vendo que ele não estava muito interessado, a mãe explicou que o prêmio no valor de R$ 1.200,00 seria usado para comprar um computador para ele, logo o adolescente se animou. 

Ele fala que não gosta de escrever porque não quer que as pessoas saibam o que ele está pensando. Ele fez a prova porque é um desafio. Acha a prova da OBMEP inteligente
Andreza Barroca, mãe do Gabriel

TECNOLOGIA

O estudante também gosta de acessar o Youtube. "Ele fala pouco e com palavras rebuscadas. Se mando fazer alguma coisa, ele fala: 'posso procrastinar?'. Uma palavra que a gente não usa. Às vezes me assusta essas questões do Gabriel. Ele não gosta de ler, gosta de ver desafios no Youtube e como se fazem jogos. Ele não faz curso de inglês, mas pega muito bem pela internet".

ALTAS HABILIDADES

Além do ensino regular, Gabriel é da turma de altas habilidades da Escola de Ciência Física e faz iniciação científica no Ifes e na Ufes de Matemática Pura e Aplicada. Em 2019, ele já passou na primeira fase da Olimpíada de Matemática e espera a segunda etapa em setembro.

ACEITAÇÃO

De acordo com a mãe, desde a educação infantil a escola já apontava que Gabriel tinha algum grau de autismo, mas era difícil aceitar. Ela, que tem outras três filhas, acreditava que era uma questão de personalidade.

"Demorei para levar e fazer um acompanhamento. Quando ele mudou de escola, na Emef Ufes, eles ficavam apontando, inclusive fui chamada para várias reuniões. Ele não escrevia e não pintava. Ele só desenhava, mas era a forma dele retratar o que ele estava entendendo da matéria, mas a gente não compreendia isso".

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No terceiro ano, ele começou a fazer as provas da escola e fechá-las. "A escola viu que ele tinha altas habilidades e foi mandado para uma escola específica. Eles começaram a ver que os desenhos dele tinham lógica, uma sequência. Ele foi mandado para a escola de altas habilidades da Ciência - Física para robótica".

"No meio disso tudo, fui vendo que tinha alguma coisa diferente. Levei ao pediatra e ele foi fazendo acompanhamento com neuropediatra, psiquiatra, psicólogo até chegar o laudo dele. Na adolescência ele mesmo questionou se ele era autista ou não, levei novamente no ano passado e ele pegou um segundo laudo, que confirmou", relata Andreza.

A confirmação do autismo leve veio aos 9 anos. 

Foi mais pela insistência da escola. A família entra em um processo de negação, acha que o autista é aquele que fica gritando, que olha para cima, anda na ponta dos pés. A gente não vê o autista leve, só pensa no severo
Andreza Barroca, mãe do Gabriel

BULLYING

"O Gabriel sofria bullying na escola até o 5° ano. Ele não copiava. Os coleguinhas, que são crianças, também não queriam copiar. Eles achavam que ele era acobertado pela escola. Eles batiam no Gabriel, jogavam a merenda dele fora, chegaram a pagar colegas para tirar a roupa dele, ele passou por um bullying muito severo, porque ele não tinha laudo, não tinha atendimento de educação especial. Isso foi péssimo. Tive que trocar ele de turma. Fui à escola, eles fizeram uma semana de inclusão. Quando ele voltou, foi muito bem acolhido".

SUMIÇO

Uma vez ele sumiu da escola porque ele tinha colocado um número na cabeça e foi para o ponto de ônibus contar ônibus. Diz ele que, quando chegasse naquele número, ele ia voltar para a escola
Andreza Barroca, mãe do Gabriel

"Só que ele não andava de ônibus. A gente não sabe de onde saiu essa ideia. A gente imagina que foi alguma aula e ele quis chegar a um raciocínio. Ele tinha 11 anos. O menino sumiu no meio da Ufes", lembra a mãe.

Hoje, Andreza está radiante com a conquista do filho e agradece o apoio dos professores e estagiários, que o acompanham diariamente.

O PARABÉNS DA PROFESSORA

"Sou uma professora que amo o que faço. Para motivar os alunos, fiz o Projeto OBMEP, pois toda olimpíada requer treinamento, principalmente a de Matemática. No laboratório de informática, os alunos resolviam as questões de provas que já foram dadas em anos anteriores. Esse projeto despertou mais a autonomia dos alunos, incluindo Gabriel.

Enquanto na sala de aula ele tinha resistência em registrar conteúdos dados, ao resolver as questões das provas da OBMEP, ele demonstrava interesse e empenhava-se em acertar as respostas.

Eu já fiquei felicíssima quando corrigi o gabarito da primeira fase e vi que ele acertou mais de 75%.

Quando chegou o resultado da segunda fase: ouro!!!

Comemorei muito vendo um excelente resultado do projeto, mas também enxergando a alta habilidade do Gabriel para área de exatas.

Levei carinhosamente um mimo para os medalhistas e consegui dar um abraço no tímido no Gabriel e ouvir bem baixinho, depois que os colegas saíram, um obrigada. Parabéns a esse menino prodígio Gabriel Barroca!"

Misma Suhett Nogueira, professora de Matemática

INCLUSÃO

"Com relação ao Gabriel, foi uma surpresa muito grande quando o recebi em sala no sexto ano. Inicialmente um desafio, uma vez que era um aluno com dificuldades de copiar a matéria e realizar as atividades. Porém, como passar dos dias, observei uma capacidade extraordinária de raciocínio e curiosidade.

O Gabriel hoje é um aluno que se insere nas aulas, mesmo que timidamente, extremamente inteligente e, como qualquer adolescente, tem uma certa preguiça. Uma das grandes conquistas de Gabriel nesse percurso na escola foi sua socialização. Gabriel hoje consegue participar de uma apresentação de trabalho em grupo, o que antes era uma grande dificuldade.

Com relação à medalha, posso dizer que uma medalha de ouro na Olimpíada de Matemática conquistada por ele representa uma oportunidade de mostrar à sociedade que o fato de uma pessoa ser autista não implica que esta pessoa é incapaz. Cada aluno é especial dentro das suas habilidades e particularidades.
Professora

Therezinha de Jesus Chanca Lovat, professora de Ciências

PREFEITURA DE VITÓRIA

Por meio de nota, a Secretaria Municipal de Educação de Vitória informa que a rede de ensino de Vitória conquistou oito títulos na Olimpíada Brasileira de Matemática das Escolas Públicas (OBMEP 2018). Destaque para o estudante Gabriel Barroca Silva, da Escola Experimental de Vitória, conhecida como Emef Ufes, que conquistou medalha ouro. Gabriel é aluno da Educação Especial e concorreu com pontuação de ampla concorrência, já que na OBMEP não há cota para deficientes.

CONQUISTAS DO ES NA OBMEP 2018

Veja a relação dos estudantes premiados:

Ouro - 24

Prata - 52

Bronze - 119

Menções Honrosas - 1309

Os dados são referentes aos premiados em todo o Estado, incluindo as Redes Estadual, Municipal e Particular. (Fonte: Sedu)

O QUE É 

A Olimpíada Brasileira de Matemática das Escolas Públicas - OBMEP é um projeto nacional dirigido às escolas públicas e privadas brasileiras, realizado pelo Instituto Nacional de Matemática Pura e Aplicada - IMPA, com o apoio da Sociedade Brasileira de Matemática – SBM, e promovida com recursos do Ministério da Educação e do Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações – MCTIC.