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Chuva de pó preto incomoda e assusta moradores na Serra

Há cerca de um mês, um pó brilhante cai do céu sobre casas e carros no bairro. Os moradores temem que o material possa ser prejudicial à saúde

Uma chuva de pó preto e brilhante, parecido com purpurina, tem tirado o sono dos moradores do bairro Praia de Carapebus, na Serra. Há cerca de um mês, essas partículas caem em abundância nos quintais e nas ruas, principalmente durante a noite. Para os moradores, o pó vem da área do Complexo de Tubarão, que é vizinho do bairro. 

Quando eu olho pela janela, vejo caindo do céu como uma chuva mesmo. Se coloco o braço pra fora, fica tudo brilhante. Ninguém aguenta mais. Está impossível conviver nessa situação
Empresário Valdinei Oliveira

A situação começou há cerca de um mês, de acordo com o presidente da associação de moradores de Praia de Carapebus, Anderson Soares Muniz. “Somos atingidos o tempo todo. Mas quando venta mais, a quantidade de pó dá pra encher sacola”, diz.

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A principal preocupação de quem vive por lá é com a saúde. Afinal, até o momento, ninguém disse aos moradores do que, exatamente, consiste a poeira brilhante. "A gente não sabe que tipo de material é esse, que dano pode causar à saúde. Isso nos preocupa muito", diz Anderson. Valdinei relata que quando fica um tempo do lado de fora, ao limpar o rosto, vê sair a poeira escura junto com a água. "Imagina como deve estar dentro do corpo da gente", diz.

Na casa da aposentada Lucilene Serpa, de 74 anos, moram três crianças, todas com menos de 6 anos. "Todas as três estão com bronquite ou algum tipo de alergia. A gente sabe que é de lá (Complexo de Tubarão). Estamos ficando com a casa fechada o dia inteiro. A gente fica com medo. Vai que é um negócio perigoso", pondera.

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Os moradores dizem que a poeira cai o dia todo, mas é mais perceptível a noite, quando fica visível a olho nu. Eles já fizeram diversas fotos e vídeos mostrando a situação. Quando amanhece, todos têm que encarar varandas, calçadas e veículos cobertos por uma camada espessa do pó brilhante. "Ninguém consegue viver em um lugar desse. Parece um alumínio engordurado. Até para limpar é difícil. Estou gastando muito mais água para tentar manter minimamente limpo", conta Valdinei.

Poeira preta na casa de um morador do bairro Praia de Carapebus, na Serra
Poeira preta na casa de um morador do bairro Praia de Carapebus, na Serra
Foto: Foto do leitor - Valdinei Oliveira

VISTORIA

A Prefeitura da Serra não soube informar do que se trata o tal pó que está caindo sobre o bairro e incomodando os moradores. Segundo a secretária municipal de Meio Ambiente, Áurea Almeida, foi feita uma vistoria junto com o Instituto Estadual de Meio Ambiente (Iema) em oito casas, em três ruas do bairro. As observações e imagens feitas na ocasião estão sendo analisadas e devem integrar um relatório elaborado pela secretaria. O documento deve ficar pronto até a próxima sexta-feira.

Os órgãos ambientais estadual e municipal também vistoriaram a Arcelor Mittal, "já que a empresa é a fonte mais próxima da comunidade que trabalha com os produtos que geram poluentes atmosféricos", disse o município por nota. No local, ainda segundo a nota, foi constatada poluição atmosférica em algumas áreas de produção.

A prefeitura afirmou que, com base no relatório, vai decidir se aplica ou não algum tipo de punição à empresa. "Estamos analisando se há algum ponto que possa estar contribuindo com a emissão desse material particulado", afirmou a secretária de Meio Ambiente.

Poeira preta que atinge o bairro Praia de Carapebus, na Serra.
Poeira preta que atinge o bairro Praia de Carapebus, na Serra.
Foto: Divulgação

IRREGULARIDADES

Técnicos do Instituto Estadual de Meio Ambiente e Recursos (Iema) e fiscais ambientais da Prefeitura da Serra encontraram irregularidades na ArcelorMittal Tubarão que podem estar ligadas à emissão de partículas brilhantes que atingem as casas de Praia de Carapebus, na Serra. A empresa é vizinha do bairro. Foram feitos dois autos de intimação, exigindo providências para minimizar a emissão de poluentes. A empresa também poderá ser multada.

Segundo a vistoria, feita na manhã da última terça-feira (2) foram encontradas emissões de poluentes na correia transportadora da sinterização, parte da usina que recebe partículas finas de minério e as transforma em blocos maiores que seguem para o alto-forno. Segundo nota enviada pelo Iema, no mesmo momento foi solicitada a paralisação das correias. O órgão afirma que já foram feitas adequações no local.

Também foi exigido que a ArcelorMittal faça adequações do sistema de umectação dos pátios onde ficam armazenados materiais que podem poluir o ar, além de umectação das vias por onde passam esses materiais. A empresa tem 15 dias para se adequar. Nas demais áreas, foi exigido que a umectação seja feita de forma imediata.

Segundo o Iema, serão intensificadas as ações de fiscalização nas duas empresas que compõem o Complexo de Tubarão (Arcelor e Vale) para identificar "as fontes de emissão e exigir controles mais efetivos para a melhoria da qualidade de vida da população", disse o órgão.

O valor das multas não foi divulgado. O Iema diz que ele só será informado quando for finalizado o relatório técnico que está sendo elaborado. O documento deve ficar pronto em uma semana. 

INVESTIGAÇÃO INTERNA

A ArcelorMittal Tubarão disse por meio de nota que está fazendo uma investigação interna para averiguar se alguma atividade fora da rotina da empresa possa ter ocasionado essa característica de pó mais brilhante observado pela comunidade. A empresa afirmou ainda que a poluição do ar por partículas na Grande Vitória vem de várias fontes, não sendo possível determinar exatamente um responsável.

"É importante ressaltar que as emissões de material particulado na Grande Vitória possuem diversas fontes, como o setor de transporte (rodoviário, ferroviário, aéreo e marítimo), atividades da construção civil (incluindo terraplanagem), queimadas, aerossóis marinhos, solos e industrial", afirmou.

Segundo a empresa, os ventos fortes, típicos do período, também pode ter contribuído para dispersão de poluentes dos vários tipos de fontes. "A empresa, no que tange à sua responsabilidade, intensifica seus controles ambientais, buscando reduzir ao máximo sua participação nas emissões."

Em relação à inspeção do Iema, a empresa informou por meio de nota que não recebeu multas, mas duas notificações referentes a emissões pontuais de poeira de baixa magnitude e que foram corrigidas no ato da inspeção.

A empresa disse ainda na nota que vem implementado novos controles para seus pátios de estocagem de matérias-primas e vias de circulação interna, incluindo aplicação de cobertura vegetal em pilhas de coprodutos, e sistemas de monitoramento de alerta de ventos, "que permite a aplicação de polímeros nos pátios e vias, de forma preventiva nas situações de rajadas de vento."

Estes investimentos fazem parte do Termo de Compromisso Ambiental (TCA), e totalizam mais de R$ 1 bilhão, em projetos de curto, médio e longo prazos. São projetos que incluem também a instalação de novos sistemas de despoeiramento (filtros de mangas); a aplicação de novas tecnologias nas correias de transferência, incluindo o enclausuramento; o controle dos pátios com Barreiras de Vento (Wind Fences).

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