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Estudantes se automutilam para se livrar de angústia

A situação é mais frequente entre as meninas e pode ser desencadeada por diversos motivos

Estudantes que se ferem, com quadro de angústia, têm sido monitorados nas escolas
Estudantes que se ferem, com quadro de angústia, têm sido monitorados nas escolas
Foto: Reprodução

Quadros de ansiedade estão afetando os mais jovens a ponto deles se automutilarem: eles se machucam, se cortam numa tentativa de acabar com a angústia que sentem. Esse é um problema que tem sido identificado em escolas da Grande Vitória, cada vez com mais frequência, e causam preocupação.

Coordenadora do Programa Saúde na Escola (PSE) em Vila Velha, Laura Coutinho diz que existe um trabalho sistemático de prevenção e promoção da saúde nas unidades da rede municipal, mas o grupo atua também por demanda e, todo mês, em torno de cinco a seis escolas solicitam atividades relacionadas à ansiedade.

Com uma equipe multidisciplinar, que inclui psicólogo e assistente social, o PSE reúne os alunos em rodas de conversa. “Fazemos uma escuta especializada e, quando tem necessidade, envolvemos também a família. Se não querem verbalizar, colocamos uma caixinha de perguntas e um lê a questão do outro. Os casos de mais demanda são de autoflagelação”, conta Laura.

MOTIVOS

A situação é mais frequente entre as meninas, segundo Laura, e pode ser desencadeada por diversos motivos, tais como abusos (físicos e sexuais) de familiares, falta de perspectiva, bullying e orientação sexual.

Em Vitória, além de também adotar o PSE, a equipe de educação passa por um treinamento para identificar, por exemplo, casos de automutilação. “Os profissionais estão mais atentos, melhorou a escuta dos alunos. Os casos identificados são encaminhados à rede de saúde”, afirma Nínivy Matos Ferreira, chefe de equipe da área técnica da Saúde da Criança.

Na rede de Cariacica, a saúde mental dos alunos também passou a ser foco de atenção. Um grupo multiprofissional – psicólogo, assistente social, fonoaudiólogo, pedagogo – começou a atuar este ano em um projeto-piloto que atende dois mil estudantes.

“A ideia é trabalhar algumas das angústias da adolescência, inclusive a ansiedade. A estratégia é para combater a evasão escolar, que nem sempre está relacionada à questão pedagógica. Identificamos que existe a ansiedade pela expectativa de aprovação em processos seletivos, por exemplo, mas há também por violação de direitos. Infelizmente, temos casos de abusos”, revela o secretário municipal de Educação, José Roberto Martins Aguiar.

Mas, independentemente do projeto-piloto de combate ao abandono escolar, o secretário afirma que as equipes de ensino estão atentas em todas as unidades, e já foram identificados casos de automutilação e ideação suicida. “Nessa situação, é feita uma abordagem pontual, a partir de demanda da escola, conversamos muito com os alunos e fazemos os encaminhamentos necessários.”

Já na Serra, é lei a adoção do projeto valores na escola que, entre outras ações, tem atividades culturais e artísticas que contribuem para o bem-estar dos estudantes e os ajudam a enfrentar desafios.

AÇÕES

A Secretaria de Estado da Saúde (Sesa), que atua em parceria com os municípios para a execução do PSE, identificou que a automutilação se tornou mais frequente. Por essa razão, virou pauta de reunião para articular ações nas escolas.

“Ainda temos poucos dados epidemiológicos, mas tem chegado ao nosso conhecimento, de fato, mais casos. E, com o crescimento desse comportamento de autolesão, a proposta é orientar os profissionais como identificar o estudante, como abordar, acolher e encaminhar para um serviço de atenção à saúde”, explica Nathalia Borba, referência técnica em Saúde Mental da Sesa.

A psiquiatra infantil Christiane Tesch destaca que, embora a automutilação seja motivo de atenção profissional, em geral o hábito de se cortar é uma forma de alívio da angústia para os mais jovens. “Os adolescentes se sentem impossibilitados de falar sobre problemas, frustrações e se machucam. Nem sempre que acontece está ligado a uma vontade de suicídio, mas é um sinal de alerta”, conclui.

PAIS PRECISAM SE LIGAR NOS SINAIS DE ALERTA

Dependendo do grau de ansiedade, as crianças e adolescentes podem manifestar sintomas físicos, como insônia, ânsia de vômito, diarreia, medo de coisas que não sentia e até febre sem causa aparente. As famílias precisam estar atentas aos sinais e buscar tratamento.

É o que aponta a psiquiatra infantil Christiane Andriolo Tesch. Ela ressalta a importância dos pais observarem os filhos, já que os sinais podem ser confundidos com os de outros males.

Jovem recentemente foi diagnosticada com Transtorno de Ansiedade Generalizada (TAG)
Jovem recentemente foi diagnosticada com Transtorno de Ansiedade Generalizada (TAG)
Foto: Vitor Jubini

Uma universitária de 19 anos, diagnosticada recentemente com Transtorno de Ansiedade Generalizada (TAG), diz que desde criança tinha indícios do distúrbio, mas não fazia tratamento. “Se eu ficava na expectativa pelo brinquedo novo, ou pela festinha de aniversário, falavam em tom de brincadeira: ‘essa menina é muito ansiosa’. Não viam motivo suficiente para procurar ajuda. Mas não culpo ninguém. Naquela época, e ainda hoje, falta informação”.

Aos 15 anos, ela sentiu que, com o ritmo de escola, o quadro piorou. Toda vez que tinha prova passava mal, mas se tornou mais severo ao entrar na faculdade. “Já era ansiedade para tudo: da prova à saída no final de semana. Se ia me encontrar com amigos, eu ficava na expectativa”, conta.

A universitária começou um tratamento psicológico e, acreditando estar melhor, deixou de frequentar as sessões. “Neste ano piorei. Tinha sensação de desmaio, enjoo, dor de cabeça, sintomas que me impediam de trabalhar, estudar, e o que era divertido para mim, deixou de ser. Achava que ia morrer.” Após o susto, ela voltou à terapia.

APOIO

Professor da Ufes, Elizeu Borloti disse que é importante o apoio da família, avaliando se desde cedo esses jovens se inserem em diferentes grupos. “Não dá para ficar só em redes sociais, é preciso ter atividades reais. Mesmo que o adolescente diga que não quer sair de casa, os pais devem insistir; ele deve ir aos encontros da família, convidar os amigos para fazer atividades, promover interação concreta”.

A psicóloga Adriana Muller diz que os pais precisam ser emocionalmente presentes. “Poucos adultos estão dispostos a orientar. Chamar para conversar é raridade nas famílias”, conclui.

Antes de remédio, lazer e terapia como tratamento

Os transtornos de ansiedade são classificados em leves, moderados e graves e, para cada situação, há uma estratégia mais adequada de tratamento. Remédios só em casos severos, e depende da faixa etária. Mudanças de hábitos e terapia vêm em primeiro lugar.

Psiquiatra da infância e adolescência do Hospital das Clínicas, Bruno Lima diz que a psicoterapia é indicada para quadros leves e moderados e só prescreve medicação quando os sintomas são diários e a intensidade é maior, comprometendo o dia a dia do paciente. De todo modo, evita indicar o uso abaixo de 10 anos.

A psiquiatra infantil Christiane Tesch reforça que o tratamento será graduado conforme a gravidade dos sintomas. “É importante que faça acompanhamento psicológico, atividades físicas, lúdicas. Quando não são suficientes, passa-se a medicamentos naturais e, se não surtirem efeito, às vezes são usados psicotrópicos.”

Bruno acrescenta que a mudança no estilo de vida dos últimos anos tem contribuído para o aumento dos casos na população infanto juvenil. E o pior: “Crianças com ansiedade têm risco aumentado de, na vida adulta, desenvolver outros transtornos, fazer uso de drogas e de cometer suicídio por conta da depressão.”

SINAIS DE ANSIEDADE

Antes dos 12 anos

- Medos que a criança não tinha.

- Perda de autonomia como, por exemplo, deixar de fazer coisas que antes fazia sozinha, como comer e trocar de roupa.

- Dores de cabeça e de barriga frequentes.

- Febre sem significação clínica.

- Preocupação excessiva em ficar longe dos pais, recusando-se até a ir para a escola.

- Xixi na cama após ter passado, no mínimo, seis meses sem molhar a cama.

A partir dos 12 anos

- Coração acelerado

- Suor intenso nas mãos

- Branco na hora de fazer provas

- Irritação constante

- Alteração do apetite

- Dificuldade para dormir

- Queixas de angústia

- Isolamento social

- Hábito de se cortar; automutilação

FATORES DE RISCO

- Familiares e sociais

- Herança genética

- Sobrecarga de compromissos

- Alta competitividade

- Exigência elevada por desempenho acadêmico

- Pai e mãe com conduta ansiosa, repressora ou permissiva

- Uso excessivo de redes sociais

- Bullying e exclusão de grupos

- Abusos físicos e sexuais

CUIDADOS

- Mudança de hábitos

- Desligar-se um pouco das telas de celular e de computador

- Fazer atividades físicas

- Desenvolver atividades lúdicas, como aprender uma arte ou outro assunto de interesse

- Melhorar a qualidade do sono

- Papel dos pais

- Equilíbrio emocional para lidar com problemas

- Envolver os filhos nas atividades familiares

- Mostrar-se disponível para ouvir os filhos

- Oferecer apoio e não minimizar queixas e tristezas

- Demonstrar que está emocionalmente presente na vida dos filhos

- Ajudar desde cedo a criança a desenvolver habilidades para lidar com frustrações e a enfrentar desafios

- Ser menos crítico e julgador

- Buscar orientação profissional ao identificar sinais de ansiedade nos filhos.

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