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Samu atende quatro ciclistas vítimas de acidentes por dia no ES

Em cinco meses, 635 foram socorridos pelo Samu no Estado

Ciclistas se arriscam entre carros em ruas da Grande Vitória: quem pedala se queixa de falta de respeito e de conscientização no trânsito
Ciclistas se arriscam entre carros em ruas da Grande Vitória: quem pedala se queixa de falta de respeito e de conscientização no trânsito
Foto: Fernando Madeira

Somente neste ano, o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) atendeu 635 ciclistas envolvidos em acidentes de trânsito, uma média de quatro socorridos por dia.

Os dados são de janeiro a maio deste ano e correspondem à rede que o Samu atende, ou seja, 22 dos 78 municípios capixabas, entre eles os da Grande Vitória, região que concentra quase metade da população do Estado e tem a maioria dos chamados.

Nas últimas semanas, vários casos de acidentes envolvendo ciclistas foram noticiados. Entre eles, um atropelamento de cinco ciclistas de um grupo que pedalava na Rodovia do Sol, em Vila Velha, no sábado passado.

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Dos cinco acidentados, apenas Marília Barbosa, 50 anos, permanece internada. Segundo o filho dela, Matheus Barbosa, o estado de saúde da ciclista é grave, mas estável.

Outra vítima foi a ciclista Neuzi Braga Rosa, 67 anos, que morreu em maio após ser atropelada por um ônibus no bairro Aribiri, também em Vila Velha. Dados do Departamento Estadual de Trânsito (Detran-ES) apontam que em três anos, de 2015 a 2017, 48 ciclistas morreram em acidentes de trânsito em todo o Estado. O órgão não dispõe dos números atualizados.

RECLAMAÇÕES

Para o cicloativista e fundador da União dos Ciclistas do Brasil, Fernando Braga, há uma distorção do entendimento do Código de Trânsito Brasileiro. “Como vamos melhorar a segurança se o entendimento que há é de que a segurança do ciclista depende só dele? É uma inversão total do que diz a lei de trânsito, que aponta que o mais forte deve proteger o mais fraco. A nossa lei é coerente, o problema é a leitura que é feita dela”.

Para ele, faltam campanhas educativas que colaborem com a mudança no pensamento dos motoristas, principalmente.

“Precisamos de campanhas educativas e políticas públicas para tirar da cabeça das pessoas que acham que bicicleta no meio da rua atrapalha o trânsito. São visões distorcidas”, avalia Braga.

Já o ciclista Luiz Gustavo Gabler lembra que o trânsito brasileiro já é violento de uma forma geral e que o desrespeito às leis de trânsito somado à falta de estrutura das cidades facilita a ocorrência de acidentes envolvendo quem usa bicicleta.

“A falta de respeito às leis de trânsito é um agravante. Mas a falta de infraestrutura também é um problema. Há buracos nas ruas e calçadas, falta sinalização vertical e horizontal, além de ciclovias e ciclofaixas bem feitas”, opina. Por conta disso, eles dizem que os ciclistas acabam se arriscando entre os carros nas vias.

Gabler explica que não se sente seguro andando de bicicleta. “Não me sinto seguro, mas andar de bicicleta ainda é mais viável, além de ser uma forma de lutarmos por melhorias já que cada vez mais pessoas estão optando por esse meio de transporte”.

CAMPANHAS

A gerente de Educação do Detran-ES, Sheila Sibaldo Silverol, disse que o órgão faz campanhas para motoristas, ciclistas e pedestres. “Nosso trabalho é focar em ações educativas, levando ao público uma consciência geral sobre o trânsito. Não focamos um público, nós falamos com todos”, afirma.

NÚMEROS

Samu

Socorro a ciclistas

2017: 1.403

2018: 643

2019 (até maio): 635

Acidentes

Panorama: Dados passados pelo Detran-ES, que correspondem ao período de 2015 a 2017

Acidentes: 3.166

Mortes: 48 ciclistas morreram

Feridos: 2.579 vítimas que ficaram feridas

"FALTAM RESPEITO NA RUA E MELHORIAS VIÁRIAS"

Bikes danificadas após atropelamento de cinco ciclistas na Rodovia do Sol, sábado
Bikes danificadas após atropelamento de cinco ciclistas na Rodovia do Sol, sábado
Foto: Isaac Ribeiro

 

 

É consenso entre ciclistas e especialistas que a segurança de quem usa bicicletas passa pelo respeito às leis de trânsito e pela melhoria das condições das vias.

Por isso, para o professor de Logística e Transportes Manoel Rodrigues a solução é a criação de um plano viário sério e comprometido em mudar a cultura que envolve o uso de bicicleta.

“A solução passa por ter uma conjuntura pública para conscientização, além de, de fato, melhorar as condições das ciclovias. Também é preciso ter mais fiscalização. Por fim, acho que a solução passa por melhorar as vias e por elaborar projeto urbano cicloviário”, avalia.

Ele explica ainda que, de uma forma geral, o trânsito no Brasil é violento e que isso acaba respingando nos ciclistas. A situação piora já que não há respeito à sinalização de trânsito, a estrutura é ruim, além de outros motivos.

“Na minha opinião, o problema não é quantidade de ciclistas. A questão é a falta de respeito dos motoristas, as condições viárias que são ruins e, em alguns casos, até a negligência por parte dos próprios ciclistas”, observa.

Para o especialista, é ainda comum ver, por exemplo, ciclistas que não usam equipamentos de segurança.

“Tenho reparado que quem opta por capacetes, por exemplo, são pessoas que usam a bicicleta mais para lazer. Mas é importante que quem usa o modal para se locomover também utilize”, afirma.

REGULAMENTAÇÃO

A gerente de Educação do Detran-ES, Sheila Sibaldo Silverol, lembra que equipamentos de segurança pessoais ainda não são regulamentados, mesmo assim, é muito importante que os ciclistas não abram mão deles.

“Nada ainda é regulamentado com relação a equipamentos. Por isso, o que podemos fazer é orientar que os ciclistas os usem. Ao contrário do carro que, para conduzir é necessário formação, a bicicleta não tem, por isso é necessário atenção às normas e orientações”, afirmou a representante do Detran-ES.

PREFEITURAS PROMETEM 180 KM DE CICLOVIA

Os planos das prefeituras da Grande Vitória são de implantar pelo menos 180 quilômetros de ciclovias nos próximos anos.

O município de Vila Velha conta, atualmente, com 46,2 km de ciclovias, sendo 1,7 km de ciclofaixas. A prefeitura informou que pretende implantar, em até seis anos, 27 km de novas ciclovias e ciclofaixas, além de trabalhar para resolver os problemas de sinalização e acesso das ciclovias existentes.

Já em Cariacica, onde atualmente há cerca de 21 km de ciclovia localizados ao longo das rodovias José Sette, Leste-Oeste, BR 101, BR 262 (faixa compartilhada com pedestres), Avenida Alice Coutinho e Avenida Vale do Rio Doce (orla de Cariacica), outros 8 km deverão ser implantados. Além disso, a ideia da prefeitura é fazer 31 km de ciclofaixas passando pelo interior dos bairros.

Segundo a coordenadora de Estruturação Urbana da Secretaria de Desenvolvimento da Cidade e Meio Ambiente de Cariacica, Marissol Vieira a cidade tem uma situação peculiar, já que é cortada por importantes rodovias federais, como as BRs 262 e 101, além de estradas estaduais, como a Rodovia José Sette.

“Cariacica tem uma problemática que é ter eixos importantes que não estão sob responsabilidade da prefeitura. Por isso, temos que estar sempre em contato com os órgãos responsáveis por essas vias para estabelecer esses projetos”, pondera.

Na Serra, um plano cicloviário prevê a construção de pelo menos 100 km de ciclovias em todo o município. Atualmente, existem na cidade 56,31 km de ciclovias e ciclofaixas. A intenção da prefeitura é de implantar o espaço exclusivo para bicicletas em avenidas como a Norte Sul, José Rato e Talma Rodrigues Ribeiro.

Os ciclistas que passam por Vitória já podem utilizar cerca de 36 km de ciclovias instaladas. Mas, o plano da prefeitura é, até o final do ano que vem, aumentar a malha cicloviária para 50 km. Paralelo às obras, a administração municipal faz trabalhos de conscientização, segundo o secretário municipal de Desenvolvimento da Cidade, Márcio Passos.

“Trabalhamos intensamente na questão de conscientização sobre o trânsito. Além disso, temos feito campanhas educativas para informar sobre o melhor uso dos espaços públicos. Com isso, além de incentivar o uso de bicicleta na Capital, conseguimos incentivar, também, ciclistas da Grande Vitória”, observa.

SAIBA

O que diz a lei

Vias compartilhadas

Onde não há espaço específico para ciclistas, deve-se andar pela rua. Só é permitido andar pelas calçadas quando no local houver espaço suficiente para pedestres e ciclistas

Sentido da via

O ciclista deve andar no mesmo sentido que os demais veículos da via

Faixa de pedestres

Para atravessar pela faixa de pedestres, o ciclista deve descer da bicicleta e atravessar empurrando o veículo, não pedalando

Espaço específico

Onde há ciclovia ou ciclofaixa, é por lá que o ciclista deve trafegar

Distância

Ao passar ou ultrapassar bicicletas, os veículos devem manter 1,5 metros de distância do ciclista.

Segurança

O uso de equipamentos de segurança não é regulamentado, mas orienta-se o uso deles

 

 

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