Lei Maria da Penha

A vida de Maria antes da lei: "Só tive paz quando ele morreu"

Por 13 anos, Maria do Rosário viveu o pesadelo da violência doméstica. Em nova fase da vida, comemora os avanços das leis que protegem as mulheres. "Se tivesse essa lei lá atrás, eu teria sido muito mais feliz", afirma

Tatiane Mota

Publicado em 07/08/2019 às 19h30

“Volta para sua casa, casou tem que ficar.” Essas foram as palavras que Maria do Rosário Souza Gomes Vieira, 67 anos, ouviu de sua mãe quando foi agredida pela primeira vez. Na época, início dos anos 70 e, casada há um ano, com uma filha recém nascida e sem ter para onde ir,  ela voltou para uma rotina de maus-tratos, agressões e medo que durariam 13 anos.

A história de Maria do Rosário revela o mundo antes da Lei Maria da Penha, onde mulheres não tinham voz, não tinham autonomia e nem poder de decisão sobre suas próprias vidas. A violência doméstica era legitimada pelo casamento e as vítimas se viam presas a agressores, sem ter informações suficientes para buscar ajudar ou meios aos quais recorrer.

Com quantos anos a senhora se casou?

Eu me casei com 19 anos. Meu marido parecia uma pessoa muito boa mas a gente não se conhecia profundamente. Ele era próximo da família, nunca deu sinais de ser agressivo. Era trabalhador, na época funcionário de uma empreiteira, passava dias fora de casa trabalhando. Foi só depois que a gente casou que ele começou a colocar as garras de fora. Com pouco tempo ele se mostrou um homem extremamente violento, possessivo. Eu não entendia, parecia que ele tinha um demônio no corpo. Para completar ainda bebia muito, ficava bêbado e piorava ainda mais a situação.

Quando começaram as agressões?

Foi mais ou menos depois de um ano de casamento. Eu tinha acabado de dar à luz a minha filha mais velha, ainda estava com 15 dias de resguardo quando ele me bateu pela primeira vez. Eu não soube o que fazer, não tinha esse negócio de Maria da Penha naquela época, essas coisas de denunciar não existiam. A gente morava em uma cidadezinha do interior de Minas, eu não conhecia nada e não sabia andar na rua sozinha. Então fui correndo para a casa da minha mãe, que ficava próxima, e o que ela fez foi me mandar de volta para casa.

Era impensado uma mulher com filha bebê largar o marido. E assim eu sofri por 13 anos.
Maria do Rosário

E como foi?

Ele me tratava como propriedade. Saía para trabalhar, penteava o meu cabelo e marcava o tamanho. Passava dez, quinze dias e quando voltava ele olhava para ver se estava do mesmo jeito. Ele não deixava eu cortar, não podia usar vestido ou saia, eu andava sempre de calça e blusa de manga comprida.

Uma vez chegou em casa e eu estava usando um esmalte, ele tirou um canivete do bolso e raspou unha por unha para tirar o esmalte. Ele fez questão de me amedrontar falando que da próxima vez que me visse de unha pintada ia cortar a cabeça de cada dedo. Eu não sabia me virar. Não tinha liberdade e não podia falar com ninguém. Ele gostava de me pisar, me colocar no chão, mesmo eu fazendo tudo em casa.  

Nada justificava as agressões e o que ele fazia, pegava faca para me matar, gritava, dizia que eu ia arrumar homem na rua. Eu não podia tomar remédio, com 24 anos já tinha tido 4 filhos, dois morreram. Tudo que eu aguentei foi por eles. Hoje a minha primeira filha tem 48 anos e o mais novo 45. Moramos por um tempo em São Paulo, no início, eu até achava que ele poderia ficar melhor mas nada mudou. Ele sentia prazer em me humilhar, teve um dia que fomos à uma cachoeira e ele disse que ia me jogar lá de cima.

Eu chorava, implorava dizendo que não tinha feito nada, que não aguentava mais e ele parecia gostar disso. Quando voltamos para Vitória, ele foi preso em Baixo Guandu por envolvimento no assassinato de um homem. Nesse tempo eu precisei começar a trabalhar, tinha dois filhos pequenos que dependiam de mim e um pai preso. Então fui fazer bicos, passar roupa, fazia faxina, trabalhava como empregada doméstica. E todo domingo eu ia cedinho lá levar comida para ele, continuava cuidando dele mesmo ele preso.

Porque você continuava?

Por medo. Ele poderia sair de lá e me matar ou fazer algo com as crianças. Mesmo preso ele ficava me ameaçando, ameaçava a minha mãe. Na cadeia ele arrumou uma mulher e quando saiu foi morar com ela. Mesmo assim, ele não me dava paz. Estávamos separados e ele continuava infernizando a minha vida, chegava nos lugares me agredindo, falava que ia tirar meus filhos de mim. Ele ia no lugar que eu trabalhava me ameaçar.

Eu sou cega de uma vista por causa de uma agressão. Ele voltou para casa contra a minha vontade mas por por medo eu aceitei. Ele dizia que ia matar a minha mãe, eu não podia arriscar, sabia do que ele era capaz. E eu pensava o tempo ‘se eu largar desse homem o que vai ser dos meus filhos? eu não tenho casa própria, como vou morar de aluguel? o que eu vou fazer da minha vida?’. Era só isso que eu pensava.

Você nunca cogitou denunciar as agressões?

Se fosse agora eu teria denunciado, com certeza. Mas naquele tempo, eu não tinha o conhecimento que tenho hoje. Não tinha para onde ir, vivia na casa dele, era uma mulher dependente dele. Lembro que já naquela época ele dizia que não adiantava, que polícia não prendia ele.

Maria do Rosário Souza Vieira foi vitima de violência doméstica durante 13 anos
Maria do Rosário Souza Vieira foi vitima de violência doméstica durante 13 anos Foto: Carlos Alberto Silva

Vocês ainda estavam juntos?

Não, ele tinha saído de casa. Mas eu tinha perdido o medo dele, estava trabalhando, tinha aprendido a viver, me mudei e meus filhos estavam maiores. Mas ele não deixava de aparecer, de tentar me agredir. Ele só deu sossego mesmo depois que morreu. Eu acho que se ele não tivesse morrido eu tava sofrendo até hoje. Ou nem estaria viva pra te contar essa história.

Como ele morreu?

Ele tinha que ir de 3 em 3 meses na delegacia mas sumiu, ninguém sabia dele onde ele morava. Depois de um tempo o corpo foi achado em Afonso Claudio, em um córrego. Eu fui fazer o reconhecimento e soube que ele só não foi enterrado como indigente porque não tinha vaga. Aquele momento foi a libertação. Eu ainda consegui uma pensão que me ajudou a terminar de criar os meus filhos, foi uma benção por ter suportado tudo que suportei por tantos anos.

Como você está hoje em dia?

Bem. Sou casada, meu companheiro cuida de mim e eu cuido dele. Ele me respeita, ajuda muito dentro de casa e nunca levantou um dedo para mim. Eu visto a roupa que eu quero, se eu quiser pintar a unha eu pinto, pra onde eu quiser ir eu vou.

Sou dona da minha própria vida. O que aconteceu comigo ficou no passado mas eu acho que se fosse nos dias de hoje, com tanta informação e entendimento das coisas, não teria chegado no ponto que chegou.
Maria do Rosário

Com todo esse histórico de violência como avalia as políticas públicas voltadas para mulher, como a Lei Maria da Penha?

A lei é muito boa, se o homem bate a polícia prende e isso faz ele pensar duas vezes. Eu acho assim,não dá mais pra viver junto, separa. Mas a polícia também não vai poder ficar 24 horas vigiando e esse é o problema, continua sendo perigoso para a mulher. Mas eu não tenho dúvidas que se tivesse essa lei lá atrás, eu teria sido muito mais feliz porque o meu sofrimento só acabou porque ele morreu.