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Pastoras se unem para debater, nas igrejas, a violência contra mulher

O projeto quer promover desde a sensibilização dos líderes das igrejas para o problema até a capacitação das vítimas, para que tenham independência financeira

Reunião do Grupos de Pastoras com a vice-governador Jaqueline Moraes para debate no meio evangélico sobre o combate à violência contra as mulheres
Reunião do Grupos de Pastoras com a vice-governador Jaqueline Moraes para debate no meio evangélico sobre o combate à violência contra as mulheres
Foto: Felipe Ventura

Um grupo de pastoras se uniu para levar para o meio evangélico o debate e ações sobre o combate à violência contra as mulheres. O projeto, que vem sendo elaborado há quase seis meses, quer promover desde a sensibilização dos líderes das igrejas para o problema até a capacitação das vítimas, para que tenham independência financeira. Vão criar até um selo "Viver em Paz" para as igrejas que aderirem a proposta.

De acordo com Andreia Bolzan, líder da Igreja Batista Evangélica de Vitória do Espírito Santo (IBEV-ES), o grupo é composto por 20 mulheres pertencentes a mais de 15 denominações diferentes. Juntas elas vão enfrentar temas que ainda são considerados tabus dentro das igrejas. "São mulheres corajosas que se levantaram para dizer que existe sim o problema da violência contra a mulher no meio cristão. Não deveria existir e queremos acabar com isso", destacou.

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Não há informações sobre pesquisas que quantifiquem, no Estado, as vítimas deste tipo de violência que são evangélicas. O levantamento sobre o assunto que ganhou maior repercussão no país foi realizado em São Paulo, em um espaço de atendimento para as mulheres alvos da violência, a Casa Sofia.

Os dados desta pesquisa revelaram que 40% das mulheres entrevistadas e que foram vítimas de violência, declararam ainda serem evangélicas. Material que foi apresentado para as pastoras na primeira reunião do grupo.

Autora da pesquisa, Valéria Cristina Vilhena, doutora em Educação, História e Cultura, mestre em Ciências da Religião e socióloga, destaca que trabalhos deste tipo representam o reconhecimento de que as mulheres evangélicas não estão isentas da violência. Ela relata que já obteve depoimentos em suas pesquisas de mulheres que buscam o aconselhamento espiritual e que são orientadas a permanecerem no casamento, mesmo sendo alvos das mais variadas formas de violência, inclusive a física.

Ela recorda que uma delas contou que o pastor lançou mão do versículo da "Mulher sábia que edifica a casa" para explicar que a responsabilidade era dela. "Orientou a mulher a ter mais paciência, a aprender a lidar com o marido. Aquela mulher decidiu que nunca mais buscaria ajuda do pastor. Terminou se separando, mas não abandonou a igreja. O exercício da fé a mantinha forte, mas preferia sentar no último banco da igreja", contou Valéria.

No Estado, até julho deste ano um total de 21 mulheres foram vítimas de feminicídio - que é o assassinato praticado contra a mulher em decorrência do fato de ela ser mulher ou em decorrência de violência doméstica. No ano passado foram 33 casos. Outro dado que chama a atenção é o número de boletins de ocorrência referentes a qualquer tipo de violência praticada contra a mulheres que foram registrados nos últimos sete meses: 42 por dia.

OBSTÁCULOS

As próprias lideranças femininas que fazem parte do grupo consideram o projeto desafiador. Vão tentar renovar uma estrutura de poder das igrejas baseada em alguns conceitos. Dentre eles está o casamento indissolúvel – quando não se aceita o divórcio – , o perdão e a resiliência em relação aos problemas do casamento, e que elas avaliam estarem sendo mal interpretados. “Existe uma falsa interpretação que bloqueia o entendimento das pessoas sobre o tema. É como se fosse pecado”, destaca Andreia Bolzan, líder da Igreja Batista Evangélica de Vitória do Espírito Santo (IBEV-ES).

Ela pondera que professar a fé não impede uma mulher de denunciar o seu agressor.

O agressor é que desrespeita a fé. Não é por conta do dogma, do que um homem acredita que dá a ele o direito de ser violento com a mulher. A prática da violência é que é antibíblico
Andreia Bolzan, líder da IBEV-ES

Iara Rocha, coordenadora de base do Ministério Bálsamo Gileade, em Campo Grande, Cariacica, assinala que o projeto retoma um papel que é da própria igreja. "A igreja tem o papel de olhar, de cuidar do indivíduo". Ela destaca que a proposta não se restringe a balançar uma bandeira de combate à violência contra a mulher. "Não é apenas isso, queremos ajudar no resgate da verdadeira identidade da mulher, sensibilizando o homem de que eles não foram criados desconectados. São papéis conectados, e eles precisam atuar nestas identidades. É caminho de volta para estas identidades", assinala.

O primeiro passo, segundo Iara, será sensibilizar e conscientizar os pastores, líderes de cada uma das igrejas evangélicas. "Eles precisam ser ouvidos, precisam receber o projeto, e nos autorizar a estar em diferentes reuniões, fazendo ações especificas para homens, para os agressores, para as mulheres, para as vítimas", conta.

Ela ressalta ainda que em muitas situações será necessário até mesmo orientar não só os líderes, mas até a própria comunidade de cada igreja sobre as etapas da violência contra a mulher, e que ela não corresponde apenas as situações de agressões físicas. "Há também a violência emocional, psicológica, moral, patrimonial. E será preciso sensibilizar, ensinar, orientar e ajudar estas pessoas na prevenção e na correção dos fatos, para mudarmos esta realidade. Há situações em que muitos desconhecem até os instrumentos que já existem", pondera Iara.

A MOTIVAÇÃO

O projeto desenvolvido pelas pastoras e líderes de igrejas teve início no dia 8 de março deste ano, dia internacional da mulher, em uma reunião com a vice-governador Jaqueline Moraes. "Seis meses após esta reunião elas apresentaram o projeto, um trabalho pioneiro, sem placas, que surgiu da união de mulheres que tem se posicionado por não silenciar diante da violência contra a mulher", assinalou a vice-governadora, que também é evangélica há quase 30 anos.

Na avaliação de Jaqueline o projeto encontrará dificuldades, como enfrenta em outros segmentos sociais. "As dificuldades existem em todas as camadas sociais. Mas a vantagem é que teremos no meio evangélico mulheres capacitadas a nos ajudar na reeducação social, que permitirá homens e mulheres a viverem com respeito e igualdade", pontua.

Até o final deste ano a proposta é desenvolver um projeto piloto, em uma igreja pequena. Lá as ações vão ser avaliadas e posteriormente implantadas nas demais unidades no Estado, não importando a denominação, já a partir do próximo ano.

Na prática o grupo quer promover, nas igrejas evangélicas, alguns tipos de ações, tais como:

- Sensibilizar os pastores, líderes das igrejas, a se comprometerem com o projeto

- Criar um selo "Viver em Paz" para as igrejas que adotarem o projeto

- Criar multiplicadores nas igrejas para o trabalho de orientação e conscientização

- Criar rodas de conversa sobre o tema

- Realizar palestras de prevenção para crianças, adolescentes, jovens, mulheres e homens

- Atuar na identificação da profissionalização das mulheres, ajudando-as na busca de independência financeira

- Oferecer ou orientar sobre como obter apoio para as questões emocionais

- Oferecer atendimento para as vítimas

- Capacitar as instituições e membros da comunidade para lidar com o tema

- Realizar, mais à frente, pesquisa no meio evangélico sobre o tema

- Criar uma campanha de incentivo à denúncia, por vizinhos e familiares, além das vítimas

PESQUISA

A pesquisa apresentada ao grupo é Valéria Cristina Vilhena. O trabalho, realizado em 2009, resultou na publicação de um livro, "Uma igreja sem voz". Após o trabalho ela fundou um grupo, o "Evangélicas pela igualdade de gênero". Trata-se de um coletivo de mulheres, de várias denominações, que discutem o tema. Valéria costuma denominar o grupo de "fé-ministas".

Temos quase 5 mil mulheres evangélicas trabalhando um novo olhar, uma teologia feminista. Uma ferramenta muito importante que estamos trabalhando em duas dimensões: a espiritual, dentro das comunidades, e na pública
Valéria Cristina Vilhena

Ela destaca que a violência contra a mulher tem raízes históricas e que a legislação só começou a mudar com a constituição de 1988. E quando o tema é discutido nas igrejas, enfrenta outros obstáculos. "Traz outras problemáticas para a discussão, como a questão teológica, o aconselhamento pastoral, a hermenêutica, que é a interpretação da bíblia, com uma leitura literalista, sem o contexto; o dia a dia da igreja em torno da sua fé", relata.

Valéria Cristina Vilhena - doutora em Educação, História e Cultura, mestre em Ciências da Religião e socióloga. Realizou pesquisa,em 2009, sobre as mulheres evangélicas vítimas de violência, trabalho que  resultou na publicação de um livro, "Uma igreja sem voz". Após o trabalho ela fundou um grupo, o "Evangélicas pela igualdade de genero".
Valéria Cristina Vilhena - doutora em Educação, História e Cultura, mestre em Ciências da Religião e socióloga. Realizou pesquisa,em 2009, sobre as mulheres evangélicas vítimas de violência, trabalho que resultou na publicação de um livro, "Uma igreja sem voz". Após o trabalho ela fundou um grupo, o "Evangélicas pela igualdade de genero".
Foto: Arquivo pessoal

Valéria  pondera que projetos como este não são um ataque aos homens na sua individualidade, mas um problema social que precisa ser enfrentado com políticas publicas sociais. “Não queremos relações de mando, mas caminhar junto para uma sociedade melhor e pacífica”, assinala.

O projeto desenvolvido pelas pastoras faz parte do Programa Agenda Mulher, que será lançado quinta-feira (29), no Salão São Tiago, no Palácio Anchieta, a partir das 14h.

O programa, criado pela vice-governadora Jaqueline Moraes, tem o objetivo de dar visibilidade e fortalecer as mulheres, através do empreendedorismo, oferecendo e customizando cursos desde formações e qualificações diversificadas até o empreendedorismo emocional que se dá pelo processo de autoconhecimento. A proposta é impactar cerca de 15 mil mulheres em quatro anos.

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