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Toca da Guerrilha do Caparaó é encontrada em distrito de Iúna

"Toca" é o nome que os guerrilheiros usavam para definir buracos na terra onde escondiam objetos; diversos agricultores da região têm a curiosidade de procurar pistas dessa história

Moradores da região visitam a Toca
Moradores da região visitam a Toca
Foto: Ari Melo | TV Gazeta

Em São João do Príncipe, distrito de Iúna, no Caparaó capixaba, os moradores cresceram ouvindo uma história: a de guerrilheiros que se estabeleceram ali, na época da ditadura. Homens armados que se abrigavam num sítio com o pretexto de criar cabras. Para muitos, isso não se passava de um mito. Mas agora, os que não estavam convencidos dessa história estão mudando de ideia depois que agricultores encontraram o que pode ser um esconderijo daquele momento histórico.

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“Pra mim virou uma história agora, não é mito mais, agora é história”, contou Elcinei Cardoso, um dos moradores que encontraram a “toca” da Guerrilha do Caparaó, nome que os guerrilheiros usavam para definir buracos na terra onde escondiam objetos.

Ele e outros agricultores da região sempre tiveram a curiosidade de procurar pistas dessa história. Então, resolveram escavar próximo a uma casinha que existia na época, numa propriedade rural, em um dos pontos onde os guerrilheiros se estabeleceram.

Amós Horst, que teve a iniciativa junto com Elcinei e outros colegas, explicou que a terra do local parecia diferente, como se tivesse sido colocada. “Depois que chegou nessa terra vermelha, a gente animou porque viu que ela foi cavada, ela foi posta aqui e, se tem essa terra boa aqui, tem alguma coisa por baixo”, explicou Amós.

Foram cavando, cavando, até que encontraram um buraco de cerca de dois metros com uma espécie de compartimento, um buraco menor, lá encontraram uma manta térmica e alguns objetos antigos: um envelope de remédio, pedaços de metal, e um frasco com um líquido dentro. Segredos escondidos há cinquenta anos.

Objetos encontrados na Toca
Objetos encontrados na Toca
Foto: Ari Melo | TV Gazeta

A GUERRILHA

A Guerrilha do Caparaó é considerada a primeira guerrilha contra a ditadura. José Caldas da Costa, jornalista, escreveu um livro sobre o assunto. Ele investigou a Guerrilha por dez anos e entrevistou quase todos os guerrilheiros. Tratou-se de um movimento formado por militares dissidentes do Exército e da Marinha.

A ideia era que se formassem guerrilhas rurais em pontos diferentes do Brasil. A do Caparaó durou quase um ano, entre 1966 e 1967. Quase vinte homens se estabeleceram no Caparaó, entre Minas Gerais e o Espírito Santo, para formar um foco de resistência armada contra a ditadura militar.

"Eu não tenho dúvida de que essa é a primeira toca, a ideia deles era fazer essas tocas e dentro delas guardarem alimentos, remédios e armamentos. E malocar essas tocas para quando eles tivessem o completo domínio na serra, eles pretendiam fazer ações efetivamente, ações militares,” explicou o escritor. Segundo Caldas, essa é a primeira toca descoberta. Mas tem outras espalhadas pelo Caparaó.

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Araken Galvão, hoje com 83 anos, um dos guerrilheiros, viu as imagens das descobertas. Para ele, faz sentido que seja mesmo uma das “tocas”. Ele explica que era feito um buraco maior e outro menor dentro, onde guardavam itens que poderiam ser necessários.

“Porque quanto menor a área cavada, menor o risco de desmoronar. Então faziam um maior que desse para a pessoa entrar e depois um outro que desse para guardar”, contou.

Araken acredita que o líquido encontrado seja algum tipo de antioxidante para ser usado nos armamentos. Outro guerrilheiro, Daltro Dornellas, 80 anos, pensa diferente. Ele não reconheceu o ponto onde os agricultores de Iúna cavaram e afirmou que precisa ir até o local para verificar se é mesmo uma toca.

Buraco onde ficariam os objetos
Buraco onde ficariam os objetos
Foto: Esther Radaelli/ TV Gazeta

INVESTIGAÇÃO

Os agricultores pararam as escavações e comunicaram ao Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) dos objetos encontrados. Segundos os produtores, o Instituto informou que vai até São João do Príncipe na próxima semana para investigar o local.

Os moradores do distrito estão empolgados e acreditam que fizeram uma descoberta histórica, que encontraram uma peça de suas próprias histórias. Segundo eles, todos os dias cerca de 50 pessoas têm ido até a toca para conhecer o local. Enquanto isso, os agricultores fazem uma vigília, em turnos, para que ninguém continue a escavação. “A gente quer isso por causa da história. A gente quer resgaté-la, porque como filhos do lugar a gente quer isso para nossos filhos também”, explicou o agricultor Weder Bernardo.

Para José Caldas, que estuda essa história há tantos anos, essa é uma descoberta muito importante. “É como uma metáfora da vida. Não adianta soterrar a história porque algum dia alguém vai cavar e achar. A riqueza maior que está aqui é cultural e histórica. Não importa se estava certo ou errado. Houve um movimento e esse movimento hoje é reconhecido como a primeira guerrilha contra a ditadura implantada no Brasil”, evidenciou.

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