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Pessoas geneticamente modificadas já andam entre nós

A edição de um gene em bebês chinesas, feita pelo cientista He Jiankui, causou espanto, mas não é totalmente novidade

Foto: Reprodução/Pixabay

Foi como se a humanidade tivesse cruzado uma fronteira: na China, o cientista He Jiankui anunciou, em 26 de novembro, que naquele mês haviam nascido duas irmãs gêmeas com um gene que ele editara quando ainda eram embriões.

Mas, de certa forma, não era novidade. Algumas pessoas geneticamente modificadas já andam entre nós.

Em meados da década de 1990, médicos de fertilidade em Nova Jersey suspeitaram que algumas mulheres não conseguiam engravidar por causa de materiais defeituosos em seus óvulos.

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Para rejuvenescê-los, os médicos pegaram um pouco do enchimento gelatinoso de óvulos de mulheres saudáveis e o injetaram nos óvulos de suas pacientes antes de realizar a fertilização in vitro.

Os pesquisadores não pediram permissão à Food and Drug Administration (FDA), agência federal do Departamento de Saúde dos Estados Unidos, para fazer o procedimento. Só deram a notícia depois que as pacientes tiveram bebês saudáveis.

Mas algumas pessoas reagiram com espanto. Nossas células geram energia nas mitocôndrias, que carregam seus próprios genes. Os médicos de Nova Jersey corriam o risco de criar crianças com o DNA de três pessoas, não duas.

Foi o que de fato aconteceu. Eles descobriram que algumas das crianças transportavam DNA mitocondrial das doadoras. Em um relatório de 2001, eles o caracterizaram como “o primeiro caso de modificação genética de linhagem germinativa humana, resultando em crianças saudáveis e normais”. A linhagem germinativa é a linhagem de células que constitui cada pessoa.

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A FDA não gostou. A agência exigiu formulários das clínicas que quisessem testar o método. E as clínicas pararam de fazer injeções em óvulos. Até aquele momento, talvez uma dúzia de crianças já tivesse nascido com uma mistura de DNA. Os médicos de Nova Jersey seguiram acompanhando algumas dessas crianças e não encontraram nada incomum em sua saúde.

No mês passado, o Dr. He, da Universidade de Ciência e Tecnologia de Shenzhen, anunciou que tinha feito bebês com edição genética, alterando o DNA de embriões humanos com uma tecnologia chamada Crispr.

Ele recortou um pedaço de DNA do gene CCR5. As pessoas que não têm esse material genético parecem ser resistentes a infecções de HIV. Ele argumentou que os bebês geneticamente modificados seriam imunes ao vírus.

Em 28 de novembro, o Dr. He detalhou seu trabalho em uma conferência em Hong Kong. E foi chamado de imprudente. Os organizadores do encontro qualificaram o nascimento das gêmeas como “irresponsabilidade”. O governo chinês o considerou ilegal.

Glenn Cohen, da Faculdade de Direito de Harvard, especulou sobre o que pode acontecer de agora em diante. “Haverá uma forte ação regulatória”, disse ele. Quando as pessoas estão com medo, “acabam tomando decisões não muito sutis”.

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No mês passado, Scott Gottlieb, encarregado da FDA, alertou sobre “possíveis regulamentos e leis”.

Seria uma pena. Pois pode haver momentos em que a edição de embriões faria todo sentido.

Na Grã-Bretanha, cientistas pensaram em usar o tratamento de reposição mitocondrial em óvulos humanos. Depois de debates sobre o tema, o Parlamento aprovou o procedimento em 2015.

Em fevereiro, o Departamento de Saúde informou que estava liberando o procedimento para duas mulheres de uma clínica em Newcastle. Recentemente, um representante da clínica se recusou a dizer se os bebês haviam nascido.

É natural focar a atenção nas gêmeas nascidas na China. Mas esses bebês da Grã-Bretanha também merecem atenção. Teremos de escolher quais representam o futuro.

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