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Trabalhadores têm salário defasado em 2017

53,6% dos reajustes até novembro foram abaixo da inflação

Em novembro de 2016, a mediana dos reajustes salariais registrados no Espírito Santo foi de -2,3%
Em novembro de 2016, a mediana dos reajustes salariais registrados no Espírito Santo foi de -2,3%
Foto: Divulgação

O desempenho fraco da economia e um mercado de trabalho cada vez mais restrito tiveram um impacto devastador nas negociações salariais dos trabalhadores, que tiveram em 2016 o pior ano de reajustes desde 2002. No Espírito Santo, 53,6% dos reajustes salariais dos 12 meses encerrados entre dezembro de 2015 e novembro de 2016 foram abaixo da inflação medidas pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC).

Em novembro de 2016, a mediana dos reajustes salariais registrados no Espírito Santo foi de -2,3%, a terceira pior do país, atrás apenas do Amapá (-3,8%) e do Acre (-6,3%). Isso quer dizer que os trabalhadores capixabas tiveram, na mediana, reajustes reais 2,3 pontos abaixo da inflação, que foi de 7,39% nos 12 meses encerrados em novembro.

O dado é do projeto Salariômetro, da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe), que também mostra que, em outubro de 2016, 42,7% das negociações no país resultaram em ajustes salariais abaixo do INPC. Em novembro, esse índice foi de 28,5%.

Até mesmo categorias fortes, como a dos bancários, começam 2017 com o salário defasado pela primeira vez desde 2004: após 31 dias de greve, a categoria aceitou a proposta de reajuste de 8% nos vencimentos em 2016. Neste período, o INPC alcançou 9,2%.

Se 2016 foi um ano em que o desemprego alcançou a cifra recorde de mais de 12 milhões de pessoas e o rendimento do trabalhador encolheu, o ano de 2017 será igualmente ruim ou ainda mais complicado para as negociações salariais dos trabalhadores.

“Estamos vivendo uma recessão grande e as oportunidades econômicas são limitadas. Não há espaço para manter todas as pessoas empregadas e isso faz com que os salários não acompanhem a inflação. Além disso, são 12 milhões de desempregados, e esse número duplicou em dois anos. Com o mercado de trabalho tão retraído, não se oferece para as pessoas o mesmo nível salarial que vinha oferecendo tempos atrás. E muita gente se dispõe a trabalhar por menos, o que também pressiona os salários”, destaca Salomão Quadros, superintendente adjunto para inflação do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre) da FGV.

Com isso, quem continua trabalhando mal consegue manter o poder de compra. “Há um quadro duplamente dramático: além de os salários não acompanharem a inflação, muita gente está perdendo o emprego. O desemprego alto significa baixo poder de barganha dos trabalhadores. O cenário é muito ruim. Provavelmente, as coisas vão piorar ainda antes de começarem a melhorar. Mas quando isso vai acontecer, eu não sei”, avalia Hélio Zylberstajn, coordenador do projeto Salariômetro da Fipe e professor da Faculdade de Economia da USP.

No entanto, para o professor, se ao longo de 2016 os trabalhadores em sua maioria não conseguiram repor a inflação, essa situação deve ser atenuada com a queda dos índices de inflação. “É possível ver que no mês de novembro, o último que temos levantamento, que os reajustes abaixo da inflação são menos de 30%. Em outros meses, foi quase dois terços. Por que isso acontece? Porque a inflação está diminuindo muito”, comenta.

Quanto mais alta, mais difícil de repor. “Ela estava em torno de 10% acumulado ao ano, e fica difícil a empresa repor. Mas, como a inflação foi baixando, em novembro já estava por volta de 7%, ficou um pouco mais viável repor a inflação. Na medida em que a inflação baixe, essa tendência deve continuar”, analisa Zylberstajn.

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