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Telexfree criava "travas" para impedir saques de divulgador

Empresa ainda tirava site do ar, segundo a polícia, para dificultar pedido de resgate do saldo

Sede da Telexfree em Vitória, no Espírito Santo
Sede da Telexfree em Vitória, no Espírito Santo
Foto: Bernardo Coutinho/A Gazeta

As primeiras denúncias feitas contra os donos da Telexfree e líderes da empresa revelam que o esquema estava perto de entrar em colapso quando as atividades do negócio foram paralisadas pela Justiça do Acre em junho de 2013. Segundo investigações da Polícia Federal, a companhia criava mecanismos no sistema de cadastramento e pagamento de divulgadores para limitar os saques.

Para impedir que todos os associados solicitassem resgates ao mesmo tempo, a Telexfree colocava “travas” no chamado Back Office - programa de gestão da companhia - que eram acionadas assim que o teto estipulado fosse atingido. No início, as travas alcançavam o valor de R$ 7 milhões. Esse era o volume máximo de solicitações de saques que seriam efetivadas. A ideia era dar sustentabilidade por mais tempo ao negócio.

Com o crescimento da empresa, esse teto se expandiu e atingiu R$ 30 milhões, mas o valor ainda era irrisório diante do número de pessoas filiadas ao esquema. De acordo com as autoridades, os administradores da pirâmide também tiravam o site do ar de propósito para dificultar os pedidos dos investidores. Pelas regras criadas pela Telexfree, os divulgadores só podiam solicitar saque em um dia específico.

Relatório da Receita Federal também mostra que o desequilíbrio de caixa existia ainda em 2012 quando a proposta da Telexfree era embrionária.

Conforme A GAZETA publicou com exclusividade ontem, os donos da Telexfree, Carlos Costa, Carlos Wanzeler e a filha dele, Lyvia Wanzeler, são alvo de três denúncias criminais do Ministério Público Federal. Na primeira, eles são acusados de promover o golpe da pirâmide, de vender ativos financeiros e de fazer oferta pública de cotas de um hotel sem autorização.

Na segunda denúncia, eles são suspeitos de realizar atividades bancárias dentro da pirâmide, de forma clandestina, emitindo dinheiro eletrônico e transformando-o em moeda real para cadastrar integrantes no esquema após ter sido proibido de atuar no Brasil, burlando a decisão da Justiça do Acre.

A terceira denúncia do MPF acusa os três sócios da empresa de crime contra a ordem tributária por terem sonegado quase R$ 90 milhões no exercício de 2012. Segundo o delegado-adjunto da Receita Federal, Ivon Pontes, os empresários omitiram os rendimentos da companhia e constituíram empresas de fachada para blindar o patrimônio da cobrança de impostos e contribuições.

Até 25 anos de prisão para donos

As três denúncias apresentadas pelo Ministério Público Federal (MPF/ES) contra os donos da Telexfree terão que ser ainda aceitas pela Justiça. As acusações tramitam na 1º Vara Federal Criminal de Vitória, especializada em crimes contra o sistema financeiro.

Se o juiz acatar os processos, Carlos Costa, Carlos Wanzeler e Lyvia Wanzeler podem pegar até 25,5 anos de prisão pela participação nessas irregularidades.

Apesar das denúncias entregues pelo MPF na semana passada, o caso da Telexfree ainda está longe de um desfecho final. Outras acusações devem chegar em breve às mãos da Justiça Federal.

Os donos das empresas e líderes também são alvo de investigações ainda mais complexas. Eles são suspeitos de terem construído um esquema para lavagem de dinheiro e evasão de divisas.

Os empresários e gente próxima a eles tiveram mais de R$ 700 milhões bloqueados em dinheiro e em imóveis urbanos e 17 propriedades rurais sequestradas pela Justiça. A polícia ainda procura bens dos suspeitos que não foram alcançados pelas decisões judiciais.

A defesa dos donos da Telexfree, o advogado Rafael Lima, disse ainda não conhecer o teor das denúncias, por isso não falará sobre o caso.

Os crimes

1º denúncia: sonegação

Carlos Wanzeler e sua filha, Lyvia Wanzeler, e Carlos Costa foram acusados de sonegar quase R$ 90 milhões em 2012. A empresa estava inscrita no Simples Nacional, que dá direito a redução nos impostos, porém faturava valores bem acima do limite permitido por esse regime. Por esses crimes, eles podem pegar 7,5 anos de prisão.

2º denúncia: crime de pirâmide e instituição financeira clandestina

Os três sócios da empresa mais 19 pessoas foram acusados de participar no esquema que misturava golpe da pirâmide a uma trama complexa, com emissão de moeda eletrônica que virava dinheiro real, por meio de um banco clandestino. Por esses crimes, eles podem pegar 4 anos de prisão.

3º denúncia: crime de pirâmide e venda de valores mobiliários

Os três sócios são acusados de promover pirâmide financeira e de vender ativos financeiros sem autorização da CVM. Entre os investimentos comercializados, estava o contrato de publicidade da Telexfree, que garantia renda fixa ao associado, porém os anúncios eram publicados em sites de spans. Eles também são acusados de ofertar venda de cotas de hotel sem autorização da CVM. Por esses crimes, eles podem pegar 14 anos de prisão.

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