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Se a taxa de juros está caindo, por que o crédito continua caro?

Apesar de a Selic ter reduzido de 13% para 7% desde janeiro, as taxas de juros em bancos e operadoras de crédito não acompanharam o ritmo

O índice de média móvel trimestral das vendas do comércio varejista restrito teve ligeiro aumento 0,1% em setembro
O índice de média móvel trimestral das vendas do comércio varejista restrito teve ligeiro aumento 0,1% em setembro
Foto: Reprodução

O Comitê de Política Monetária (Copom) reduziu a taxa básica de juros da economia brasileira em 0,5 ponto percentual, levando o índice para o seu patamar recorde, de 7% ao ano, caindo quase pela metade quando comparada aos 13% da Selic em janeiro de 2017. No entanto, as taxas praticadas por bancos e operadoras de crédito não vêm seguindo o mesmo ritmo de cortes.

O QUE MUDA NA PRÁTICA?

Ao menos quatro bancos consultados pela reportagem do Gazeta Online disseram que já reduziram a taxa de juros. Na linha de crédito pessoal, por exemplo, o Banco do Brasil baixou a taxa mínima de 3,06% a.m. para 3,01% a.m., enquanto que o Itaú Unibanco diminuiu de 2,19% a.m. para 1,48% a.m., e o Banestes passou a operar com taxas a partir de 1,75% a.m. O Bradesco disse que iria acompanhar o corte de 0,5 ponto percentual da Selic, mas não informou as taxas.

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Desse modo, considerando uma média de 2,33% a.m. antes do último corte da Selic, se um consumidor pudesse pegar crédito no valor de R$ 30 mil no mesmo patamar da taxa Selic, para pagar em 60 parcelas fixas, pagaria no final R$ 56.001. Com a redução anunciada pelos bancos, a taxa média passaria para 2,08% a.m., e o preço pago por esse mesmo empréstimo cairia para R$ 52.790,40.

O cálculo foi feito com a Calculadora do Cidadão, do Banco Central, disponível aqui.

POR QUE DIFERENÇA ENTRE A SELIC E OS BANCOS?

Por dois motivos, a alta inadimplência do consumidor e a concentração da atividade financeira em quatro grandes bancos (Itaú Unibanco, Bradesco, Banco do Brasil e Caixa).

De acordo com o levantamento mais recente do Banco Central, o juro médio para crédito não consignado caiu em outubro para 132% ao ano (estava em 140,9% a.a. em janeiro), enquanto que o cheque especial chegava a 323,7% (estava em 328,3% a.a. em janeiro).

O presidente do Sindilojistas de Vitória, Cláudio Sipolatti, afirma que a redução é muito pequena, “praticamente nula”. Ele aponta que a concentração das atividades bancárias em quatro grandes bancos é um dos motivos para a lentidão na redução dos juros.

“A queda na comparação com janeiro não chega nem perto da velocidade de queda da Selic. O consumo brasileiro é muito dependente de crédito, mas, como a concorrência entre bancos é reduzida, os juros continuam exorbitantes. Precisamos de mais bancos e menos intervenção do governo, acho que esse é o caminho para desfrutarmos de taxas mais competitivas”, analisa.

INADIMPLÊNCIA

Um dos argumentos dos banqueiros é a inadimplência do consumidor, que aumenta o risco de calote no crédito. O levantamento do Banco Central mostra que esse índice vem caindo, mesmo com a crise. Em operações para crédito pessoal não consignado a inadimplência caiu de 8,6% em janeiro para 8% em outubro. Para quem entrou no cheque especial, apenas 14,8% ficou inadimplente em outubro, frente a 16,2% em janeiro.

“Mesmo que a inadimplência pese na conta e considerando também os custos administrativos dessas operações, ainda assim nós economistas esperávamos uma queda maior nessa taxa. Essa queda substancial da Selic não foi repassada para o consumidor, a análise era que, mesmo com inadimplência elevada, o mercado reduziria mais”, afirma o economista Mário Vasconcellos.

O QUE DIZ A POPULAÇÃO?

O marceneiro Fernando Soela e a aposentada Florenir do Nascimento dizem que os juros ainda são altos e o corte na taxa Selic, apesar de visto com bons olhos, não anima a fazer novos investimentos.

“Toda redução de juros é boa, mas na prática eles ainda são muito altos. Para voltar a consumir, além dos juros, acho que as pessoas precisam melhorar a renda, ter mais oportunidade de emprego”, conta Fernando.

O autônomo Euzébio Rodrigues está com dificuldades para pagar dívidas no cartão de crédito. Para ele, o juro ainda é exorbitante.

“Acho que tem que reduzir ainda mais, não vi diferença quase nenhuma. É difícil pagar as contas com essas taxas desse tamanho”, revela.

 

 

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