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Carreira de sucesso sem diploma superior

Mesmo sem ter feito faculdade, é possível se dar bem na profissão

 Orlane Santana de Jesus, 40 anos, não possui diploma de curso superior, porém recebe um bom salário
Orlane Santana de Jesus, 40 anos, não possui diploma de curso superior, porém recebe um bom salário
Foto: Marcelo Prest

O diploma de nível superior pode abrir portas, mas não é realidade para boa parte da população. No Espírito Santo, mais de 3,3 milhões de pessoas não chegaram a acessar ou a completar o ensino superior, e apenas 11,6% dos capixabas têm diploma superior. No entanto, muitos profissionais que não cursaram faculdade se deram bem na carreira, seja criando um serviço diferenciado ou por terem se destacado dentro das empresas em que atuam.

A governanta Orlane Santana de Jesus, 40 anos, é um desses exemplos. Hoje, ela coordena a equipe de 11 camareiros do Hotel Bristol La Residence, em Vitória, fiscalizando e orientando os trabalhadores, além de resolver eventuais intercorrências. Há 16 anos, ela dava os primeiros passos na carreira, atuando na limpeza dos quartos e das áreas comuns de um hotel de Vila Velha.

Orlane, que é da Bahia, conta que só terminou o ensino médio aos 28 anos. “Terminei o ensino médio trabalhando como camareira. Com dois anos trabalhando, comecei a ficar responsável pela governança à noite. Um ano depois, fui colocada como supervisora”, conta.

Ela chegou a sair e voltar ao hotel, quando recebeu a proposta para ser governanta. “Aceitei com muito medo, porque é muito grande, são 138 apartamentos, mais os moradores. Acho que por eu ter responsabilidade, comprometimento e sempre ouvir meus superiores eles gostaram de mim. No começo, a gente às vezes é taxada como puxa-saco, que eu era boba, mas nunca ouvi isso. Meus superiores acabaram tendo confiança em mim”, destaca Orlane.

Moisés Nascimento também começou na carreira de baixo. Hoje, dono da agência de modelos Mega Model Vitória, ele, que fez curso técnico e não chegou a completar a faculdade de Administração, começou como olheiro e, depois, como produtor. O bom trabalho o levou a ser gerente geral de dez agências do interior de São Paulo e a fazer uma parceria para abrir seu próprio negócio.

“O que me fez ter sucesso é ter pegada empreendedora, não ter medo, meter a cara, ser cara de pau. Senão não acontece. E muito trabalho. Ajuda demais trabalhar com o que gosta”, pontua.

Empreendedora

Talita Coutinho, montou uma clinica de estética
Talita Coutinho, montou uma clinica de estética
Foto: Ricardo Medeiros

Hoje dermopigmentadora, Talita Coutinho, 33 anos, descobriu por acaso o caminho do sucesso. Sua visão estratégica do mercado capixaba, o pioneirismo e um perfil muito empreendedor a fizeram se tornar referência quando o assunto é sobrancelhas.

Ela chegou a vender chup chup, e depois começou a fazer sobrancelha, quando percebeu que isso poderia dar dinheiro. Foi quando, há 12 anos, ela fez curso profissionalizante de estética facial e corporal e conheceu a micropigmentação. Por ver que não havia concorrência, decidiu abrir um espaço pioneiro especializados em sobrancelhas. E ainda criou sua própria técnica.

Com isso, ganhou diversos prêmios, até internacionais, e passou então a dar cursos, onde hoje atende a mais de 2 mil pessoas por ano. “O que me ajudou foi meu lado empreendedora. Se não tiver uma visão do negócio, até onde quer chegar, qual cliente quer atingir, é difícil andar para a frente.”

Outro empreendedor por espírito é o ourives Carlos Bautz, 58, dono da Bautz Fábrica de Joias. Apesar de ter completado apenas o ensino fundamental, ele comanda uma empresa que está há 43 anos no mercado capixaba, produzindo coleções sob encomenda para mais de 300 clientes em todo o Brasil.

“Comecei quando tinha 16 anos, em Domingos Martins, trabalhando em uma fábrica de joias como ourives, onde aprendi o trabalho. Vim para Vitória com 19 porque queria crescer. Em 1990, abri uma oficina de consertos e fabricações manuais. Fui criando uma clientela”, diz.

Para se manter em destaque, Bautz se mantém atualizado indo a feiras internacionais e nacionais para divulgar o trabalho e buscar novas tecnologias e novos modelos. “Me atualizar sem dúvida é um diferencial. E ter foco também. Sempre soube o que eu queria, que era ter a maior fábrica de joias dentro do Espírito Santo. E fiz tudo para chegar lá”, conta ele.

De técnico agrícola a dono de um dos maiores cerimoniais do Espírito Santo – o Steffen Centro de Eventos –, Ildo Antônio Steffen, 61, já trabalhou como gerente de hotel, já teve restaurante e até lava-jato.

“Queria mexer com eventos, realizar sonhos, encantar as pessoas. Tem que ter coragem, determinação, visão. Tem que ser empreendedor e não desanimar. Vamos inaugurar um showroom de locação de pratos, talheres, fritadeira, tudo que precisar para um evento. Vamos lançar também uma feira de vinho, cachaça e gastronomia. Tem sempre que inovar”, afirma.

Cursos e rede de contatos para se destacar no mercado

 Dono da maior fábrica de joias do Espí­rito Santo, Carlos Bautz (na foto) começou sua carreira como ourives, em Domingos Martins, no interior do Estado
Dono da maior fábrica de joias do Espí­rito Santo, Carlos Bautz (na foto) começou sua carreira como ourives, em Domingos Martins, no interior do Estado
Foto: Vitor Jubini

Conhecer a área de atuação e ter perfil empreendedor ajudam no sucesso da carreira. A falta de um curso superior no currículo pode tornar a busca por uma vaga mais restrita, pois muitas oportunidades têm como fator de eliminação a formação em nível superior. Mas isso não quer dizer que não é possível se dar bem sem um diploma. Ter bom relacionamento com pessoas da área e estar atualizado são algumas atitudes que podem ajudar quando o assunto é ter sucesso na carreira.

Há muitos casos de empresários de sucesso que conseguiram ter resultados e crescimento na trajetória profissional mesmo sem ter formação superior, lembra a coach de carreira e negócios, Marcela Calazans.

Segundo ela, “são pessoas ou que possuem habilidades e competências diferenciadas, principalmente o relacionamento interpessoal, comportamentos de liderança e de tomada de decisão, ou até comportamentos empreendedores que se diferenciam de pessoas com formações superiores”, salienta.

Essas pessoas, porém, precisam continuar estudando e buscar parceiros ou sócios que tenham conhecimentos que ela não tem, opina Marcela.

“A formação é muito importante, ela é um diferencial no mercado. Mas, em alguns casos, não é fator decisivo. O que vai mostrar se essa pessoa tem habilidade, conhecimentos naquilo que ela se propõe, são os resultados que ela apresenta”, diz.

Nunca é tarde para fazer uma faculdade, e Marcela lembra que hoje existe a modalidade de ensino à distância, mais acessível que o curso presencial e mais flexível. “Vale a pena buscar instituições bem posicionadas para fazer uma formação superior”, diz.

Geralmente, quem se dá muito bem sem ter um diploma são pessoas que têm bom networking, ou seja, um bom relacionamento e fazem parte de um grupo de pessoas mais próximas onde a confiança pesa mais que qualificação. Outro fator é o conhecimento tácito, ou seja, quem aprendeu fazendo. E, por fim, que encontram espaço em empresas que prezam por profissionais com perfil mais operacional e técnico, explica a psicóloga especialista em pessoas e processos organizacionais, Gisélia Freitas.

Além disso, diz ela, não ter nível superior não significa não estar atualizado em sua área. “Tem que se qualificar. Tem muitos cursos on-line gratuitos em várias áreas, que são formas de estar atualizado”, destaca.

Outra questão é usar as principais competências para se manter em ascensão na empresa. “Ter perfil empreendedor, quem pensa com a cabeça do dono, sempre olhando para redução de custos, ser pró-ativo e preocupado com inovação... Isso é valorizado. Outro ponto é se adaptar, ser um profissional camaleão”, ela pontua.

Ter planejamento de carreira

Qualquer profissional que quer ter sucesso na carreira deve buscar conhecimento sobre a atividade, se posicionar estrategicamente e dar direcionamento dos passos que vai dar no mercado de trabalho. É importante se avaliar e descobrir onde é bom, em que áreas será mais competitivo, onde quer chegar, o que o mercado está precisando e como se qualificar para isso. E traçar metas para chegar nessa posição desejada.

Buscar cursos de qualificação

Há diversos cursos on-line, muitos de graça, em várias áreas de conhecimento, até mesmo em instituições internacionais, que podem trazer atualização para o profissional. É preciso avaliar a área em que está para saber quais cursos encaixam melhor nas demandas do mercado.

Fazer networking

No Espírito Santo, 90% das vagas são preenchidas por causa de relacionamento, ou seja, conhecer pessoas que possam indicar para uma vaga. O profissional deve, então, sair dos bastidores, participar de cursos, congressos, eventos, tudo que for possível dentro da área profissional dela e usar suas principais competências para se manter em ascensão.

Desenvolver relações de confiança

Dentro das empresas, um bom relacionamento com a equipe e com os superiores é fundamental. Mas mostrar que é um profissional de confiança, que tem responsabilidade e comprometimento com a empresa, pode ajudar a conseguir evolução na carreira.

Ter perfil empreendedor

Ter perfil empreendedor, pensar soluções inovadoras e ser pró-ativo são atitudes fundamentais para qualquer profissional se destacar.

Ser um profissional flexível

Se adaptar e ser profissional camaleão é outra ferramenta importante no mercado de trabalho.

 

 

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