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Capixabas são resgatados de trabalho análogo à escravidão no Sul do país

Trabalhadores vieram de Santa Catarina mas foram abandonados em Fundão antes de seguir para suas cidades natal, no Norte do ES e Sul da BA

Mais de 30 trabalhadores do Espírito Santo e da Bahia foram resgatados em condições análogas à de escravos no município de Rancho Queimado, em Santa Catarina. Eles deixaram Florianópolis em um ônibus fretado pela empresa acusada na madrugada de quinta-feira (10), rumo às suas cidades de origem, mas foram abandonados hoje por volta de meio-dia em Fundão, na Região Metropolitana de Vitória. 

Segundo o Ministério Público do Trabalho em Santa Catarina (MPT-SC), quando os trabalhadores saíram de Florianópolis foram informados de que um outro veículo estaria à disposição para fazer a baldeação e terminar o trajeto levando cada um às suas casas, mas foram largados na praça central de Fundão sem nenhuma explicação, dinheiro ou alimentação.

O resgate foi feito no último dia 3 de maio nas empresas Thenosflorestal Infraestrutura e Logística Florestal e Construflora Serviços Ltda, subcontratada da primeira e responsável por arregimentar os trabalhadores para a extração de madeira de pinus. Os resgatados são dos municípios de São Mateus, Pedro Canário e Conceição da Barra, no Estado; e Nova Viçosa e Teixeira de Freitas, na Bahia.

Eles estavam há cerca de um mês na Fazenda Campinho, vivendo em condições degradantes, sem contrato de trabalho formalizado, com suas carteiras de trabalho retidas, e sem receber salários, de acordo com o MPT. Eles foram resgatados por meio de uma força tarefa composta pelo Ministério Público do Trabalho de Santa Catarina, Ministério do Trabalho e Polícia Rodoviária Federal.

Após o resgate, os trabalhadores foram levados para um hotel em Santa Catarina enquanto as questões trabalhistas e de transporte de volta eram resolvidas. Em Termo de Ajustamento de Conduta (TAC), a Thenosflorestal assumiu a obrigação de pagar um determinado salário a cada trabalhador de R$ 2 mil, sendo R$ 1.500,00 no ato da baixa das carteiras de trabalho e o restante como pagamento das verbas rescisórias, que serão homologadas no dia 16 de maio nas sedes do Ministério do Trabalho das cidades de origem dos trabalhadores nos estados da Bahia e Espírito Santo.

No entanto, de acordo com o MPT-SC, além de abandonar os trabalhadores em Fundão, a empresa deixou-os sem alimentação e parte do salário, os R$ 1.500,00 que Thenosflorestal deveria ter pago até quinta-feira (10), não foi depositada na conta dos resgatados.

Uma das trabalhadoras resgatadas, Taiane Ribeiro Kretle, de 24 anos, natural de São Mateus, contou que só durante a noite, após ação do MPT, que a empresa pagou uma refeição para eles e, por volta de 20h45, enviou um ônibus para levá-los até suas casas.

"Chegamos aqui meio-dia. Eles largaram a gente em frente à rodoviária, com a mala na rua, e foram embora. Ligamos para a empresa em Santa Catarina e eles disseram que a partir daqui a gente tinha que se virar. E ficamos aqui o dia todo, na rua, sem alimentação, dinheiro, nem ter para onde ir. Já não bastava tudo que a gente passou lá e agora mais isso", comenta.

Segundo Taiane, eles foram atraídos através de anúncios no Sine que indicava boas condições e salário, mas ao chegar lá se assustaram. "A alimentação e o alojamento não era adequado. Todos os dias a gente comia arroz, feijão e linguiça. No alojamento dos rapazes eles tinham que dormir no chão e tomar água da torneira do banheiro. Foram dias muito difíceis".

O Ministério Público do Trabalho do Espírito Santo foi acionado e está acompanhando e fiscalizando a volta para a casa dos resgatados. O MPT de Santa Catarina ajuizou ação pedindo o bloqueio de bens das empresas pelo descumprimento das obrigações assumidas. Outra ação judicial deve ser proposta nos próximos dias pedindo a condenação dos envolvidos na contratação desses trabalhadores que acabaram sendo vítimas de uma armação e mantidos em situação análoga à escravidão.

 

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