Notícia

Empresas de carne e laticínios poluem mais do que petrolíferas

Relatório critica falta de apoio do setor de alimentos à luta contra caos climático

Vaca
Vaca
Foto: Reprodução/Pixabay

Quando se pensa na emissão de gases de efeito estufa, a primeira imagem lembrada por muitas pessoas é da chaminé de usinas em plena atividade. No entanto, a principal ameaça que pode levar o planeta a sucumbir às mudanças climáticas está mudando de nome. Segundo um novo relatório do Instituto de Política Agrícola e Comercial (IATP) e da Grain, uma organização internacional de apoio à produção agrícola sustentável, as cinco maiores empresas de carne e laticínios, somadas, já são responsáveis por mais emissões de poluentes na atmosfera do que as principais petrolíferas do planeta.

Segundo o relatório, “ao contrário de suas contrapartes do setor energético, as grandes empresas de carne e laticínios escaparam até agora do escrutínio público sobre sua contribuição para as mudanças climáticas. A falta de informações públicas sobre a magnitude de sua pegada de gases de efeito estufa é um dos principais fatores para isso”.

A coleta dos dados sublinhou a despreocupação do setor em manter o aumento da temperatura global abaixo de 2 graus Celsius, como foi estabelecido no Acordo de Paris. A maioria das 35 principais empresas de carne e laticínios não consegue relatar completamente as emissões ou exclui aquelas ligadas à rede de fornecimento, responsável por até 90% dos poluentes jogados para a atmosfera. Apenas metade anunciou metas para reduzir os gases estufa, e somente seis incluíram em seus planos alguma ação envolvendo a cadeia de suprimentos.

BRASIL ESTÁ ENTRE OS MAIORES EMISSORES

Leia também

Poucos países têm participação expressiva na potencial tragédia ao clima. Estados Unidos, Canadá, União Europeia, Brasil, Argentina, Austrália e Nova Zelândia concentram 43% das emissões relacionadas à produção de carne e laticínios, embora concentrem apenas 15% da população mundial. Estes alimentos também estão cada vez mais presentes na dieta de indianos e chineses, o que também elevou estas nações ao posto de grandes poluidoras.

Devlin Kuyek, pesquisador da Grain, avalia que a única estratégia possível para evitar as caóticas mudanças climáticas é “reduzir significativamente” a produção de carnes e laticínios nos países que dominam o setor.

— Essas corporações estão pressionando por acordos comerciais que aumentem as exportações e as emissões, e estão minando soluções climáticas reais, como a agroecologia, que beneficia agricultores, trabalhadores e consumidores — critica.

Uma das empresas estudadas projetou que, no Brasil, o consumo anual de carne per capita aumentará 30% em pouco mais de três décadas, passando de 37 quilos por pessoa em 1999 para 48 quilos em 2030.

O Greenpeace, no entanto, recomenda o contrário. Para evitar o aumento descontrolado das emissões e eventos climáticos extremos, o consumo global de carne e laticínios deve cair para 22 kg per capita ao ano até 2030 e, depois, para 16 kg em meados do século.

Para a diretora do IATP, Shefali Sharma, o relatório sobre o comportamento das empresas evidencia uma luta entre o lucro e o planeta.

— Não existe carne barata. É hora de percebermos que o consumo excessivo está diretamente ligado aos subsídios que fornecemos à indústria para continuar desmatando, esgotando nossos recursos naturais e criando um grande risco à saúde pública por meio do uso excessivo de antibióticos — alerta. — Agora, o relatório mostra o papel fundamental que estas companhias desempenham também para as mudanças climáticas.

O relatório menciona a “onipresença de grandes executivos de carnes e laticínios nos ciclos políticos dos governos e sua correspondente influência na agricultura e nas mudanças climáticas”. É o caso, diz o documento, do ministro da Agricultura brasileiro, Blairo Maggi, um dos maiores produtores de alimentos para animais do país, e que no ano passado defendeu na ONU o consumo de carne bovina.

Gerente da iniciativa de clima e agropecuária do Imaflora, Marina Piatto avalia que o dano causado pela produção de carne e laticínios é desconhecido pela maioria da população do país. Os alertas, quando existentes, são feitos da forma equivocada.

— O brasileiro está mais interessado na abordagem de situações que fazem parte diretamente de seu cotidiano, como as emissões no transporte — explica. — Mas a mensagem do setor alimentício é muito extremista, como se fosse necessário que todos virassem veganos. Devemos ser menos radicais e falar em consumo moderado.

Marina aponta desorganizações em toda a cadeia produtiva — a área de pastagem é muito grande, os frigoríficos têm uma influência desproporcional na economia brasileira. Mas o poder público, embora não seja alvo do novo relatório, também tem sua responsabilidade.

— É fácil criticar a iniciativa privada, mas ela é apenas um elo da cadeia. O governo deve apresentar uma série de medidas, como promover a regularização fundiária e oferecer assistência técnica e tecnologia para melhorar a produção agropecuária — recomenda.

Ver comentários