COOPERATIVISMO

Corte e sangria: as mulheres seringueiras e a produção de borracha no ES

Mulheres aprenderam a prática no seio familiar e aprimoraram o conhecimento da extração da borracha nos seringais com a assistência das cooperativas capixabas

Luciana Castro

Publicado em 13/09/2018 às 12h22

O trabalho tem como pilar a faca, o corte e a sangria, mas quanto mais delicado for o manejo, de melhor qualidade será o produto. Tirar a seiva da árvore da seringueira é uma tarefa que exige cuidado para que a planta não fique ferida e comprometida pois, se bem tratada, a vegetação pode chegar a uma vida econômica de até 40 anos na extração da borracha. É por todo esse zelo que as mulheres têm tido um papel muito importante nos seringais.

No Espírito Santo, a maioria das mulheres adquiriram conhecimento no seio familiar, com o companheiro ou o pai seringueiro, e aprimoraram a técnica por meio do auxílio das cooperativas, que têm a função de assistir tecnicamente os associados e proporcionar condições mais vantajosas no mercado ao produtor.

Um exemplo que ilustra bem essa realidade é o de Luciene Conceição, de 43 anos. Ela mora com o marido e o filho na região de Amarelos, em Guarapari, onde cuida de uma área de seringueiras, trabalho que realiza há 24 anos. Assim como tantas outras mulheres, ela começou a extração para ajudar o companheiro e hoje é a principal fonte de renda. Tanto que Luciene pretende continuar por mais uns bons anos a exercer essa função na mata.

Mulheres durante trabalho em seringal no Espírito Santo
Mulheres durante trabalho em seringal no Espírito Santo Foto: Ricardo Medeiros

"Meu marido era seringueiro e um dia que ele não estava perto, peguei o material dele e fui fazer sozinha. Feri a árvore todinha e levei aquela bronca. Logo depois ele me ensinou como fazia e eu tomei gosto. O Rodrigo (assistente técnico da Heveacoop) vem aqui, olha para ver se estamos fazendo certo, e dá dicas para termos uma borracha com a melhor qualidade possível. Quando é preciso, a gente passa fungicidas na planta. Eu gosto do que faço. Já trabalhei em casa de família, fui manicure, aliás, sou até hoje, mas é no seringal onde quero ficar", garante Luciene.

Hoje posso dizer que o seringal me deu muita coisa. Carro, moto, estudo para mim, meu marido e para meu filho
Luciene Conceição

Há 18 anos, Leda dos Santos, de 41, segue uma rotina que para muitos pode ser desgastante e um tanto "cruel", mas que para ela e o esposo Antônio é a forma que eles encontraram para ter qualidade de vida.

"A gente levanta por volta das 3h para começar a cortar no seringal. Tem muita gente que começa mais tarde, mas eu prefiro ir ainda escuro, durante a madrugada, porque quando dá umas 9h a gente já acabou o serviço naquele dia e pode fazer as outras coisas como arrumar casa, lavar roupa, fazer comida, enfim, todos os outros afazeres do nosso dia a dia", descreve a seringueira.

AJUDA É FUNDAMENTAL

As mulheres se enquadram bem porque o seringal exige um pouco de sensibilidade na mão e elas se demonstram muito aptas para esse trabalho. Em seringueira eu tenho parceira mulher que produz mais que o parceiro homem
Rodrigo Maurício, assistente técnico da Heveacoop

A árvore da seringueira, depois de plantada, leva de sete a oito anos para estar pronta para a extração da borracha. E se bem explorada pelo seringueiro, a planta terá uma vida produtiva de 40 anos, em média. A sangria, que é o corte que os seringueiros dão na planta para a colheita do látex, deve ser feita bem cedo, antes do sol forte, como explica o assistente técnico da Heveacoop, Rodrigo Maurício.

40 anos

Essa é a média da vida produtiva da seringueira

"A vida no seringal começa cedo porque, para que o rendimento seja satisfatório, o processo de sangria da árvore depende de uma temperatura mais baixa. Se estiver muito calor, a árvore para de pingar porque a seiva acaba endurecendo e secando. Por isso esses trabalhadores optam por começar o trabalho cedo, alguns de madrugada. Se o seringueiro dá o corte na árvore, ele não pode voltar no mesmo dia e cortar aquela árvore novamente. A planta precisa de um descanso de quatro dias", explica Rodrigo.

E isso as mulheres que trabalham nesse meio sabem de cor. A Vanessa Rocha, que cuida de parte de um seringal em Alfredo Chaves junto da mãe, Maria D'ajuda, tem consciência de que o modo como ela faz a colheita será responsável pelo bom êxito de sua produção.

"Você não pode virar muito a faca de lado senão fere a árvore e, dependendo do corte, vai começar escorrer pela planta e você vai perder parte da produção. Se você ficar repetindo sempre o ferimento no mesmo lugar a árvore corre o risco de não sangrar mais. A gente tem essa preocupação de não machucar a planta. O Rodrigo sempre vem aqui olhar como estamos fazendo. Se vê alguma coisa errada, ele corrige e mostra qual deve ser o jeito certo para que a gente não prejudique a nossa produção", conta. 

PREÇO DA BORRACHA DEPENDE DA "PUREZA"

Eu gosto do que faço. Já trabalhei em casa de família, fui manicure, sou até hoje, mas é no seringal onde quero ficar
Luciene Conceição, seringueira

Os cuidados com a borracha coletada no balde preso à arvore fica a cargo do seringueiro responsável por aquela determinada área. É preciso retirar as folhas e sujeiras que caem no recipiente, o excedente de água, e deixar o produto final o mais puro possível para garantir uma melhor qualidade e consequentemente um preço mais satisfatório, como detalha o diretor comercial da Heveacoop, Pedro Inácio Wandekoken.

"Os nossos caminhões da cooperativa vão até a propriedade onde se faz a pesagem do produto. Levamos uma amostra para nossa unidade de processamento para determinar a densidade de borracha contida naquela amostra. Uma borracha de qualidade é uma borracha com pouca água e sem impurezas. A borracha deve ser colhida com mais antecedência, uns cinco dias antes de o caminhão passar para recolher para que escorra o excesso de água. O preço varia de acordo com essa qualidade. Vai de R$2,40, que é o preço base, e pode chegar a R$2,70 o quilo, dependendo do grau de qualidade".

PRODUÇÃO CAPIXABA DISPUTA 4º LUGAR NACIONAL

Hoje o Espírito Santo está na cola de Goiás, na disputa do quarto lugar entre os maiores produtores de borracha do país. São Paulo encabeça a lista, com 60% da produção brasileira, seguido de Mato Grosso e Bahia. Segundo Pedro Wandekoken, metade da borracha produzida pelos associados da Heveacoop em terras capixabas fica no Estado. A outra é distribuída para dois consumidores.

"Aqui no Estado, na cidade de Sooretama, ficam 50% da nossa borracha, que é comprada pela empresa Michelin. O restante, esta mesma empresa, com sedes na Bahia e São Paulo, compra para abastecer essas duas localidades. A produção anual da Heveacoop é de 3,2 mil toneladas, o que resulta em um faturamento bruto de 10 a 12 milhões de reais", como informa o diretor comercial.

MULHERES E HOMENS TÊM PAGAMENTO IGUAL

A maioria dos seringueiros trabalha em acordo de parceria. O valor médio a ser recebido é de 35% em cima da produção individual. Tanto mulheres quanto homens recebem a mesma porcentagem, sem distinção de gênero. Por isso, a produção depende do desempenho de cada trabalhador. O assistente técnico da Heveacoop Rodrigo Maurício exalta o papel das mulheres, que têm ganhado destaque.

"O trabalho não é pesado, ele não requer muito esforço físico e se enquadra bem entre as mulheres porque exige um pouco de sensibilidade na mão. Em seringueira eu tenho parceira mulher que produz mais que o parceiro homem", aponta.

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Segundo o levantamento do primeiro semestre de 2018 feito pela equipe de Monitoramento do Sindicato e Organização das Cooperativas Brasileiras do Espírito Santo (OCB-ES), a Heveacoop possui 415 cooperados, sendo 347 homens, 59 mulheres e 9 pessoas jurídicas. Já a Cooperativa dos Produtores de Borracha do Espírito Santo, a Coopbores, concentra 40 cooperados, sendo 31 homens e 9 mulheres.

Para o presidente do Sistema OCB/ES, Pedro Scarpi Melhorim, a força feminina tem sido de grande contribuição para o crescimento do cooperativismo capixaba, dando a este ainda mais qualidade.

"As mulheres estão se tornando cada vez mais protagonistas de histórias de sucesso dentro e fora do Cooperativismo. Mulheres realizam suas tarefas com sabedoria e amor, esse é o diferencial que as leva a um patamar superior e quem vem conquistando cada vez mais espaço no mercado. E nas propriedades rurais isso é ainda mais notável. O trabalho rural necessita de inteligência, força de vontade e muito preparo físico, este atribuído na maioria das vezes aos homens. E lá estão elas, as mulheres. Realizando o trabalho com a mesma maestria que os homens".

Sobre o trabalho no seringal, as mulheres talvez tenham apenas uma reclamação. "O cheiro da borracha é realmente muito forte. E ele fica na mão, não tem jeito. Eu passo limão, tem gente que passa café, mas mesmo assim o cheiro não sai por completo. Se você jogar perfume então aí que fica pior. A mulher seringueira tem que conviver com isso", resume Leda.

PERÍODOS MAIS PRODUTIVOS

A árvore da seringueira é plantada em solo argiloso e a extração da borracha acontece o ano todo. No entanto, como explica o diretor presidente da Heveacoop, Humberto Nunes de Moraes, há períodos mais produtivos que outros.

"A produção não para. Na entressafra, que é de agosto a outubro, a produção reduz 40%. O melhor período para a produção é de maio a julho. A árvore vai continuar produzindo de forma satisfatória se o seringal estiver livre de ervas invasoras; se o seringueiro efetuar a sangria bem cedo, antes do sol forte; se for respeitado a frequência de sangria regular com o objetivo de não expor a planta ao estresse; se for evitados ferimentos no painel da sangria e se for evitadas falhas durante o processo de sangria", enumera.

Mulheres durante trabalho em seringal no Espírito Santo

ESPÍRITO SANTO CONTA COM DUAS COOPERATIVAS

Além da Heveacoop - com sede em Vila Velha -, cooperativa registrada no Sindicado e Organização das Cooperativas Brasileiras do ES, a OCB-ES, que atende as cidades de Alfredo Chaves, Anchieta, Apiacá, Aracruz, Atílio Vivacqua, Cachoeiro de Itapemirim, Cariacica, Fundão, Guarapari, Ibiraçu, Iconha, Itapemirim, Mimoso do Sul, Piúma, Presidente Kennedy, Rio Novo do Sul, Santa Teresa, Viana, Vila Velha, há outra cooperativa com um campo menor de atuação, mas que tem cerca de 30% de mulheres à frente dos seringais. É a Cooperativa dos Produtores de Borracha do Espírito Santo que fica localizada na cidade de Linhares.

1º lugar

Essa é a posição do Brasil entre os maiores produtores de borracha da América Latina

A produção da Coopbores, no entanto, é toda comercializada com uma empresa da Bahia, a Agro Industrial Ituberá. A cooperativa atua em Linhares, São Mateus, Jaguaré, Serra, Viana e Guarapari. Atende ainda duas cidades mineiras, Mantena e Governador Valadares.

 

 

COOPERATIVISMO CAPIXABA É REFERÊNCIA 

Apesar de o Brasil produzir hoje apenas 1,5% da borracha natural mundial, o país se encontra entre os dez principais consumidores do planeta. E o Espírito Santo, embora esteja em uma área de solo úmido, assim como a Bahia, que fica mais sujeita à proliferação da doença conhecida como "mal das folhas", tem forte importância no cenário nacional por conta das cooperativas, como explica do diretor executivo da Associação Paulista de Produtores e Beneficiadores de Borracha - Apabor - Diogo Esperante. 

"De todos os estados produtores de borracha, o Espírito Santo é o único no país que possui duas cooperativas, a Heveacoop e a Coopbores. E hoje, a maior cooperativa do Brasil, que foi criada ano passado e está situada no estado de São Paulo, a Hevea Forte, foi inspirada na cooperativa capixaba Coopbores. Então o Espírito Santo, além de sua produção estadual, está fazendo escola no cooperativismo e sendo referência, ensinado os demais estados na produção da borracha".

O diretor executivo reforça também que é em solo capixaba que está uma das usinas de beneficiamentos de borracha mais importantes do país, a Michelin.

"Apesar de o Espírito Santo não ser um estado com uma produção muito grande se comparado a São Paulo, por exemplo, ele tem parte importante também no beneficiamento. Com isso, muito da produção de Goiás viaja até a usina capixaba para ser beneficiada. Além ainda de ser um estado com uma organização de cooperativas das mais ativas. Isso, sem dúvidas, tem colaborado muito para o crescimento do setor", acrescenta Esperante. 

PRODUÇÃO BRASILEIRA COM SUSTENTABILIDADE

Tailândia e Indonésia são os maiores produtores de borracha do mundo. A borracha brasileira, no entanto, tem dificuldade de competir com o mercado asiático, entre outros fatores, por conta da baixa remuneração paga pela mão de obra nestes locais. No entanto, como explica Diogo Esperante, a melhor valorização do trabalhador nacional é uma política de sustentabilidade que o Brasil não quer abrir mão. 

"É caro produzir a borracha aqui no Brasil e isso faz nosso produto perder competitividade lá fora. Mas remunerar melhor nossos seringueiros, ter esta responsabilidade social e uma política de não exploração ao trabalhador rural é encarado como um valor agregado a nossa borracha e é também um marketing positivo para o Brasil. E a tendência é melhorar ainda mais essa valorização, com a criação de programas voltados para isso", completa. 

De acordo com a Associação Paulista de Produtores e Beneficiadores de Borracha, que é associação mais antiga do país, o Brasil produz 400 mil toneladas de borracha por ano. E 80% dessa borracha produzida aqui é destinada para a indústria de pneus.