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Veja como funcionava fraude em financiamentos de imóveis no ES

Entre pessoas físicas e jurídicas, podem estar envolvidas no esquema 63 pessoas, número que pode aumentar com o desenrolar das investigações

Correspondente foi preso em sua residência nesta quarta-feira
Correspondente foi preso em sua residência nesta quarta-feira
Foto: Murillo Velasco/G1

Um correspondente bancário de Vila Velha conveniado ao Caixa Aqui foi preso pela Polícia Federal nesta quarta-feira (8), durante a Operação Fruto Podre. Ele foi indiciado por cometer crime financeiro, falsificação de documentos e peculato em uma fraude que rendeu um prejuízo de R$ 5 milhões a Caixa Econômica Federal.

O golpe consistia em usar compradores e vendedores laranjas para simular a compra de imóveis supervalorizados, com valores até quatro vezes maior do que o que é praticado no mercado. Com isso, os fraudadores tomavam o empréstimo junto à Caixa, não pagavam as parcelas e o valor do financiamento era depositado, muitas vezes integralmente, na conta do correspondente bancário.

Segundo o delegado da Polícia Federal Guilherme Helmer, que conduziu a operação, 63 pessoas físicas e jurídicas estão sendo investigadas nas fraudes. Para ele, a apuração mostra que as propriedades pouco importavam na transação e que o objetivo da fraude era se apropriar do recurso disponibilizado pela Caixa.

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“Uma das transações que mais chamaram atenção é de um loteamento em Retiro do Congo, em Vila Velha, que foi comprado por R$ 262 mil e financiado pela Caixa meses depois por R$ 1,138 milhão. Com a quebra de sigilo que fizemos, autorizada pela Justiça, constatamos que o vendedor desta operação depositou o dinheiro liberado pela Caixa em contas do correspondente bancário ou de empresas dele. Tudo aponta que ele era quem comandava o esquema”, afirma.

No total, são 26 contratos firmados por esse correspondente bancário que estão em apuração, mas a Polícia Federal acredita que este número pode aumentar. As fraudes identificadas foram cometidas entre 2009 e 2014. Há a suspeita de que avaliadores de imóveis contratados pela Caixa e até os gerentes de uma agência do banco em Vila Velha possam ter participado do esquema.

“Estamos apenas na ponta do iceberg. A Caixa terceiriza avaliadores para definir o preço dos imóveis. Vimos que os donos dessas empresas de avaliação que assinaram a análise de valor, o que é incomum. Vamos ouvir eles agora para explicar o motivo dessa discrepância entre o valor que foi revisto pela Caixa. Também serão chamados para dar esclarecimentos os gerentes da Caixa que assinaram a liberação deste recurso com valores tão impactantes”, diz o delegado.

A fraude foi descoberta durante uma sindicância da Caixa Econômica Federal, em quatro contratos que estavam inadimplentes e que foram fechados por este correspondente bancário. Ao rever a avaliação dos imóveis, com avaliadores que são funcionários da Caixa, o banco suspeitou que pudesse haver alguma irregularidade.

Entre os 18 mandados de busca e apreensão cumpridos nesta quarta-feira (8), a Polícia Federal foi até a casa de pessoas usadas como vendedores laranjas nas transações. Segundo os investigadores, eram, em geral, pessoas de baixa renda e que não demonstravam ter recebido o montante de recursos que os registros apontam. Também foi observado que muitos deles tinham algum grau de parentesco entre si. Em um cruzamento dos dados das contas dos laranjas com as do correspondente bancário, a Polícia Federal encontrou vários depósitos em valores semelhantes aos das transações, que foram parar na conta do fraudador.

“Geralmente, quando há o uso de laranjas em algum esquema. Os fraudadores sacam o dinheiro na boca do caixa do Banco e depositam na conta de quem vai se beneficiar, para despistar os rastros. No entanto, a sensação de impunidade era tanta, que encontramos até transações diretas entre os laranjas e o correspondente. É uma prática muito estranha ao que deveria acontecer normalmente”, conta.

 

PRISÃO É DECISÃO INÉDITA NO ESTADO

O mandado de prisão do correspondente financeiro foi decretado pelo juiz Vitor Berger da 1ª Vara Federal Criminal. Na decisão, o magistrado considerou que o acusado, por já ter causado um prejuízo de R$ 5 milhões, representa risco à sociedade. O entendimento costuma ser associado a casos em que suspeitos de homicídios e estupros ainda estão sendo investigados, para que eles sejam presos durante o andamento da investigação. É a primeira vez que um juiz se utiliza da prerrogativa em um crime de “colarinho branco” no Espírito Santo.

LOTES E APARTAMENTOS NA GRANDE VITÓRIA FORAM UTILIZADOS NA FRAUDE

Materiais apreendidos durante a operação
Materiais apreendidos durante a operação
Foto: Divulgação/Polícia Federal

De acordo com a investigação da Polícia Federal, a diferença entre os valores reais dos imóveis e dos valores aprovados em financiamentos variaram, no total em R$ 4,9 milhões. O modus operandi do correspondente bancário consistia em comprar os imóveis meses antes de envolvê-los nas fraudes.

Entre os casos identificados, há a transação de um apartamento em Vila Velha comprado por R$ 165 mil e financiado por R$ 880 mil. Em um outro contrato, um terreno no bairro Retiro do Congo foi adquirido por R$ 195 mil e financiado por R$ 565 mil. O intervalo entre a compra e a venda dos imóveis, se dava entre três a quatro meses.

“São imóveis em toda a Grande Vitória. O que nos parece é que pouco importava a localização ou o estado do imóvel. O que foi comprado eram papéis, que pudessem ser utilizados na fraudes. Além de superfaturar, também foi identificado casos em que documentos e escrituras foram falsificados para agilizar os financiamentos. O correspondente, mesmo tendo estudado só até a 4ª série, era o mentor do esquema e quem comandava as ações”, disse Helmer.

 

 

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