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"Sessentões" invadem o mercado de trabalho no Espírito Santo

Mais de 157 mil pessoas com mais de 60 trabalham no Estado

O aumento da longevidade e a necessidade de ampliar a renda na terceira idade têm feito idosos prolongarem a atuação no mercado de trabalho. Essa participação pode aumentar ainda mais com a alteração da reforma da Previdência, que vai fazer com que as pessoas precisem trabalhar mais tempo para se aposentar.

Algumas empresas, aliás, têm preferido contratar os mais velhos para aproveitar a experiência e a qualificação que eles têm por causa das dificuldades de achar jovens com as mesmas características profissionais.

Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) apontam que o número de pessoas acima de 60 anos na força de trabalho capixaba têm crescido tanto em números totais quanto percentuais em relação à força de trabalho.

No primeiro trimestre deste ano eram 157 mil trabalhadores acima de 60 anos em atividade no Espírito Santo, 8,36% de um total de 1.878.000 trabalhadores no Estado, conforme mostra a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua) trimestral.

No quarto trimestre de 2013, por exemplo, eram 97 mil pessoas acima de 60 anos no mercado de trabalho, 5,38% do total.

“A palavra que move o mercado é resultado. Quanto mais tempo de mercado, teoricamente, mais chance o profissional tem de ter se qualificado”, disse a psicóloga e diretora da Psico Store, Martha Zouain, justificando o aumento de pessoas com idade mais avançada nos postos de trabalho.

Dentre as áreas que mais contratam esses profissionais estão os setores de serviços e o varejo, em geral, já que os mais velhos são bem vistos para trabalhar com atendimento. “Há também um nível mais qualificado de especialistas, sobretudo engenheiros, que têm um bom mercado em trabalhos com tempo predeterminado em contrato e consultorias”, acrescentou.

Carla Carvalho, assessora de Carreira da Catho, destaca os cargos de gestão ocupados por empregados que estão na faixa etária dos 60 anos. “É possível afirmar que os anos de experiência são bastante valorizados por algumas empresas e isso faz com que muitas delas procurem profissionais com mais idade para ocupar, principalmente, cargos de gestão. O comprometimento e a habilidade para lidar melhor com frustrações, por exemplo, são pontos muito valorizados em colaboradores mais experientes”, avaliou.

“Vale ressaltar também que o idoso de hoje mudou. Em decorrência do aumento da expectativa de vida, eles continuam ativos e com disposição para trabalhar, seja pela questão financeira ou porque querem ter uma ocupação fixa”, completou a assessora de Carreira.

Qualificação

A situação do mercado, porém, não absorve todas as pessoas com esse perfil. Para que a contratação seja algo possível, os especialistas sugerem que os interessados continuem se capacitando e que dediquem um tempo para entender as novas tecnologias.

“A dica de ouro é continuar se especializando. Manter-se atualizado técnica e comportamentalmente vai permitir que continue sendo contributivo no ambiente em que estiver inserido. Outra questão importante é a sua autoimagem. Estar aposentado ou ser mais velho não o desqualifica para concorrer a nenhuma vaga, mas, a sua energia e comportamentos, sim. Ver-se como alguém que realmente pode contribuir”, destacou Martha.

“O profissional pode se preparar tendo em mente que tudo se modifica rapidamente quando falamos sobre áreas, tecnologias, processos e mercado de trabalho, e que ele terá que se manter ligado nessas mudanças. Um profissional que se atualiza possui uma boa adaptabilidade e se mostra flexível e aberto ao novo, com toda certeza, terá mais chances de voltar ao mercado”, completou Carla.

"Ainda tenho muito a ensinar", diz educadora de 72 anos

Quem vê a vitalidade de Maria da Penha Rodrigues Britto pode ter dificuldades de acreditar que ela tem 72 anos e tantas experiências na área da Educação. Logo aos 20 anos, Penha, como gosta de ser chamada, começou a dar aulas, substituindo professoras em Aracruz, Norte do Estado. Hoje, 52 anos depois, a educadora diz que está longe de parar e que vai começar um novo curso: neurociência.

“Acho que tenho uma missão. Acredito naquilo que faço e gosto de contar minhas histórias. Gosto de inovar, de estar atualizada. Parar, nem pensar. Ainda tenho muito a ensinar”, conta Penha que também deu aula para índios no município de Aracruz e fez mestrado em Cuba.

O começo tão precoce fez com que Penha vivesse uma situação inusitada: foi colega de trabalho de sua mãe. “Foi uma época muito curiosa. Minha mãe dando aula e eu também. E ela sempre foi um espelho. Me ensinou várias estratégias para que eu usasse na sala de aula”, lembra agradecida.

Aos 72 anos, Maria da Penha Rodrigues Britto ainda dá aula: "Acho que tenho uma missão. Acredito naquilo que faço e gosto de contar minhas histórias. Gosto de inovar, de estar atualizada. Parar, nem pensar"
Aos 72 anos, Maria da Penha Rodrigues Britto ainda dá aula: "Acho que tenho uma missão. Acredito naquilo que faço e gosto de contar minhas histórias. Gosto de inovar, de estar atualizada. Parar, nem pensar"
Foto: Bernardo Coutinho

O tempo passou e Penha veio para Vitória, onde trabalhou com a alfabetização de adultos, e investiu suas economias na abertura de uma escola: a Primavera-Nobel, da qual se desligou após a morte do marido, há 10 anos.

“Depois que fiquei viúva parei para olhar mais para minha família, mas o período que tive minha escola foi muito bom. Hoje vejo ex-alunos que são médicos, advogados, veterinários. Sempre que encontro com eles, ninguém reclama. São só elogios”, recorda a ex-diretora.

Um dos ex-alunos seguiu seu rumo pelo caminho da educação e convidou Penha para ser coordenadora da escola que ele havia aberto. O aluno em questão é Frank Barcelos, proprietário da Escola Canadense em Vitória e Vila Velha. “Países como Canadá e Finlândia valorizam muito os professores e suas experiências, coisa que o Brasil ainda não faz. Contratei a Penha por conhecer a experiência dela e ela nos ajudou muito”, disse Frank.

O proprietário da escola disse ainda que utiliza o trabalho de outros aposentados para fazer o controle de qualidade da escola e o treinamento de funcionários.

“Fiquei praticamente três anos com o Frank. Na escola trabalhei com jovens de 23 a 30 anos e foi uma troca muito boa. Elas me ensinavam as tecnologias e eu passava minhas experiências. Fizemos um belo trabalho e sei que aprendi tanto quanto ensinei”, lembra.

“Sei que ainda tenho dificuldades. Para mim, a tecnologia é meio complicada. Muitas inovações foram feitas, mas a empatia, o amor, a dedicação e o respeito não mudam. É só a gente conseguir se reinventar um pouquinho que tudo dá certo”, fala Penha entusiasmada ao contar que pensa em se tornar também consultora.

Reforma vai ampliar vida profissional

Se nos últimos anos o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) já registrou um crescimento de profissionais da terceira idade no mercado de trabalho, nos próximos anos o aumento deve ser ainda maior. Isso porque, com a reforma da Previdência, as pessoas deverão trabalhar mais tempo para se aposentar – a idade mínima para homens ficou estabelecida em 65 anos e 62 para as mulheres.

Além da questão da idade mínima, há também um mínimo de 40 anos de contribuição para os homens e 35 anos para mulheres para que os aposentados possam receber 100% do benefício.

Para o contador e professor de Direito da Faculdade Católica de Vitória Renato Ferron, por conta dessas mudanças, quem já atingiu os requisitos para se aposentar deve fazer o pedido do benefício o quanto antes. “Se a pessoa não fizer o pedido agora, pode ter a renda diminuída, pode ter que trabalhar por mais tempo. Então, ainda que siga trabalhando, é interessante garantir o benefício”, explicou.

Ferron destacou ainda que muitos dos aposentados precisam continuar trabalhando por entrar numa fase de perda de receitas e benefícios (redução do salário, perda de auxílio-alimentação, plano de saúde, entre outros), e aumento das despesas (com remédios e para repor os benefícios perdidos). Ele lembrou ainda que muitos que precisam trabalhar recorrem ao mercado informal.

“Para equilibrar essa conta, é muito importante que as pessoas façam uma poupança ou invistam numa previdência privada. Assim, quando chegar o momento, o idoso poderá contar com o benefício do INSS e com o dinheiro economizado. Assim, não precisará seguir no mercado”, orientou.

Prós e possíveis contras para contratar idosos

Prós

Maturidade para lidar com situações diversas, pela experiência adquirida ao longo da vida e de outros empregos.

Resiliência para lidar com as questões do mundo atual, já que passaram por várias crises ao longo dos anos.

Idosos com mais de 65 anos têm direito a transporte gratuito e não precisam de passagem.

Contras

Podem apresentar perda de energia e entusiasmo, já que a idade influência nessas questões.

Mudanças podem não ser bem recebidas e fazer com que a pessoa se feche, atrapalhando o rendimento do grupo.

Alguns aposentados podem não ter acompanhado as evoluções tecnológicas em determinadas áreas.

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