Notícia

Fotógrafo morto no Afeganistão registrava conflito no país há 15 anos

Shah Marai, diretor de fotografia da sucursal afegã da 'France-Presse' e considerado um dos pilares da agência no país, está entre os jornalistas mortos em um duplo atentado suicida em Cabul nesta segunda-feira; ele deixa mulher e seis filhos

Familiares e amigos participam do funeral do fotojornalista da agência de notícias France-Presse (AFP), Shah Marai, em Cabul, no Afeganistão, nesta segunda-feira, 30. Shah Marai, diretor do departamento de fotografia do escritório da agência France Press (AFP) em Cabul, morreu nesta segunda- feira, 30, em um duplo ataque a bomba que deixou outros 24 mortos e 49 feridos no Afeganistão. De acordo com forças de segurança, um homem-bomba estava disfarçado de repórter e teria esperado os jornalistas se reunirem para explodir. Marai deixa a mulher e 6 filhos
Familiares e amigos participam do funeral do fotojornalista da agência de notícias France-Presse (AFP), Shah Marai, em Cabul, no Afeganistão, nesta segunda-feira, 30. Shah Marai, diretor do departamento de fotografia do escritório da agência France Press (AFP) em Cabul, morreu nesta segunda- feira, 30, em um duplo ataque a bomba que deixou outros 24 mortos e 49 feridos no Afeganistão. De acordo com forças de segurança, um homem-bomba estava disfarçado de repórter e teria esperado os jornalistas se reunirem para explodir. Marai deixa a mulher e 6 filhos
Foto: Rahmat Gul

Shah Marai dizia ter visto tantos cadáveres desde que começou a trabalhar para a AFP que não dormia mais à noite. O diretor de fotografia da France-Presse no Afeganistão morreu nesta segunda-feira, 30, em um duplo atentado suicida em Cabul.

Sua vida e seu epílogo ilustram tristemente os tormentos de seu país. Com 48 anos, Shah Marai começou sua carreira na agência em 1996 como motorista. E foi porque escutava música ao volante que o Taleban, então no poder, o espancou certa vez. Dez anos depois, ainda tinha sequelas, antes de ser operado no exterior em 2012.

Leia também

Shah Marai obteve sua vingança contra os "estudantes da religião" ao anunciar, em 7 de outubro de 2001 para a AFP, os primeiros bombardeios americanos no Afeganistão, poucas semanas depois dos ataques de 11 de setembro. O correspondente da AFP foi então preso pelos Taleban.

Ele relatou em um blog que tirou "seis fotos naquele dia, nenhuma a mais", em uma Cabul transformada em "cidade deserta".

Com o fim do reinado do Taleban, "tudo voltou a ser possível, até mesmo as coisas mais simples, como ir ao cabeleireiro para fazer a barba", contava Shah Marai, com o rosto sempre barbeado, que depois de começar a fotografar para a agência em 1998, tornou-se fotógrafo em tempo integral em 2002.

Era então a época de ouro do Afeganistão. A segurança era garantida em todo o país e a esperança renascia. Mas o Taleban, derrotados em combate, retomaram seus ataques em 2004. A princípio, os militares estrangeiros eram os principais alvos. Então, quando deixaram o país em 2014, foi a vez das forças de segurança afegãs. E, finalmente, os civis.

Em março de 2014, o jornalista Sardar Ahmad, outro pilar do escritório da AFP e um dos melhores amigos de Shah Marai, foi morto com sua esposa e dois de seus três filhos em um hotel muito seguro de Cabul. O Taleban reivindicou o ataque. Shah Marai sentiu fortemente o golpe, mas continuou seu trabalho.

"Eu aprendi fotografia sozinho, então estou sempre tentando melhorar. E agora minhas fotos são publicadas em todo o mundo", ressaltava. "Minhas melhores lembranças são quando venci a concorrência por ter a melhor foto do presidente ou de outra pessoa, ou do local de um ataque a bomba. Gosto de ser o primeiro", dizia sobre sua profissão.

Noites em branco

Em 2015, o grupo Estado Islâmico se instalou no Afeganistão, multiplicando os ataques. O clima de medo era latente. O ar se tornou irrespirável. As imagens poderosas de Marai contam a história da guerra, terror e sangue.

Em meados de 2016, em viagem a Paris, descreveu "as noites sem dormir", passadas em branco fumando. Seu pânico e suas dúvidas depois de testemunhar "tantos atentados e tantas vítimas". Seu desejo de deixar o país aumentava, como o de dezenas de milhares de outros afegãos antes dele.

Seu medo acima de tudo era de colocar sua família em perigo. Shah Marai deixa seis filhos. A mais nova nasceu há duas semanas. O escritório da AFP tinha acabado de celebrar o evento há poucos dias, desafiando o clima tenso em Cabul, onde outro ataque havia deixado 60 mortos naquela manhã.

Shah Marai, de grandes olhos azuis claros, piada sempre pronta e seu autoproclamado título de "campeão de pingue-pongue do escritório de Cabul", morreu nesta segunda-feira em um atentado suicida na capital.

Depois que um primeiro homem-bomba em uma motocicleta explodiu sua carga diante da sede do NDS - o serviço de inteligência do Afeganistão - um segundo homem-bomba, "equipado com uma câmera", se explodiu entre os repórteres, segundo as forças de segurança.

O ataque, que deixou pelo menos 25 mortos e 49 feridos, foi reivindicado pelo EI, que criticou os "apóstatas das forças de segurança e da mídia".

"Ele morreu fazendo seu trabalho, como fazia há duas décadas", homenageou o correspondente do New York Times em Cabul, Mujib Mashal.

"Estamos devastados pela morte de nosso fotógrafo Shah Marai, que testemunhava há mais de 15 anos a tragédia que atinge o país", declarou Michèle Léridon, diretora de Informação da AFP. "A direção da AFP saúda a coragem, profissionalismo e generosidade deste jornalista que cobriu dezenas de atentados antes de ser vítima da barbárie."

Ver comentários