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Afeganistão anuncia cessar-fogo com Talibã até 20 de junho

Decreto religioso visa controlar violência durante o fim do mês sagrado do Ramadã

Bandeira do Afeganistão
Bandeira do Afeganistão
Foto: Pixabay

O presidente afegão Ashraf Ghani anunciou nesta quinta-feira pela primeira vez um cessar-fogo sem pré-condições com o Talibã, coincidindo com o fim do mês de jejum da religião muçulmana, o Ramadã, mas excluiu outros grupos militantes como o Estado Islâmico. A decisão foi tomada após reunião de clérigos islâmicos de todo o país na semana passada, quando foi declarada uma "fatwa" (decreto religioso) contra atentados suicidas.

Os clérigos também recomendaram um cessar-fogo com o Talibã, que está tentando restaurar a rígida lei islâmica após sua derrubada do poder em 2001, e Ghani apoiou a recomendação, anunciando que irá abaixar as armas até o dia 20 de junho. O feriado de Eid al-Fitr, que encerra o Ramadã, está previsto para o próximo dia 15. O presidente do Afeganistão já pediu cessar-fogos com o Taliban anteriormente, mas essa é a primeira oferta sem pré-condições desde que foi eleito em 2014.

"As forças de defesa afegãs interromperão as operações militares contra os talibãs, mas continuarão a combater o Isis (como também é conhecido o EI) e outros grupos terroristas estrangeiros. O cessar-fogo é uma oportunidade para o Talibã introjetar que sua campanha violenta não está ganhando mentes e corações", disse o chefe de Estado em mensagem no Twitter, após pronunciamento televisionado. "É uma história de amor unilateral", disse ele.

As forças americanas em solo afegão disseram que vão cumprir a decisão, mas a trégua não incluiria suspensão dos esforços dos EUA contra o terrorismo do Estado Islâmico e da al-Qaeda:

"Vamos aderir aos desejos do Afeganistão para que o país aproveite um final pacífico do mês sagrado islâmico do Ramadã, e apoiar a busca pelo fim do conflito", disse em comunicado o general John Nicholson, comandante das Forças dos EUA no Afeganistão e do Apoio Resoluto liderado pela aliança militar da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan).

O secretário-geral da Otan, Jens Stoltenberg, acolheu a decisão afegã, e pediu para os combatentes suspenderem as armas para negociar um acordo de paz:

"O anúncio de cessar-fogo mostra a seriedade do presidente Ghani e do governo afegão. Peço ao Talibã que se una ao cessar-fogo", disse ele em comunicado. "O Talibã não vencerá no campo de batalha. A única forma para atingirem uma solução é sentar à mesa de negociação".

O ex-general do Exército afegão, Atiqullah Amarkhel, disse que a trégua daria uma chance para o Talibã se reorganizar. Ele lançou dúvidas sobre a possibilidade do Talibã abaixar as armas durante o mês do Ramadã, período em que houve uma intensificação de ataques.

— Na perspectiva militar, não é um bom movimento — disse ele à Reuters.

TENTATIVAS DO GOVERNO AFEGÃO

Ghani ofereceu em fevereiro um reconhecimento do Talibã como um grupo político legítimo em um processo que ele disse poder levar a negociações para acabar com mais de 16 anos de guerra. O presidente afegão propôs um cessar-fogo e a libertação de prisioneiros entre as opções de reconciliação, incluindo novas eleições com a participação dos talibãs e uma revisão constitucional em um pacto com o grupo radical para acabar com o conflito que, apenas no ano passado, matou ou feriu mais de 10 mil civis.

Em agosto passado, o presidente americano revelou uma estratégia militar mais contundente para o Afeganistão, incluindo um aumento de bombardeios aéreros destinados a forçar os talibãs a negociar.

As forças de segurança do governo apontam que o impacto foi relevante, mas os talibãs percorrem grandes faixas do território e, com a redução do número de soldados americanos para 15.600, ante um contingente de 140 mil em 2014, há pouca esperança de vitória definitiva.

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