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Chefe de gabinete dos Kirchners diz que recebeu caixa 2 para campanhas

Juan Manuel Abal Medina, mencionado em cadernos sobre propinas escrito por motorista, sustenta que doações de empresas eram voluntárias e sem contrapartida

Cristina Kirchner
Cristina Kirchner
Foto: Agustin Marcarian/ Reuters

Juan Manuel Abal Medina, ex-chefe de gabinete durante a presidência dos Kirchners, reconheceu nesta quinta-feira à Justiça que recebeu dinheiro de empresários para campanha eleitoral. Ele admitiu o recebimento de dinheiro não declarado em carta enviada ao juiz federal Claudio Bonadio, que investiga o escândalo dos “diários da corrupção”.

Abal Medina é mencionado nos cadernos nos quais Oscar Centeno, que registrou as viagens nas quais recolheu dinheiro de empresários – que prestavam serviços para o governo na área de infraestrutura. Ele diz ter levado parte do dinheiro para as casas de Néstor e Cristina Kirchner, que não comentou o caso.

Abal Medina afirmou que o dinheiro recebido era destinado ao financiamento das campanhas eleitorais de Daniel Scioli , Daniel Filmus e Martín Insaurralde. Tanto Filmus quanto Insaurralde foram candidatos às eleições legislativas de 2013.

O ex-chefe de gabinete também apontou Roberto Baratta – número 2 do Ministério de Planejamento – como responsável por juntar o dinheiro para as campanhas.

Abal Medina afirmou que, para ele, essas contribuições eram voluntárias, não recebidas por meio de coerção. Ele também disse que não sabia quem eram os empresários que faziam os pagamentos e negou ter vínculos com eles.

Bonadio pediu nesta quinta-feira à receita federal que analise todas as empresas que admitiram ter pago subornos à equipe do então ministro do Planejamento, Julio de Vido, disseram fontes ao jornal argentino La Nación.

Isso significa que todas as empresas suspeitas, ou as que confessaram ter dinheiro não declarado, enfrentarão acusações de evasão fiscal, com multas que podem chegar a 70% do valor dos subornos pagos. O objetivo do juiz é descobrir qual a origem do dinheiro que foi entregue a Baratta e outros funcionários do Ministério de Planejamento, além de verificar qual a situação financeira dessas empresas quando fizeram o pagamentos de propina. O magistrado quer saber se elas estavam realmente em dificuldades, como argumentaram os empresários ao firmar acordo de delação premiada.

Bonadio pretende que os empresários e os ex-funcionários envolvidos no escândalo prestem contas não apenas à Justiça, mas também ao Fisco argentino, em razão das “saídas não registradas” em seus balanços. Além dos empresários, contadores e auditores também devem detalhar suas contas, tanto na Argentina quanto nos EUA, por certificar balanços que foram manipulados.

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Bonadio também indiciou e convocou para prestar declarações no caso das propinas o diretor institucional do Grupo Techint, Luis Betnaza. Apesar de o empresário ter se apresentado voluntariamente após Héctor Zabaleta – outro diretor da empresa – assinar um acordo de delação e ser libertado, o juiz considerou que ele deveria ser citado como envolvido, não apenas como testemunha. A Techint é uma das maiores empresas argentinas, envolvida em construção e energia, entre outros setores. Segundo fontes judiciais, Betnaza de reconhecerá ter pago subornos a funcionários dos governos do casal Kirchner.

O empresário Carlos Wagner vai declarar nesta sexta-feira perante a Justiça com a intenção de conseguir um acordo de delação premiada e sair da prisão preventiva. Wagner presidiu a Câmara Argentina da Construção e foi o empresário construtor preferido de Cristina Kirchner. Ganhou obras milionárias através da construtora Esuco.

Ele aparece nas delações da Lava Jato brasileira como facilitador entre a construtora Odebrecht e o governo argentino. Wagner aparece também no caso Panamá Papers e fez sociedades com a IECSA do primo do presidente argentino, Mauricio Macri, Ángelo Calcaterra.

Ainda nesta quinta-feira, o ex-juiz federal Norberto Oyarbide se mostrou preocupado e, entre lágrimas, disse temer por sua vida. Ele pediu que seu depoimento no caso dos cadernos das propinas seja ampliado e acusou o ex-presidente Néstor Kirchner de envolvimento no escândalo.

Em entrevista à Radio 10, Oyarbide acusou Jaime Stiuso e Javier Fernández – ex-funcionários de Kirchner – de o terem “agarrado pelo cangote” para livrar o casal Kirchner de um processo por enriquecimento ilícito. “Eu os livrei com base nas coisas que me disseram. Foi nesse mesmo fim de semana que ele (Néstor Kirchner) morreu”, disse Oyarbide. Ele afirmou que não havia feito essa revelação antes, por isso pedirá a Bonadio que amplie seu depoimento.

“Tenho medo que me matem. Espero que o presidente (Macri) esteja ouvindo”, disse o ex-juiz à Rádio 10. “Não suporto mais tudo isso, estou sozinho. Por Deus, eu quero que Bonadio mande alguém me buscar em casa e me levar de volta. Eu faço as declarações e assino tudo”, declarou o ex-juiz Oyarbide.

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