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A arma de guerra mais poderosa na Líbia: o Facebook

Milícias rivais usam a rede social para ameaçar adversários, compartilhar táticas de combate e espalhar desinformação; alvos acabam mortos, presos ou exilados

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Foto: Johannes Berg

Quando mais um confronto entre milícias rivais tomou de assalto a capital da Líbia, Trípoli, sacudindo o frágil governo apoiado pelas Nações Unidas, alguns dos combatentes pegaram rifles e lançadores de foguetes e foram para as ruas.

Outros preferiram entrar no Facebook.

Enquanto os foguetes choviam sobre a cidade —atingindo um hotel bastante popular entre os turistas estrangeiros e forçando o a aeroporto a fechar —, 400 presos fugiram de uma cadeia.

Mas uma batalha paralela se deserolava na internet. Em suas páginas no Facebook, os grupos rivais se gabavam de feitos, faziam provocações e ameaças rrepiantes — uma delas prometendo "purificar" a Líbia de seus oponentes.

Alguns desses "guerreiros do teclado", como os militantes do Facebook são chamados na Líbia, postavam notícias falsas ou comentários cheios de ódio. Outros publicavam táticas de batalha. Num fórum de discussão, na última quinta-feira, uma usuária postou mapas e coordenadas para ajudar a direcionar as bombas de sua milícia para uma base aérea adversária.

"Do sinal de trânsito no estádio Wadi al Rabi, são exatamente 18 quilômetros para a pista de decolagem, o que significa que ela pode ser atingida com artilharia de 130 milímetros", escreveu a usuária (codinome Narjis Ly) no Facebook. "As coordenadas estão anexadas na foto abaixo".

GUERRA NAS RUAS E NOS CELULARES

No destaque, a cidade de Sabratha, no norte da Líbia
No destaque, a cidade de Sabratha, no norte da Líbia
Foto: Maps/Reprodução

As redes sociais têm descomunal influência na Líbia, um país dividido por uma pletora de grupos armados que brigam por territórios e legitimidade. Eles lutam pelo domínio tanto nas ruas quanto nos smartphones.

Mas o Facebook, de longe a rede social mais popular, não apenas espelha o caos — também o multiplica.

As milícias usam o Facebook para encontrar adversários e críticos, alguns dos quais acabaram detidos, assassinados ou forçados ao exílio, denunciam grupos defensores de direitos humanos e ativistas líbios.

Comandantes cheios de arrogância se vangloriam de seus feitos nos campos de batalha e de férias em lugares chiques, ou amealham seguidores ao semear a discórdia e espalhar o ódio racial. Documentos forjados circulam livremente on-line, tentando, na maioria dos casos, minar a confiança das pessoas nas poucas instituições líbias que ainda sobrevivem ao caos, como Banco Central.

FACEBOOK NA BERLINDA

O Facebook atualmente está sob escrutínio internacional no mundo inteiro, devido à forma como sua plataforma amplifica a manipulação política e a violência.

Em julho, a empresa americana começou a remover a desinformação de suas páginas em resposta a episódios em que rumores postados levaram a atos de violência física contra minorias étnicas em países como Índia, Mianmar e Sri Lanka.

Nesta quarta-feira, a diretora de operações do Facebook, Sheryl Sandberg, vai defender os esforços da empresa para limitar a desinformação e os discursos de ódio num depoimento diante da Comissão de Inteligência do Senado, em Washington. Também dará seu testemunho o diretor executivo e fundador do Twitter, Jack Dorsey.

O Facebook insiste que monitora assiduamente sua plataforma na Líbia, empregando uma equipe de revisores de conteúdo fluentes em árabe. Diz estar desenvolvendo funções de inteligência artificial para prevenir a publicação de conteúdo proibido, e tem parcerias com grupos de direitos humanos para entender melhor a situação no país.

— Também não permitimos que organizações e pesoas envolvidas em tráfico humano e violência organizada mantenham presença no Facebook — afirma uma porta-voz.

Ainda assim, as atividades ilegais são abundantes no Facebook da Líbia.

O "New York Times" encontrou provas de armas militares estavam sendo vendidas abertamente pela rede, embora as políticas do Facebook expressamente proíbam esse tipo de comércio. Traficantes de pessoas deixam claro que são bem-sucedidos ao ajudar imigrantes ilegais a chegar à Europa pelo mar, e usam suas páginas para fazer mais negócios. E praticamente todo grupo armado na Líbia (incluindo seus centros de detenção) tem uma página no Facebook.

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A rede social tirou do ar várias páginas e posts após o "Times" mostrá-las à porta-voz no último domingo. Mas algumas continuaram lá.

"A guerra mais suja e perigosa está sendo travada nas mídias sociais e outras plataformas", disse Mahmund Shamman, ex-ministro da Informação, na semana passada, enquanto as milícias se enfrentavam nos subúrbios de Trípoli. "Mente-se, falsifica-se, misturam-se fatos, publicam-se informações desnorteantes... Todo mundo tem seu exército eletrônico, sem exceção. É a guerra mais mortal".

As declarações de Shamman foram feitas, naturalmente, no Facebook.

UNIÃO CONTRA KADAFI

A rede social ajudou os líbios a se unirem em 2011 para depor o ditador Muammar Kadafi, que por décadas proibira as pessoas de comprarem máquinas de fax ou mesmo impressoras sem autorização do governo.

Mas mesmo então o Facebook já era alvo de abusos.

Uma campanha de ódio direcionada a suspeitos de apoiarem Kadafi, que foi intensificada por posts inflamados, levou ao linchamento e à prisão de vários imigrantes africanos, e fez com que todos os 30 mil moradores de uma cidade chamada Tuarga fugissem para salvar suas vidas. Hoje eles vivem em campos de refugiados.

— A reverberação das mídias sociais foi fatal para eles — conta Fred Abrahams, um diretor associado na Human Rights Watch.

A influência do Facebook na Líbia é sem dúvida resultado da ruína do país. Não há autoridade central, e a maioria de suas emissoras de TV e jornais são ligados a grupos armados, facções políticas ou potências estrangeiras como o Qatar e os Emirados Árabes Unidos.

USUÁRIOS SÃO 181 MILHÕES NA REGIÃO

Certa de 181 milhões de pessoas usam o Facebook todo mês no Norte da África e no Oriente Médio, diz a porta-voz da empresa americana. Para as milícias líbias, esse alcance o torna uma poderosa ferramenta de propaganda e repressão.

Na cidade de Bengazi, que é dominada pelo general Khalifa Hifter, sua milícia, o Exército Nacional Líbio, tem uma unidade on-line que perscruta o Facebook em busca de sinais de dissidentes ou muçulmanos. Alguns já foram presos, outros forçados a fugir da cidade, segundo grupos de direitos humanos.

Há pressões similares em Trípoli, onde a Força Especial de Dissuasão, mílicia liderada por um religioso conservador, Abdulrauf Kara, patrulha o Facebook com um fervor que lembra a antiga e cruel polícia religiosa da Arábia Saudita.

No ano passado, a milícia de Kara prendeu 20 participantes de uma versão da Comic Con (conferência sobre quadrinhos) na Líbia. Os militantes se declararam ofendidos por fotos de jovens líbios no Facebook vestidos como Homem-Aranha ou o Coringa. Alguns contaram ter sido espancados na prisão.

Em agosto de 2017, uma escritora chamada Leila Moghrabi foi atacada no Facebook depois que publicou uma coletânea de contos e poemas. "Eu desejo que você seja morta, não presa", dizia um dos comentários. Três clérigos muçulmanos denunciaram a escritora em severos sermões que circularam na rede social; depois ela soube que a mílicia de Kara estava vindo prendê-la.

Leila entrou num carro com seu marido e filhos e dirigiu para a Tunísia, onde vivem até hoje no exílio.

— Nós literalmente deixamos tudo para trás.

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