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Dinamarca propõe enviar 'indesejáveis' a ilhota abandonada

Em campanha eleitoral, governo de centro-direita acena à extrema direita com medida xenófoba

Palácio de Christiansborg, sede do Folketing, o Parlamento dinamarquês
Palácio de Christiansborg, sede do Folketing, o Parlamento dinamarquês
Foto: Reprodução

A Dinamarca entrou de cabeça na campanha eleitoral. O governo de coalizão de centro-direita (liberais, conservadores e moderados), com o apoio da extrema direita xenófoba do Partido Popular Dinamarquês (PPD), propôs isolar, entre outros, os imigrantes a quem asilo foi negado e não podem ser deportados para o seu país de origem.

O exílio está programado para começar em 2021 e uma prisão abandonada na pequena ilha de Lindholm, com sete hectares (70 mil metros quadrados), será o novo destino para até 125 estrangeiros, entre os quais também haverá criminosos que cumpriram pena. Com este gesto, o executivo dinamarquês continua seu caminho em direção às eleições de junho de 2019, cheias de piscadelas às forças mais reacionárias.

“A proposta está focada em manter a lei e a ordem”, disse o governo em um comunicado adotando o discurso dos escandinavos mais extremistas: a lei e a ordem eram exatamente o slogan eleitoral dos democratas neonazistas suecos nas últimas eleições, nas quais se firmaram como a terceira força política, embora eles ainda lutem para ganhar uma posição no governo. A euforia do PPD foi mais longe e, junto com um vídeo postado no Twitter que mostra um homem estrangeiro chegando de barco a uma ilha deserta, disse: “Criminosos condenados NÃO TÊM NADA PARA FAZER NA DINAMARCA. Vamos transferi-los para a ilha de Lindholm, na baía de Stege, onde eles serão forçados a ficar no novo centro de expulsão à noite, e haverá polícia em todas as horas”.

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Embora o Folketing (Parlamento dinamarquês) deva ainda dar sinal verde à proposta numa sessão que ainda não tem data marcada, os planos para Lindholm já foram incluídos nos orçamentos de 2019, ano eleitoral na Dinamarca e também em Bruxelas, onde as forças populistas eurofóbicas e xenófobas da Aliança das Nações e da Liberdade (ENF) estão ganhando peso e até superaram a Esquerda Unitária Europeia e a Esquerda Nórdica Verde (GUE/NGL), de acordo com a última pesquisa do POLITICO.

Também em 2019 a pequena ilhota será esvaziada para dar lugar às obras de reforma do antigo centro penitenciário. Atualmente não existem residentes permanentes e a prisão foi transformada num laboratório de investigação da Universidade Técnica da Dinamarca (DTU). Embora a medida dependa da palavra final dos 179 deputados, os promotores estão “otimistas”, explica um funcionário do Ministério da Imigração que não quer ser citado. E ele admite que, embora essas quatro forças tenham concordado com a proposta, “ainda há aspectos técnicos” nos quais eles diferem e poderiam derrubá-la.

Se aprovado o projeto de lei, a ilha de Lindholm vai se tornar lar de 125 ex-detentos estrangeiros e requerentes de asilo cujos pedidos foram rejeitados ou que tenham sido condenados por drogas ou por crimes com o uso de armas. "Eles não serão detidos", diz o governo, apesar de haver presença policial no território. Pode-se chegar do continente à ilha em 20 minutos, num trajeto feito por uma balsa que deixaria de funcionar à noite. "Com o novo centro na ilha de Lindholm, vamos enviar um sinal de que (esses estrangeiros) não têm um futuro na Dinamarca", disse a ministra da Imigração Iner Stojberg, doe Venstre, o partido liberal do primeiro-ministro Lars Løkke Rasmussen.

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Apesar do projeto controverso, o país já tem dois centros do tipo: o Kærshovedgård, no centro da península da Jutlândia, e o Sjælsmark, ao norte de Copenhague, a capital de cerca de seis milhões de habitantes . A particularidade de Lindholm é justamente por se tratar de uma ilha, de modo que as comunicações e a chegada de provisões serão complicadas, e não haverá integração social de seus potenciais moradores com os habitantes fora dali.

As autoridades têm fechado mais e mais as portas para estrangeiros na Dinamarca, um dos países da UE com mais obstáculos à imigração. Os índices de chegadas e pedidos de asilo diminuíram consideravelmente: de 10.722 em 2016 — no auge da onda migratória na União Europeia com centenas de milhares de imigrantes em fuga especialmente dos conflitos no Iraque e na Síria — para apenas 1.793 até agora neste ano, segundo dados oficiais. Além disso, a Dinamarca continuará sem participar do espaço de Schengen até maio de 2019 e, por isso, vai manter seu controle de fronteiras, especialmente com a Alemanha.

O governo dinamarquês explica que, com a medida, terá mais informações sobre quem está no interior do país e informa ainda que a proposta é coerente com suas políticas anti-imigração. Vários deputados da oposição têm criticado publicamente a medida, como Morten Østergaard, do Partido Social Liberal, que acredita que o projeto é um "gesto simbólico".

Além disso, o Executivo limitará o reagrupamento familiar de imigrantes residentes no país. — Nós introduzimos um teto para o reagrupamento familiar. É fundamental que a Dinamarca não volte a uma situação como a de 2015, e um limite máximo para a reunificação familiar é um sinal claro de que há um teto para o número de famílias que a Dinamarca pode suportar — insistiu o ministro.

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