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Rússia alerta para 'banho de sangue' na Venezuela

Bloco europeu, que tentava facilitar diálogo no país, está dividido em relação a reconhecimento de Guaidó; México e Uruguai pedem que governo e oposição negociem

Bandeira da Venezuela
Bandeira da Venezuela
Foto: Reprodução/Flickr

Rússia, Turquia e China, três dos principais aliados do presidente Nicolás Maduro, se pronunciaram nesta quinta-feira sobre o impasse político na Venezuela, criticando os governos que reconheceram o presidente da Assembleia Nacional do país, Juan Guaidó, como presidente interino. Enquanto isso, a União Europeia, que está dividida sobre o reconhecimento de Guaidó, divulgou uma nota em que pede um "processo político" que conduza a eleições "livres e críveis".

A Chancelaria russa atacou a ingerência externa nos assuntos internos de Caracas e alertou para a possibilidade de caos no país. "É uma via direta para a anarquia e ao banho de sangue", afirmou o Ministério das Relações Exteriores russo em comunicado que acusa os EUA, um dos 13 países que reconheceram Guaidó, de mostrar desprezo pelo direito internacional.

O Kremlin, por meio do porta-voz Dmitry Peskov, informou que não houve pedido de ajuda militar por parte da Venezuela. O governo russo criticou a "usurpação" do poder por parte de Guaidó e classificou Maduro como líder legítimo. Peskov destacou ser "muito perigoso" que autoridades americanas cogitem intervenção militar na Venezuela.

No mesmo tom, o governo chinês destacou que rechaça a interferência externa na Venezuela e que apoia os esforços do governo Maduro de proteger a soberania do país. A porta-voz da Chancelaria de Pequim, Hua Chunying, apelou às partes a encontrarem uma solução pacífica.

"Quero enfatizar que sanções externas ou interferência normalmente complicam ainda mais a situação e não ajudam a resolver os problemas reais", afirmou Chunying.

A China emprestou, na última década, mais de US$ 50 bilhões à Venezuela em troca da garantia de abastecimento de petróleo.

A Presidência turca, por sua vez, informou que o presidente Recep Tayyip Erdogan telefonou para Maduro e expressou seu apoio diante da pressão de Washington e da oposição interna.

"Irmão Maduro, mantenha a cabeça erguida. A Turquia está ao seu lado", ressaltou o chefe do Estado turco a Maduro na conversa, em declaração reproduzida pelo porta-voz de Ancara, Ibrahim Kalin, que compartilhou a hashtag #TodossomosMADURO.

O ministro das Relações Exteriores turco, Mevlut Cavusoglu, prestou solidariedade ao presidente venezuelano e questionou a declaração de Guaidó.

"Existe um presidente eleito, outra pessoa se declara presidente e alguns países ainda reconhecem isso. Isso pode levar ao caos", ressaltou Cavusoglu. "Nós somos contra o isolamento de países. Espero que a situação se resolva pacificamente".

NOTA DA UNIÃO EUROPEIA

Na noite de quarta-feira, a União Europeia divulgou uma nota em que apelou à realização de "eleições livres e críveis" na Venezuela, como parte de um "processo político". Embora não considere legítimo o novo mandato de Maduro, o bloco de 28 países não reconheceu Guaidó como presidente interino, e está dividido sobre que posição adotar em relação à proclamação do opositor.

Na nota, assinada pela chefe da diplomacia europeia, Federica Mogherini, exorta as autoridades do país a ouvir o povo venezuelano. "Em 23 de janeiro, o povo da Venezuela pediu maciçamente a democracia e a possibilidade de determinar de forma livre seu próprio destino. Estas vozes (das ruas) não podem ser ignoradas", ressaltou o comunicado, em que o bloco europeu ressalta ser necessário respeitar os direitos civis, a liberdade e a segurança de Juan Guaidó.

A autoproclamação de Guaidó como presidente interino ocorreu no momento em que os europeus tentam promover um grupo de contato internacional para buscar uma saída negociada para crise na Venezuela, por meio de um diálogo entre o governo e a oposição.

Na segunda-feira, Federica Mogherini afirmou que o grupo deveria começar a trabalhar "já nas próximas semanas, em fevereiro". Embaixadores europeus em Caracas se reuniram no último fim de semana com Maduro e com líderes da Assembleia Nacional, "com a intenção de manter todos os canais abertos".

A União Europeia e especificamente Portugal e Espanha são citados em uma nota conjunta divulgada pelos governos do México e do Uruguai na noite de quarta-feira sobre a situação na Venezuela. Na nota, os dois países, que não reconheceram Guaidó como presidente, pedem diálogo entre governo e oposição para uma saída pacífica para a crise venezuelana.

O ministro das Relações Exteriores da Espanha, Josep Borrel, disse que a realização de eleições livres como "única saída possível" para a crise venezuelana.

"Temos que evitar que as coisas piorem e isso, sem dúvida, requer um processo de intervenção para garantir a única saída possível, que são as eleições", disse Borrell à imprensa.

Já o presidente francês, Emmanuel Macron, disse por seu porta-voz que a França reconhecerá o presidente venezuelano que seja eleito para o cargo em um processo democrático.

GUTERRES E BACHELET PEDEM DIÁLOGO

O secretário-geral da ONU, Antonio Guterres, e a alta comissária da ONU para os Direitos Humanos, a ex-presidente chilena Michelle Bachelet, também pediram nesta quinta-feira um "diálogo" na Venezuela para evitar um "desastre" no país.

"O que esperamos é que o diálogo seja possível e evitar uma escalada que nos levaria a um tipo de conflito que poderia ser um desastre para o povo da Venezuela e para a região", afirmou Guterres, no Fórum Econômico de Davos.

"Esperamos que haja uma solução política pacífica, na qual um diálogo político nos permita chegar a uma resposta que deve ser pacífica", declarou Bachelet, que também está em Davos.

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