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Separatismo catalão contamina debate nas eleições gerais da Espanha

Durante a campanha para as eleições parlamentares deste domingo (28), as terceiras em menos de quatro anos, caminhos distintos convergiram para um só "entroncamento"

Separatismo catalão contamina debate nas eleições gerais da Espanha
Separatismo catalão contamina debate nas eleições gerais da Espanha
Foto: Pixabay

Se o brexit parasita a política britânica há três anos, a vida pública na Espanha também tem, há praticamente um ano, um monotema para chamar de seu: a relação a estabelecer com o movimento separatista da Catalunha.

Durante a campanha para as eleições parlamentares deste domingo (28), as terceiras em menos de quatro anos, caminhos distintos convergiram para um só "entroncamento".

A direita dizia que era preciso sufocar o independentismo, enquanto a esquerda defendia o diálogo, cuidando para não soar afável demais –"não é não", repetia nos últimos dias o premiê Pedro Sánchez (PSOE, socialista), fechando a porta à possibilidade de uma consulta popular sobre um secessionismo que polariza inclusive na sociedade catalã.

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O quase monopólio da questão territorial sobre o debate espanhol teve seus primeiros lances em junho de 2018, quando o governo conservador de Mariano Rajoy, caiu após a aprovação, no Legislativo, de uma moção de censura.

O gatilho foi a condenação do PP (Partido Popular), sigla de Rajoy, por um esquema de propina em contratos públicos que funcionou por três décadas, segundo a Justiça. Para derrubar o líder direitista, os votos dos partidos separatistas da Catalunha mostraram-se essenciais.

Por isso, quando Sánchez tomou o lugar do rival na chefia de governo e reabriu os canais de diálogo com os nacionalistas regionais, a agora oposição conservadora tinha a deixa para atacá-lo: o socialista estaria "pagando" o apoio à moção contra Rajoy com afagos à causa independentista. Daí para os epítetos de traidor da pátria e entreguista foi um pulo.

No começo de 2019, porém, o premiê deixou claro aos aliados catalães de ocasião que não encamparia a principal reivindicação deles: a realização de um plebiscito sobre o adeus da região à Espanha.

A resposta veio rápido: em fevereiro, os partidos locais se juntaram a PP e Cidadãos (centro) para rejeitar a proposta de orçamento anual de Sánchez, que, de mãos atadas, viu-se obrigado a convocar eleições antecipadas –o calendário só previa nova votação em 2020, ao fim da legislatura que assumiu quatro anos antes.

O revés serviu ao menos para que o socialista alardeasse suposta isenção diante da causa catalã. Mas não abrandou o ímpeto da direita em retratá-lo como artífice do dilaceramento espanhol, partidário de uma "nação de nações".

Não que o próprio Sánchez não tenha também adotado o discurso do medo. Ciente de que a ênfase na agenda social (reajuste do salário mínimo, indexação das aposentadorias pela inflação, aumento das bolsas universitárias...) trouxe de volta à órbita do PSOE eleitores desiludidos com gestões anteriores, o premiê brandiu o espantalho da ditadura de Francisco Franco (1936-75) – cujos restos mortais, aliás, ele mandou exumar de um mausoléu construído por quem o déspota perseguiu.

Para Sánchez, um governo tripartite com PP, Cidadãos e o novato Vox (este, o único radicalmente de direita na coalizão hipotética) despertaria os fantasmas ditatoriais.

Na sexta (26), em seu penúltimo comício, ele lembrou, a título de advertência, as eleições surpreendentes de Donald Trump e Jair Bolsonaro, além do susto que a ultradireita finlandesa deu há pouco nos social-democratas. "O perigo existe e é real."

Em meio ao fogo cruzado de paixões, mais do que de propostas, pouco espaço sobrou para a discussão econômica. Nessa rubrica, a Espanha hoje não vai mal: o déficit público deixou de ser o maior da Europa, e o país cresce a níveis mais saudáveis do que seus vizinhos.

Há, entretanto, sinais insistentes de desaceleração. O PIB subiu 3% em 2017 e 2,5% no ano passado. Para 2019, a previsão de alta da Comissão Europeia é de 2,1%, num viés de baixa que se manteria em 2020 (1,9%). Além disso, a taxa de desemprego estacionou na casa dos 15%, e explode para 32% no segmento da população que tem até 25 anos.

Segundo o professor de ciência política Joan Botella, da Universidade Autônoma de Barcelona, a onipresença do tema territorial no debate espanhol se explica pelo poderio econômico (segundo maior PIB do país) e demográfico (idem) da Catalunha.

Também é preciso considerar os ecos ainda fortes da crise de 2009, quando a constatação de que "a Europa já não era tudo aquilo" estimulou a crispação identitária e deu fôlego ao nacionalismo regional.

Por fim, avalia o pesquisador, trata-se, para os partidos, de uma linha de distinção útil em um momento no qual balizas ideológicas de lado a lado se confundem –os programas econômicos, por exemplo, são bastante parecidos.

De acordo com Botella, pesquisas mostram que o separatismo está longe do topo no ranking de temas que os espanhóis consideram importantes nesta eleição.

"A sociedade admite com mais facilidade a pluralidade cultural e a variedade de línguas do que a elite política. Para o impasse catalão, a maioria prefere uma solução negociada a uma medida imposta por Madri."

Candura que é rechaçada pelo Vox, a sigla de ultradireita que defende linha dura com o movimento secessionista e ameaça, se eleita, declarar ilegais os partidos que o integram.

A agremiação, criada há cinco anos por dissidentes do PP, deve ser a primeira de sua coloração ideológica em 40 anos a ingressar no Parlamento espanhol. Pesquisas indicam que pode receber neste domingo em torno de 11% dos votos, o que se traduziria em cerca de 30 cadeiras e o quinto lugar no ranking partidário.

Mas há indícios de que o azarão pode ir além, sobretudo se o séquito do líder Santiago Abascal nas redes sociais comparecer às urnas –o voto é facultativo no país.

Ausente dos meios tradicionais (foi impedido pela Justiça de participar dos debates televisivos por não ter representação parlamentar em nível nacional), o Vox impera na internet.

No último mês, liderou com folga as interações (curtidas, comentários, repostagens) de usuários do Twitter com perfis de partidos políticos, apesar de ser o menos seguido entre os grandes. Só na última semana, gerou três vezes mais buscas no Google do que qualquer outra legenda.

As sondagens para este domingo dão a liderança ao PSOE, com 29-30%, seguido por um PP que, se confirmado o prognóstico de 17% ou mesmo um pouco mais, perderá quase metade de sua bancada. Em terceiro e quarto lugares surgem, respectivamente, Cidadãos (14%) e Podemos (esquerda radical, 12-13%).

É fato que, ao contrário do que se viu na França e na Itália nos últimos anos, as forças veteranas de esquerda e de direita seguem na dianteira na Espanha. Mas como nem uma nem outra deve ter cacife para governar sozinha, alianças precisarão se constituir.

O PP fez acenos ao Vox –repetindo a parceria, completada pelo Cidadãos, que encerrou há pouco quatro décadas de hegemonia socialista na Andaluzia.

O PSOE conta com o Podemos, mas isso não deve bastar para alcançar maioria. Em franco deslocamento para a direita, o centrista Cidadãos tem se mostrado arisco à ideia de um alinhamento. Sobrariam os partidos nacionalistas (catalães, mas também bascos e canários), como mostrado acima, volúveis.

Se a vitória socialista se confirmar, projeta Botella, o consórcio progressista não deve se completar antes de outubro deste ano. É quando se espera que saia a sentença dos 12 líderes catalães agora julgados pela organização, em 2017, de um plebiscito ilegal sobre a separação da região.

Dependendo do que a Justiça decidir, o movimento independentista pode optar pela ruptura total com Madri, recusando-se a sustentar um hipotético governo Sánchez 2.0. O impasse alimentaria o clamor por novas eleições gerais, como aconteceu no biênio 2015-2016.

Ou seja, a Espanha ainda vai ficar por algum tempo dando volta na rotatória da independência catalã.

ANTES SENSAÇÃO, CIDADÃOS CHEGA ENFRAQUECIDO

Promessa de renovação da política espanhola nas eleições da última década, o Cidadãos (centro) chega à eleição acometido por dores de crescimento.

Depois de ameaçar a supremacia dos tradicionais PSOE e PP, parece ter tocado um teto. Ao abandonar o tom conciliatório de seus primórdios (2005), periga até encolher.

Há um ano, seu líder, Albert Rivera, aparecia no topo das intenções de voto ou competindo seriamente por ele.

A guinada à direita espantou simpatizantes progressistas que vinham aderindo ao Cidadãos. A gota d'água, para muitos, foi o sinal verde de Rivera à aliança com o ultradireitista Vox após a eleição regional na Andaluzia, no fim de 2018.

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