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Linhares: Justiça concede liberdade provisória para pastora

Alvará de soltura foi expedido pela Justiça nesta quarta-feira (7); Juliana Salles foi acusada de omissão nos crimes praticados contra as crianças Kauã e Joaquim, em Linhares

Pastora Juliana Sales quando foi presa em Minas Gerais
Pastora Juliana Sales quando foi presa em Minas Gerais
Foto: Umberto Lemos | InterTV | Arquivo

A pastora Juliana Salles, mãe dos irmãos Kauã Salles Butkovsky, de 6 anos, e Joaquim Alves, de 2 anos, conseguiu na Justiça a liberdade provisória. Ela está presa desde o dia 19 de junho, quando foi detida em Minas Gerais, em cumprimento ao mandado de prisão expedido pela 1ª Vara Criminal de Linhares. Na ocasião, foi aceita a denúncia do Ministério Público Estadual que acusou a pastora de ter conhecimento do risco que as crianças sofriam por estarem sozinhas com o pastor George, o que caracteriza omissão por parte de Juliana. 

> Pastora chorou o tempo todo em audiência

O alvará de soltura da pastora foi expedido nesta quarta-feira (7). Às 23h horas, a Secretaria de Estado da Justiça (Sejus) informou que Juliana Salles continuava presa no Centro Prisional Feminino de Cariacica (CPFC). Questionada se havia recebido o alvará, a secretaria não respondeu.

Georgeval Alves está preso desde abril, mês em que as crianças foram assassinadas, e vai responder por dois homicídios qualificados, dois estupros de vulneráveis, dois crimes de tortura e fraude processual por ter alterado a cena do crime. A pastora, apesar de não estar em casa no dia do crime, também responde pelos mesmos crimes, considerada a omissão. 

O Gazeta Online tentou falar com a defesa da pastora, mas as ligações não foram atendidas e mensagens não tiveram respostas.

> Fotos mostram interior da casa após incêndio

O CASO

Na madrugada do dia 21 de abril de 2018, os irmãos Kauã Salles Butkovsky, de 6 anos, e Joaquim Alves Salles, de 3, morreram carbonizados na casa onde moravam, em Linhares. O pastor Georgeval Alves, pai de Joaquim e padrastro de Kauã, estava sozinho na residência com as crianças.

No dia 28 do mesmo mês, o pastor foi preso após a Justiça expedir um mandado de prisão temporária por 30 dias porque o homem estava atrapalhando as investigações do incêndio que matou as crianças.

Pastor George quando foi ao DML de Vitória
Pastor George quando foi ao DML de Vitória
Foto: Marcelo Prest | Arquivo | GZ

As declarações mentirosas e contraditórias dadas por George Alves levaram a Polícia Civil a desconfiar de que a morte dos irmãos Joaquim, de 3 anos, e Kauã, de 6 anos, não havia sido provocada por um incêndio acidental.

> TRAGÉDIA EM LINHARES | A cobertura completa

À imprensa, na porta do Departamento Médico Legal (DML), em Vitória, na tarde do dia 23 de abril, o pastor declarou que tentou salvar o filho e o enteado, mas não conseguiu por conta do fogo intenso. Na entrevista, ele ainda falou sobre fé e representou como teriam sido os últimos momentos de vida das crianças. Todas as declarações foram desmentidas posteriormente pela força-tarefa criada para investigar o caso.

SANGUE

Tirei um tempo para assistir a um filme com eles à noite. Me pediram leite com achocolatado. O mais novo, Joaquim, dormiu primeiro. Eu coloquei ele na cama, liguei o ar-condicionado, liguei a babá eletrônica e retornei para o escritório, onde continuei com o Kauã até por volta de meia-noite. Aí pedi para que ele fosse dormir também. Coloquei a mão sobre a cabeça dele, oramos juntos, pedi para que Deus o guardasse, protegesse. Nesse momento, eu cobri ele e saí do quarto
Pastor George à polícia

 O que concluiu a investigação 

Vizinhos ouviram os gritos das crianças pouco tempo antes de elas serem mortas. Os irmãos foram estuprados, agredidos e depois queimados por George, segundo a polícia. Traços de sangue de Joaquim foram encontrados no box do banheiro social da casa e na escrivaninha do quarto das vítimas.

Eu voltei até o meu quarto, tomei banho, liguei a babá eletrônica e dormi. Por volta das 2 horas, eu escutei os gritos deles pela babá eletrônica. Eu vi o fogo muito grande na imagem, corri desesperado... a casa já não tinha mais luz
Pastor George à polícia

Perícia concluiu que Joaquim e Kauã estavam desacordados quando foram queimados vivos, portanto não gritaram. Imagens de câmeras de videomonitoramento próximas à casa mostram que o fogo começou às 2h20.

QUARTO FECHADO

Eu corri e empurrei a porta do quarto deles, que estava entreaberta, encostada, por conta do ar-condicionado. Entrei e escutei o choro deles. Eles gritavam: pai, pai, pai. Pus a mão na cama e não consegui pegar meus filhos. O Kauã desceu para a cama de baixo, era uma beliche, acho que para tentar salvar o irmão
Pastor George à polícia

 O que concluiu a investigação 

Porta e janela do quarto estavam fechadas. As crianças estavam desmaiadas e não gritaram pedindo ajuda. Portanto, Kauã não tentou salvar o irmão, segundo a perícia. O pastor também não chegou perto da cama enquanto ela queimava.

SEM QUEIMADURAS

Eles se abraçaram e não consegui vencer o fogo. Eu queimei meus pés e minhas mãos. Saí gritando, desesperado. Eu tentei entrar três vezes para salvar, mas duas pessoas que estavam passando me tiraram da casa. Eu não ouvia mais a voz deles
Pastor George à polícia

 O que concluiu a investigação 

George não apresentava nenhuma lesão de queimadura no corpo que indicasse que ele tentou salvar os filhos. Os corpos estavam lado a lado na cama e ainda não se sabe se foram colocados desta forma por George ou se um caiu da parte de cima do beliche quando o móvel foi destruído. O pastor não gritou pedindo socorro no momento em que o fogo começou. Ele foi visto dando voltas na varanda da casa, de cueca, e só se manifestou quando vizinhos começaram a aparecer oferecendo ajuda.

> Laudo: pastor teve queimadura do tamanho de uma moeda no pé

FRIEZA

O único respaldo que tenho agora é de Deus. A força que tenho mantido junto com minha esposa... temos a plena certeza e convicção que é Ele que está nos segurando. Eu creio que há um propósito eterno para tudo isso. Creio que pessoas serão alcançadas por esse testemunho. Há um senso de urgência, o mundo precisa de Deus. Não tem uma resposta se não for Deus. Se não fosse Ele eu não estaria aqui
Pastor George

No mesmo dia em que matou o filho e o enteado, George Alves participou de um culto na Igreja Batista Vida e Paz de Linhares acompanhado da esposa Juliana Alves. Com os pés enfaixados, ele chorou muito e foi amparado por amigos e membros da congregação. No dia seguinte ao crime, o pastor comandou o culto e convocou os fiéis horas antes pela internet. “#EU DISSE SIM VOU ATE O FIM# *estarei ministrando, espero vcs”, publicou ele na ocasião.

Em relação aos trâmites, ter que vir para Vitória (para fazer exame de DNA e liberar corpos), ou esperar, para mim isso é irrisório. Não estou levando em consideração. Não tem nada maior que a perda dos meus filhos. Nada vai ser mais difícil. Para mim isso é irrelevante nesse momento. Não tem me abalado. Creio que os órgãos responsáveis estão fazendo de tudo
Pastor George à imprensa

Após um mês de investigação, a polícia divulgou nesta quarta-feira (23) que o pastor George Alves é acusado de estuprar, espancar e queimar vivos o filho, Joaquim, de 3 anos, e o enteado, Kauã, de 6 anos.

A CONCLUSÃO DO CRIME BÁRBARO

Pastor George Alves foi preso na manhã de sábado, 28 de abril, em Linhares
Pastor George Alves foi preso na manhã de sábado, 28 de abril, em Linhares
Foto: Frideberto Viega | TV GAzeta

O pastor George estuprou o próprio filho, Joaquim, de 3 anos, e o enteado, Kauã, de 6, antes de atear fogo nas crianças ainda vivas. Os crimes ocorreram no dia 21 de abril, na casa onde a família morava, no Centro de Linhares, Região Norte do Espírito Santo.

As revelações sobre o caso que chocou o país e deixou uma cidade inteira de luto foram dadas pela força-tarefa da Polícia Civil, em entrevista coletiva à imprensa.

Ele molestou as duas crianças. Isso é demonstrado tecnicamente pelo encontro (nos corpos) de uma substância denominada PSA, que é encontrada no sêmen humano. Essa substância foi achada no orifício anal das duas crianças. Essa substância não poderia estar naquele local a não ser por um fator externo
Delegado André Jaretta Ardison, da força-tarefa da PC

A substância PSA, presente no sêmen e produzida pela próstata, foi encontrada nos corpos dos meninos, o que comprova, segundo o delegado, que houve estupro. Jaretta reforçou que a polícia traçou uma concatenação de como ocorreram os fatos que chocaram a todos os envolvidos na investigação por tamanha crueldade do crime.

O delegado André Jaretta (ao centro, de gravata azul e terno preto) ao detalhar as investigações sobre a tragédia em Linhares
O delegado André Jaretta (ao centro, de gravata azul e terno preto) ao detalhar as investigações sobre a tragédia em Linhares
Foto: Rafael Silva

"Ele agrediu as crianças. Foi encontrado vestígio de sangue no box do banheiro, que um exame comprovou ser de Joaquim, seu filho biológico. Com as crianças vivas, porém desacordadas, ele as levou para a cama, utilizou um combustível derivado de petróleo e ateou fogo nelas e no local, fazendo com que elas fossem mortas pelo calor do fogo. Elas foram mortas pelo fogo. O exame comprova os meninos foram mortos carbonizados. Os dois tinham fuligem na traqueia, o que indica que eles respiravam a fumaça do incêndio", detalhou o delegado André Jaretta.

> TRAGÉDIA EM LINHARES | A cobertura completa

O pastor George ateou fogo nas crianças com o objetivo de ocultar os crimes de estupro. "Feito isso, o investigado (pastor George) foi para o ambiente externo da casa, sem abrir o portão, ficou andando de um lado para outro, até que transeuntes vissem o cenário, parassem e, por conta própria, prestassem auxílio, abrindo o portão, mas não tendo mais condições de prestar socorro às crianças", disse o delegado.

"Não bastasse esse ato, vimos que o investigado buscou se promover, tentando mostrar uma personalidade muito inversa do que sua conduta mostrou", afirmou.

SECRETÁRIO CHAMOU PASTOR DE 'MONSTRO' E CRITICOU LEGISLAÇÃO

Secretário da Segurança Pública do ES, coronel Nylton Rodrigues, critica a legislação e avalia que o assunto deveria ser prioritário na agenda do país
Secretário da Segurança Pública do ES, coronel Nylton Rodrigues, critica a legislação e avalia que o assunto deveria ser prioritário na agenda do país
Foto: Bernardo Coutinho | GZ

O secretário estadual de Segurança Pública, coronel Nylton Rodrigues, afirmou em entrevista à TV Gazeta que o pastor Georgeval Alves, que estuprou e matou o próprio filho, Joaquim Alves Salles, de 3 anos, e o enteado, Kauã Salles Butkovsky, 6, não ficará muito tempo preso. George foi indicado como autor do crime, que aconteceu no dia 21 de abril em Linhares

"Ele continua detido e, com certeza, será condenado. Aí vem a nossa legislação e ele não fica nem 30 anos na cadeia - porque tem a progressão da pena, abatimento da pena. É hora de o nosso legislador lá em Brasília ver isso", criticou.

> OPINIÃO DA GAZETA | Investigação da polícia é referência

O coronel informou, também, que o inquérito será encaminhado na semana que vem para a Justiça e para o Ministério Público. George foi indiciado por duplo homicídio triplamente qualificado e duplo estupro. Na soma total da pena, ele pegaria 126 anos de cadeia.

Em um crime como esse não tem que ter progressão e abatimento de pena. Ele tem que cumprir a pena inteira! Tem que ficar na cadeia. É hora de os nossos legisladores colocarem isso como um assunto prioritário na agenda do nosso país
Nylton Rodrigues, secretário de Segurança Pública do ES

FRIO E CALCULISTA

Nylton Rodrigues ainda informou que o pastor teve comportamento frio e calculista e que em nenhum momento ele se emocionou ao saber das conclusões do caso.

Não estamos falando aqui de um ser humano. Estamos falando de um monstro, e um monstro não tem esse tipo de comportamento. Todos os delegados, peritos e investigadores se emocionaram com o caso. Como alguém tem a capacidade de ter um comportamento tão perverso como esse monstro teve?
Nylton Rodrigues

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