Medo e violência

Condomínio Ourimar: do sonho da casa própria ao pesadelo do tráfico

Moradores de condomínio popular vivem sob as regras de bandidos que assumiram o controle do local desde 2016, na Serra

Glacieri Carraretto

Publicado em 26/02/2018 às 11h10

Um condomínio popular dominado pelo crime: assim é Ourimar, na Serra. Localizado às margens da Rodovia ES 010, a poucos metros da praia de Manguinhos, o conjunto habitacional tem cerca de dois mil moradores, divididos em 608 apartamentos, que vivem sob regras impostas por traficantes desde 2016, quando foi criado.

A maioria dos habitantes do condomínio vive refém do medo. São trabalhadores que sonhavam com a casa própria, mas que se viram obrigados a seguir à risca as leis criadas por traficantes. "Os moradores são retirados do local na mira de armas e, se discordarem, sabem que serão mortos", denunciou um ex-morador.

E quem enfrenta a presença dos traficantes sofre punições. Somente em 2017, foram registradas 48 ocorrências de famílias que foram expulsas violentamente dos apartamentos. Gente que precisa de um teto para criar os filhos e ter uma vida digna. "Morar em Ourimar é lutar pela sobrevivência", resume uma moradora do condomínio.

Por segurança, os moradores e ex-moradores ouvidos pela reportagem não são identificados. "Foi uma felicidade vir morar aqui, eu tinha expectativa de viver em segurança, pois vinha de um bairro perigoso e queria ter paz e conforto. Mas não foi bem isso que encontrei em Ourimar", lamentou um morador de 56 anos.

E não precisa nem entrar no condomínio para saber que existem leis paralelas. Logo na chegada, pichado nos muros ao lado do acesso principal, o recado é claro: "Abaixe os vidros (do carro) e farol", acompanhados do desenho de uma arma. Depois de passar, a vigilância começa. "Os traficantes fazem patrulhamento dia e noite, como se fossem policiais", contou uma ex-moradora, em denúncia à polícia.

EXPULSÕES E MEDO

A tomada do condomínio Ourimar pelos criminosos foi rápida e rasteira. "Era um amigo ou um parente que ia visitar o morador, depois passou a vender droga aqui ou ali. Daí a pouco tinha uma boca de fumo e gente armada ameaçando morador."

Os moradores sabem que negar a presença e as exigências dos meliantes que comercializam drogas é um desafio. "Já colocaram arma no rosto do meu neto pequeno só porque meu genro entrou no prédio com o carro", contou uma moradora.

Os apartamentos que forçadamente são desocupados passam a ser residência dos bandidos ou dos parentes deles. "Ambulância não entrava mais lá pois os funcionários têm medo. Nem sempre conseguimos receber as correspondências, pois os entregadores têm receio pela fama provocada por um grupo de criminosos", desabafa uma vizinha.

Nem sempre conseguimos receber as correspondências, pois os entregadores têm receio pela fama provocada por um grupo de criminosos.
Depoimento de moradora

Em setembro de 2017, um traficante, vestido com um colete a prova de balas e empunhando uma arma longa, entrou no apartamento de uma mulher e exigiu que o filho dela passasse a atuar no tráfico de drogas praticado pela facção. Não era um pedido, mas uma ordem. Por se recusar, a família foi obrigada a abandonar o imóvel.

PORTÕES MONITORADOS POR CRIANÇAS

Hoje, para ultrapassar os portões que fecham os blocos do condomínio durante o dia, o motorista tem que aguardar crianças de 5 a 7 anos. São elas que têm a missão de abrir os portões, da maneira mais lenta possível. "É uma estratégia que ajuda a retardar a entrada de policiais ou inimigos, dando tempo para qualquer traficante que reside em Ourimar fugir ou esconder drogas e armas. Eles sabem que qualquer pessoa adulta terá que ter calma para lidar com as crianças", afirmou o delegado Rodrigo Sandi Mori, titular da Delegacia de Crimes Contra a Vida (DCVV) de Serra, que atua na área.

Com 608 possibilidades de esconderijo, divididos em prédios praticamente idênticos e ainda com possibilidade de fuga por mata, o condomínio virou um quartel que oferece proteção e conforto para os traficantes. "Às 16 horas começa o movimento. Entra e sai de motos e carros. Às 7h some todo mundo, trocam de apartamentos para tirar o foco e enganar a polícia. A maioria era de fora e veio chegando e tomando o lugar", explica um morador.

A área de Ourimar é cercada de mata, uma rota de fuga dos bandidos que tomaram conta do local. A cerca que rodeava o condomínio foi arrancada para que os bandidos tenham acesso, de forma rápida, à rodovia ES 010 e o bairro vizinho, Vila Nova de Colares.

AFINAL, COMO SURGIU OURIMAR? 

Ourimar foi ocupado por famílias de baixa renda que foram selecionadas para receber os apartamentos. Muitas foram desalojadas pelas fortes chuvas que atingiram o Estado em 2013, outras viviam de aluguel social. Com o custo de R$ 36,5 milhões, o condomínio é dividido em dois blocos, um deles pintado na cor rosa e outro na cor verde. O condomínio foi criado dentro do Programa Minha Casa, Minha Vida. O acordo entre prefeitura e Caixa Econômica Federal para a construção de Ourimar foi assinado em março de 2013.

Logo que o prédio foi entregue, três anos depois, o primeiro síndico eleito em chapa única tentou organizar o local, com a cobrança de taxas de condomínio e multas para quem descumprisse as regras do regimento interno. "Ele tentou multar quem corresse pelas escadas ou quebrasse alguma coisa. Muitas pessoas não quiseram pagar o valor", descreveu uma moradora.

Mas, aos poucos, criminosos que visitavam algum parente no local descobriram em Ourimar uma fortaleza para se estabelecer. "No começo era um ou outro que vendia drogas pelos cantos". Cerca de três meses após o síndico assumir, bandidos deram tiros na porta do apartamento dele. "Aí o medo de levar tiro passou a tomar conta. O síndico se mudou". Com ele, também foram embora a legalidade e a tranquilidade do condomínio.

VALE TUDO PARA NÃO CHAMAR A ATENÇÃO DA POLÍCIA

A mesma população que sofre com a violência e medo também encontrou nos traficantes apoio para as dificuldades que vivenciam diante da ausência do estado. São os mesmos traficantes, seus algozes, que fornecem transporte para hospital e gás de cozinha para quem não tem dinheiro. "Ele era o 'governador' do condomínio. Não queriam polícia ali dentro, por isso tentava tratar bem os moradores", conta uma moradora ao falar sobre Brian Lopes Oliveira, um dos criminosos que chegou à chefia da facção dentro de Ourimar e que hoje está preso.

Se alguém passava mal, os traficantes davam dinheiro para o morador pagar o táxi para ir ao pronto-socorro. Se remédios eram a necessidade, o lucro do comércio de drogas também bancava. Até cesta básica era doada. Os traficantes interviam em brigas de marido e mulher. Tudo para que a polícia não fosse comunicada sobre o que acontecia no condomínio.

Em troca, o poder paralelo obrigava qualquer morador a permitir a entrada dos bandidos nos apartamentos, a qualquer hora e dia, para servir de esconderijo em perseguições policiais ou de inimigos. "Os traficantes pagaram um técnico de internet para 'puxar' ilegalmente a internet de moradores que contratam o serviço corretamente. Eles distribuíram a internet para os outros residentes, escolhidos pelos traficantes, para que, em troca, vigiassem os locais de acesso aos prédios", afirma o delegado Rodrigo Sandi Mori.

A vigilância de quem colabora com a "lei e a ordem" do tráfico faz com que quando uma viatura da Polícia Militar ou da Polícia Civil, mesmo descaracterizada, entra na área de Ourimar, o som que percorre as ruas internas é o dos assovios altos. "O objetivo é avisar a quem interessa que a polícia entrou. Cada vez que a polícia entra, alguém é expulso pois os traficantes escolhem alguma família para expulsar e pagar pela prisão de algum traficante. É um terror constante", completou Sandi Mori.

NO RASTRO DOS ASSASSINOS

Mas como a Polícia Civil entrou na história e descobriu o que se passava dentro de Ourimar? Na administração feita pelos criminosos, o regimento interno é sustentado por ameaças e terror. E também por mortes. O poder do tráfico de drogas em Ourimar foi o estopim de sete assassinatos que aconteceram entre maio e novembro de 2017.

"Os criminosos se acostumaram a fazer o que queriam ali dentro e não sentiam a ação da polícia. Mas os conflitos do tráfico resultaram em mortes e o modo de execução dos homicídios chamaram nossa atenção. Durante as investigações, percebemos que o condomínio havia sido tomado por bandidos, fazendo com que moradores de bem seguissem as ordens deles", relata Sandi Mori.

O delegado conta que há uma organização dentro condomínio entre os integrantes da facção que tomou Ourimar. O bando é dividido em escalas de funções e poder. Os soldados são, em maioria, os que matam. Eles ficam na pista e transportam a droga. Acima deles, fica o gerente, um cargo de confiança na quadrilha. E, no topo dessa pirâmide, o chefe que manda e desmanda. "Nada é feito sem o aval do chefe", pontuou o delegado.

Em apenas 45 dias, entre maio e junho, foram registrados quatro assassinatos relacionados ao tráfico de drogas em Ourimar. Entre os mortos está o chefe do primeiro grupo a instalar o tráfico no local, Marcos Antônio da Silva, Xavier, 22 anos, conhecido como Mata Rindo. Ele foi assassinado dentro do condomínio, no dia 4 de junho, por aliados do tráfico que se tornaram rivais.

Além de Mata Rindo, foram assassinados Vander Luiz Guimarães, no dia 17 de maio, Milene de Oliveira Miguel, 26 de junho, e Eduardo Barreto Pires, 29 de junho. A morte de Milena, segundo a Polícia Civil, aconteceu porque ela deu um tiro no namorado, com quem morava em Ourimar, e foi proibida de entrar no condomínio. Com a morte de Mata Rindo, Milena voltou ao conjunto habitacional, pensando que a proibição não valia mais. Porém, Brian Lopes de Oliveira, que assumiu a chefia do tráfico, fez valer a regra e mandou matá-la.

Já Eduardo foi morto porque, segundo a Polícia Civil, ele teria entrado com um carro roubado no condomínio, o que é proibido pelos traficantes. Eduardo foi morto a pancadas e tiros em Ourimar, colocado no porta-malas do veículo, que foi empurrado ladeira abaixo em Vila Nova de Colares, bairro vizinho.

ESTANCANDO A SANGRIA?

No dia 6 de julho, em resposta aos assassinatos, uma megaoperação com 161 policiais civis da Superintendência de Polícia Especializada (SPE) da Polícia Civil, 220 policiais militares e um helicóptero Harpia da PM, foi realizada em Ourimar para o cumprimento de mandados de prisão. Ao todo, 14 pessoas foram detidas. Armas e drogas também foram apreendidas.

Um dos alvos da operação era Brian, articulador da morte de Mata Rindo. Ele conseguiu escapar do cerco policial, mas acabou preso seis dias depois por policiais militares. "Ourimar é um paraíso para os traficantes pois a polícia tem dificuldade em entrar. Eles 'agradam' moradores com benefícios e criam e impõem leis. A megaoperação os assustou, passaram a mudar de um apartamento de um para outro para não ter um ponto fixo", disse o delegado.

Porém, depois da operação, mais três assassinatos relacionados à Ourimar foram registrados: Daniel de Almeida Morais, no dia 11 de outubro, Henrique Alves, 24 de outubro, e Jabez Luiz da Conceição Filho, o Baiano, 8 de novembro.

Os novos assassinatos fizeram com que a Delegacia de Crimes Contra a Vida (DCCV) da Serra intensificasse a presença policial em Ourimar a partir de outubro. Em um mês, formam mais 11 prisões de homens e mulheres acusados de participação nos assassinatos e de integrar a organização criminosa que domina o condomínio.

"Dentro da área do condomínio, apenas duas vítimas dos sete assassinatos foram deixadas ali. As demais, era transportadas para serem mortas em outros lugares ou desovadas em bairros vizinhos para evitar que a polícia entrasse no condomínio e também para incriminar facções rivais. O objetivo era evitar que a polícia focasse em Ourimar", observou Sandi Mori.

TRAIÇÃO, TIROS E MORTES NA BUSCA PELO PODER

Marcos Antônio da Silva Xavier, o Mata Rindo, foi o primeiro criminoso a impor leis dentro de Ourimar. Segundo investigações da Polícia Civil, ele era temido por moradores e tinha como aliado Brian Lopes de Oliveira. As atitudes do "chefão", porém, desagradavam até o próprio amigo. O líder do bando não repartia o dinheiro do comércio de drogas, era arrogante com os morares e temia ser traído.

Em 4 de junho, Mata Rindo é assassinado. A morte dele deu início a uma gananciosa busca pelo posto de "síndico" do tráfico no condomínio. Brian assumiu o status de Mata Rindo, ao lado de Douglas Fernandes Pinto, o Drogba. Porém, a liderança de Brian dura pouco e ele acaba preso no dia 11 de julho.

Na sucessão do cargo entra Drogba. Segundo a polícia, após assumir a chefia, ele manda matar Daniel de Almeida Moraes, que era gerente do tráfico de Brian e Mata Rindo. Por ser um cargo de confiança, Drogba coloca seu amigo de infância, Alan Lucas Camilo Leme, no posto. Mas o mandato de Drogba também durou pouco. Após três meses, ele foi preso pela Delegacia de Crimes Contra a Vida (DCCV) de Serra pela morte de Mata Rindo e outras três pessoas, no dia 20 de outubro, junto do amigo Alan.

Como ser chefe era o desejo de todos, caiu no colo de Jabez Luiz da Conceição Filho, o Baiano, a responsabilidade do posto. Mas o poder subiu à cabeça e ele não agradou. Segundo a polícia, ele era violento e não tinha diálogo com os moradores. Com isso, Baiano foi assassinado no dia 8 de novembro. Os acusados do crime são Helisson Silva de Souza, Marlon Rosa Machado e um adolescente de 17 anos.

Helisson permaneceu 15 dias como chefe do tráfico, até em mais uma operação da DCCV de Serra colocá-lo na prisão, junto com os comparsas, dando um fim a uma geração que implantou o comércio de drogas e medo aos moradores de bem de Ourimar.

"Ouvimos socorro de moradores quando vamos lá. A DCCV entrou na região depois que o crime aconteceu, pois nossa função é investigar e prender autores quando o homicídio já ocorreu. Porém, estamos trabalhando integrados com a Polícia Militar, Ministério Público, Justiça e a Prefeitura para que ações conjuntas sejam feitas com objetivo evitar que os prédios sejam ponto de abrigo e domínio de meliantes", enfatizou o delegado.

Temos consciência de que o tráfico pode se reestruturar, por isso as ações de prevenção são necessárias
Rodrigo Sandi Mori, delegado

Apesar das ações, o próprio delegado diz não poder afirmar que não haverá mais crimes dentro de Ourimar. "Temos consciência de que o tráfico pode se reestruturar, por isso as ações de prevenção são necessárias", afirmou Sandi Mori.

"CONDOMÍNIO DE GENTE, NÃO DO TRÁFICO"

A situação em Ourimar fez com que ações imediatas, fora do alcance da polícia, começassem a ser aplicadas na região. Segundo o secretário de Defesa Social de Serra, Coronel Jailson Miranda, a prefeitura organizou um grupo formado pelas polícias Civil e Militar, Ministério Público e secretarias para intervir de maneira integrada no condomínio.

Coube à prefeitura instalar projetos sociais e de infraestrutura para o condomínio. Um exemplo é a reclamação frequente de moradores sobre a dificuldade em ter acesso a ônibus, pois há poucas linhas disponíveis e o ponto do coletivo é distante. "Estamos fazendo esse levantamento para que os moradores tenham mobilidade e infraestrutura", garantiu coronel Miranda.

Em novembro, duas câmeras de monitoramento foram instaladas na entrada do condomínio, tanto para inibir crimes como para ajudar nas investigações. Para reinstalar a presença da legalidade dentro de Ourimar, também foram retiradas as barracas que formavam uma feira livre no local. Projetos sociais profissionalizantes e cursos de informática também estão sendo oferecidos aos moradores.

O terreno no entorno de Ourimar recebeu limpeza e iluminação para dar mais acessibilidade às viaturas da Polícia Militar que fazem o patrulhamento na área. "O trabalho tem sido intenso. Não temos nenhuma dificuldade em entrar no condomínio e contamos com o apoio da população", afirmou o major Max Werneck, comandante da 14ª Companhia Independente da Polícia Militar.

Além disso, os moradores que não têm autorização e documentação para residir vão ter que sair. "Hoje tem síndico nos dois blocos do condomínio. Buscamos dar tranquilidade e esperamos que os moradores de Ourimar voltem a ter crença no Estado para melhorar a vida de quem vive lá. É um trabalho em todas as frentes e de forma harmoniosa, buscando sempre ouvir e envolver a comunidade que lá reside", declarou o secretário.

Quero não ter que acordar no meio da noite por causa de barulho de tiros, quero ver as crianças brincando na área comum. Desejo que se torne um condomínio de gente e não do tráfico.
Morador do condomínio

O olhar do poder público para os apartamentos de Ourimar fez nascer esperança em que mora lá e vive cercado pelo medo. "Quero não ter que acordar no meio da noite por causa de barulho de tiros, quero ter lazer para mim e para meus vizinhos e ver as crianças brincando na área comum. Desejo que se torne um condomínio de gente e não do tráfico", disse, ainda esperançoso, um morador de 56 anos.