Entrevista

Morro da Piedade: medo, famílias expulsas e mulheres agredidas

Morador, que prefere não se identificar por motivo de segurança, disse que cinco famílias foram expulsas do morro por pessoas envolvidas com o tráfico de drogas, uma delas há um mês

Reprodução/Facebook

Um dia depois dos irmãos Damião Marcos Reis, de 22 anos, e Ruan Reis, de 19 anos, serem executados a 200 metros de casa no Morro da Piedade, em Vitória, um morador do local conversou com a equipe do Gazeta Online sobre o clima de luto e medo na comunidade, que já existia antes das execuções. 

O homem, que prefere não se identificar por motivo de segurança, disse que cinco famílias foram expulsas do morro por pessoas envolvidas com o tráfico de drogas, uma delas há um mês. 

Contou ainda que mulheres têm o cabelo cortado e levam "tapa no rosto na frente de todo mundo". 

Sobre a morte dos jovens, o morador afirmou que foi uma cena de horror, e no domingo crianças brincavam nas mãos com cápsulas dos tiros disparados no crime. Foram mais de 60 disparos nos assassinatos. 

Como a comunidade está?

O morro está enlutado. As pessoas estão muito tristes. A mãe deles é uma pessoa de uma militância, de uma força, não é uma militante de ir para a rua, mas é uma militante do próprio bairro, querendo o bem do filho dos outros, participando, querendo que a comunidade seja melhor, que a prefeitura melhore as vias, as casas, que tenha vaga nas creches. É uma mãe que sempre foi muito presente, é muito educada. Um pessoa simples, pobre, mas muito esclarecida. Olha, e os meninos eram da mesma forma.

O que vocês (moradores) acham que pode ter causado a morte deles?

Não sei te dizer. Durante o tiroteio, pessoas ouviram nomes da própria gangue, um gritando o outro. Os becos são apertados então foi uma cena de horror mesmo, de filme, com muitas cápsulas espalhadas pelo bairro. Ontem as crianças brincavam com essas cápsulas nas mãos.

A mãe deles tem outros filhos?

Sim. Eu acho que são seis ou oito.

E o avô deles foi o fundador da escola de samba Piedade.

Foi. Tem vídeos dele com outros sambistas na internet. Os meninos fisicamente são parecidos com ele... O morro está triste, as pessoas não falam abertamente. O que a gente pode clamar é por justiça, por paz, por intervenção pública, mas não só com polícia, das vias serem melhoradas, das casas serem melhoradas. Está uma situação muito difícil na Piedade. Antes da morte do Damião, nós tivemos cinco famílias que foram expulsas do morro por causa do tráfico de drogas. Quando você tem famílias sendo expulsas do morro, mulheres agredidas com cabelos cortados, mulheres levando tapa no rosto na frente de todo mundo. Você não tem noção. 

Essa situação está acontecendo há quanto tempo?

Uma família foi expulsa há um mês. 

Esse quadro tem relação com o tráfico?

Sim. E tem acontecido de maneira muito forte e recorrente. Ao contrário do que a Sesp (Secretaria de Estado da Segurança Pública e Defesa Social) está informando, não está tendo patrulhamento, nada disso não. A polícia vai quando acontece uma situação de agravamento. Claro que polícia no morro não é igual polícia na rua que faz patrulhamento. Polícia no morro vai na porta de um, na porta de outro, quer saber quem tá fazendo isso, quem tá fazendo aquilo. E as pessoas não vão dizer. Está uma situação muito complicada. Essas pessoas expulsas não tinham envolvimento com o tráfico, mas foram representantes do tráfico que as expulsaram. Era uma outra situação: de homem querer ter poder sobre uma mulher. O Damião e o Ruan também não tinham envolvimento com o tráfico. Mas o morro tem sofrido com a disputa do tráfico de drogas. 

O OUTRO LADO

Sobre as reclamações de moradores, que afirmam sofrer nas mãos do tráfico com expulsões de casa, ameaças e agressões, a Polícia Civil informou que não tem conhecimento dos casos.

O delegado Marcus Vinícius Rodrigues, titular da Delegacia de Crimes Contra a Vida (DCCV) de Vitória, que investiga o assassinato dos irmãos, disse que a DCCV não recebeu denúncias sobre a ação do tráfico no Morro da Piedade. Ele pediu para que a população denuncie as violações ou qualquer informação sobre os autores da morte dos irmãos pelo Disque-Denúncia, no número 181. Denúncias também podem ser feitas nas próprias delegacias.

"Os moradores precisam procurar as autoridades competentes. Não adianta nada reclamar com a imprensa e não procurar a polícia. A pessoa que se sente ofendida e violada deve procurar a delegacia porque com base nessas informações a polícia tem condições de chegar aos autores. Não adianta ficar apenas em grupinhos de WhatsApp, fazendo reclamações esporádicas. A polícia trabalha com provas. Precisamos da colaboração das vítimas. A população tem que entender que ela também é responsável pela segurança pública, não apenas as polícias. Se ela está sendo vítima de um crime, tem que procurar as autoridades que a polícia vai trabalhar para ajudar", afirmou.

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