"Firma milionária"

Com perfil em rede social, "dono" da Piedade desafia e promete vingança

João Ferreira Dias publicou nos últimos dias mensagens de luto e de vingança pela morte do seu braço direito, o traficante Walace de Jesus Santana, 26 anos

Publicado em 19/06/2018 às 13h31

Drogas, armas, bebidas caras e o local de trabalho, a tal "firma milionária". Sem medo de se expor e fazendo questão de ostentar poder, criminosos usam as redes sociais para mandar recados aos rivais, fazer ameaças e demonstrar sentimentos pelos membros do bando. Fontes ligadas ao Gazeta Online, que conhecem o horror imposto pela família Ferreira Dias no Morro da Piedade e região, mostraram perfis no Facebook atribuídos ao atual chefe do tráfico: o João Ferreira Dias.

No perfil mais atualizado na rede social, João se apresenta com um codinome, que faz referência a um personagem de novela "A Força do Querer", que era dono do morro. Ele também usa a sigla que representa uma das facções do crime organizado no Centro de Vitória. O Gazeta Online não vai citar os nomes dos perfis por terem imagens de crianças em postagens públicas.

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João publicou nos últimos dias mensagens de luto e de vingança pela morte do seu braço direito, o traficante Walace de Jesus Santana, 26 anos, que é um dos seus amigos na página. Em 10 de junho, na data da morte do comparsa, às 13h37, ele postou: "Vai ter volta...Volta 'er' triste". Três dias depois, em 13 de junho, João escreveu, também com fundo vermelho e chamativo, o recado: "E a tropa do Neguin Walace... Us crias ta sou cpt (os crias estão só os capetas) brota".

Na mesma mensagem, há o comentário de um perfil relacionado ao Morro da Piedade: "Grt só ú ódio brota CPT (grita só o ódio capeta)". Ainda de acordo com fontes do Gazeta Online, esse perfil é de uma pessoa envolvida com o crime na Piedade. De maneira geral, eles quase não usam vogais ao escrever.

Neguin, segundo moradores da região, era o apelido de Walace, que se revoltou após a morte da prima a pauladas e da tia por bala perdida na mesma semana, em 2010, e entrou no mundo do crime.

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Já no dia 16 deste mês, João fez sua publicação mais recente: "Saldade du neguin W...". A frase demonstra a ideia de 'família' dos integrantes do tráfico de drogas da mesma facção, que, no caso deles, é o Primeiro Comando da Piedade (PCP) e o Comando de Vitória (CDV). Pelo morro, a reportagem do Gazeta Online flagrou inscrições no chão com as iniciais de João Ferreira (JF) e do PCP. A sigla também está pichada na parede de algumas casas.

PCP E CDV

Além da vida real, as siglas que indicam os grupos criminosos estão presentes nos perfis de amigos de João e Walace no Facebook. De acordo com o professor universitário e Mestre em Segurança Pública, Thiago Andrade, esses nomes fazem alusão a facções de São Paulo e do Rio de Janeiro, como o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV).

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"Inspiram, mesmo que negativamente, que jovens do Espírito Santo, em especial da Grande Vitória, usem terminologias para fazer associações com as suas respectivas representações. É uma tentativa de marcar um território, de rotular um bairro ou um pedaço específico da boca deles. Fazem isso para impor determinado respeito, que eles entendem", pontua.

FIRMA MILIONÁRIA

A expressão firma milionária também está no perfil de João e de várias amigos em comum. O termo, que ganhou projeção nacional com o funk "Firma Milionária" - do Menor do Chapa -, existe há mais tempo e retrata a ostentação, promovida com o dinheiro do crime.

"É uma terminologia em Estados como Rio de Janeiro e São Paulo, que faz alusão a uma firma do tráfico de drogas. Como se fosse uma empresa, e esse cidadão pertencesse a essa empresa em determinada função, como gerente ou dono. A firma rende lucro, que é a firma milionária. Esse lucro faz com esses donos e gerentes comecem a conquistar motocicletas, ostentem dinheiros, mulheres. É um termo que já existia".

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O professor destaca que os traficantes usam a expressão com absoluta propriedade. "Quem não é do tráfico, pode, eventualmente usar, para se inserir, para dizer que faz parte. Mas esse termo é utilizado especificamente para quem faz parte dessas organizações. Tiram fotos com bebidas caras, relógios, motocicletas, com mulheres em festas, que representam essa ideia da firma milionária".

Em relação à música, Thiago destaca que o funk é um retrato do que vem sendo feito naquela determinada comunidade. A letra diz: "Pra que guardar dinheiro, se eu morrer não levo nada. Por isso eu gasto mesmo que a minha firma é milionária". O clipe do funk tem mais de 10 milhões de visualizações. 

De acordo com o professor, é considerado apologia ao crime postar fotos com armas, drogas e plantas de maconha. A pena prevista é de três a seis meses de prisão ou multa. Escrever no perfil que faz parte da firma milionária, apesar de ser uma atitude até comum entre jovens, pode ser interpretado como crime, pois o termo se refere ao tráfico de drogas.

NOMES DE NOVELAS E FILMES

Traficantes usam nomes da ficção que retratam poder, dinheiro, drogas e armas na internet. "Fazem uso desse nome por ser de conhecimento público e de abrangência nacional. Eles vinculam nomes fictícios para que possam ter ainda mais uma sensação de autoridade", explica Andrade.

IRMANDADE

O especialista afirma que a perda de membros do grupo é, de fato, um sentimento de perda familiar, como é possível ver nas mensagens de João sobre Walace. 

Há um pacto entre os elementos do grupo de irmandade, de que vão defender até a morte. Quando eles são presos, vem aquele velho jargão de paz, justiça e liberdade. Quando são mortos, tem a vingança com a morte de um outro rival, para que seja feita a justiça, no entendimento deles
Thiago Andrade

RECADO ABERTO

Um detalhe chama a atenção no perfil de João. Ele parece fazer questão de ser visto. Andrade diz que o objetivo é esse mesmo. "A disputa pelo controle do tráfico de drogas envolve justamente essa questão de você desafiar, desafiar as autoridades públicas e também o grupo rival, mandando esse recado da forma mais desafiadora possível. Ou seja, quanto mais explícita uma arma, o recado do cometimento do crime, a facção passa a ideia de ser mais forte. Tá aqui o recado, a gente não tem medo de nada. Talvez a certeza da impunidade leve esses elementos a fazer isso".

MAIS UM NOME

De acordo com uma outra fonte, João também se apresenta no Facebook com mais um apelido. Nas duas páginas com este nome encontradas pela reportagem, há fotos do Centro de Vitória e dos morros da região, além da mão de um homem, apontando para o Porto de Vitória.

Imagens de crianças, frases de filmes e fotos que mostram o tráfico e o mundo do crime também fazem parte das publicações. As últimas postagens públicas desses perfis foram em agosto e novembro de 2017, respectivamente.

GUERRA NA PIEDADE

Desde a morte dos irmãos Ruan e Damião, em 25 de março, a guerra do tráfico na Piedade se intensificou. O pesadelo dos moradores ganhou contornos ainda piores após a morte de Walace de Jesus, em 10 de junho. Pelo menos 40 famílias já saíram da comunidade. 

Para o Mestre em Segurança, em linhas abertas, há um conflito entre traficantes rivais, de morros vizinhos, que querem tomar o controle. "Mas, como não estou investigando o caso, não tenho propriedade para apontar nomes", diz. Andrade afirma que a polícia utiliza as redes sociais para identificar e investigar esses criminosos.

PARADEIRO DO JOÃO

Uma fonte da reportagem acredita que o João Ferreira Dias não esteja no morro. "O que está nítido é que tem gente que já foi da Piedade ou da Fonte Grande no meio dessas invasões, porque o caminho que eles percorrem para chegar é difícil, que nem a polícia consegue fazer. Eles vêm da mata, de cima. Quando vêm de baixo, é porque tem gente em cima dando cobertura. Mas não sei quem é o rival do morro. Cada hora as pessoas falam uma coisa".

Os Ferreira Dias são perigosos. Não valem nada. A mãe é pior do que eles. Infelizmente, a Piedade acabou por conta deles
Morador

Já uma moradora desconfia que João esteja na Fonte Grande. Ela também conta que ele é conhecido como "Mata Rindo". "Pra mim, ele tá escondido no Morro da Fonte Grande. Ele domina Moscoso, Piedade, Fonte Grande e Capixaba. É tudo dele e dos irmãos".

O OUTRO LADO

O Gazeta Online demandou a Polícia Civil, na manhã desta terça-feira (19), para saber se a corporação usa nas investigações os perfis desses criminosos nas redes sociais, com o objetivo de acompanhar a movimentação deles. A polícia respondeu: "por questões estratégicas, a Polícia Civil não divulga os meios de investigação".

Também procurado, o secretário de segurança pública Nylton Rodrigues informou que as inteligências da polícia está investigando as postagens."As inteligências das forças de segurança trabalham sempre no monitoramento de criminosos, inclusive na internet. Há o cuidado para verificar se o conteúdo é ou não verídico. As postagens referidas têm sido investigadas. Nosso objetivo é levar tranquilidade à comunidade da Piedade", disse. 

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