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Linhares: tudo o que você precisa saber sobre a prisão de pastora

Juliana Salles, mãe de Kauã e Joaquim, mortos carbonizados após serem estuprados, foi presa na noite de terça-feira (19), em Minas Gerais

Foto: Umberto Lemos | InterTV

A quarta-feira (20) começou com a notícia da prisão da pastora Juliana Salles, mãe dos irmãos Kauã Salles Butkovsky, de 6 anos, e Joaquim Alves, de 3, mortos carbonizados no dia 21 de abril, após, segundo a Polícia Civil de Linhares, terem sido estuprados pelo pastor Georgeval Alves.

Juliana Salles foi presa na cidade de Teófilo Otoni, em Minas Gerais, ainda na noite de terça-feira (19). Ela estava com o filho caçula, de 2 anos, na casa de um dos pastores da Igreja Batista Vida e Paz, da qual Juliana e Georgeval eram líderes em Linhares.

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O mandado de prisão foi expedido pelo juiz André Bijos Dadalto, da 1ª Vara Criminal de Linhares, horas depois em que a Justiça aceitou a denúncia do Ministério Público Estadual contra Juliana e Georgeval Alves. O pastor está preso desde o dia 28 de abril acusado pela polícia de ter estuprado e matado o filho e o enteado.

O VÍDEO DA PRISÃO

Juliana Salles chorou bastante durante a prisão na cidade mineira. Imagens da TV Leste/Record Minas, cedidas pela TV Vitória ao Gazeta Online, mostram a pastora algemada, enquanto era conduzida por policiais.

 

 

POR QUAL MOTIVO ELA FOI PRESA?

Na denúncia, a promotora Rachel Tannenbaum, da 2ª Promotoria Criminal – crimes dolosos contra a vida – de Linhares, responsável pelo caso, acusa a pastora Juliana de ter conhecimento do risco que as crianças sofriam por estarem sozinhas com o pastor Georgeval, o que caracteriza omissão por parte de Juliana.

A promotora informou que o pastor George vai responder na Justiça por: dois homicídios qualificados; dois estupros de vulneráveis; dois crimes de tortura; e fraude processual por ter alterado a cena do crime. A pastora Juliana, apesar de não estar em casa no dia do crime, vai responder também por dois homicídios; dois estupros de vulnerável; e também por fraude processual.

Rachel Tannenbaum, da 2ª Promotoria Criminal - crimes dolosos contra a vida - de Linhares
Rachel Tannenbaum, da 2ª Promotoria Criminal - crimes dolosos contra a vida - de Linhares
Foto: Ariele Rui | TV Gazeta

O juiz André Dadalto determinou que a prisão fosse cumprida pelo Grupo Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) Norte, que tentou cumprir o mandado ainda em Linhares, na última segunda. Os promotores descobriram, então, que Juliana estava em outro estado. O Gaeco Norte pediu ajuda ao Gaeco em Minas Gerais, que conseguiu cumprir o mandado na noite desta terça, na cidade de Teófilo Otoni.

'PASTORA PODERIA TER EVITADO TODA A TRAGÉDIA'

A promotora do Ministério Público de Linhares, Rachel Tannenbaum, disse ainda que a morte das crianças poderia ter sido evitada e reforçou que o MP acusa Juliana Salles, mãe das vítimas, de omissão.

Foto: TV Leste | Record MG

Na avaliação de Rachel Tannenbaum, que denunciou a pastora, Juliana "foi omissa e, por saber da personalidade confusa de George Alves e poderia ter evitado a tragédia" ao não permitir que o assassino ficasse por um longo período sozinho com as crianças, sem que, contudo, tivesse tomado alguma providência efetiva no sentido de evitar os abusos sexuais e a morte de Kauã e Joaquim.

Juliana deixou as crianças à mercê de um homem perturbado, confuso quanto a sua sexualidade, por ele sempre ter tido relação conturbada com as crianças e por menosprezá-las constantemente. O desvio de caráter de Georgeval também foi considerado

"O Ministério Público já tinha percebido que havia indícios de que era crime doloso contra a vida, tanto é que, internamente, já foi levado para a segunda promotoria criminal, que tenha atribuição com crimes dolosos contra a vida. No final, quando houve a conclusão do inquérito pela polícia, o MP percebeu que havia outros indícios. Com isso, ele requereu novas diligências e no âmbito tivemos provas contundentes de que a Juliana tinha conhecimento do despreparo do Georgeval. Na última segunda, logo no começo do dia, o MP ajuizou a ação penal em desfavor dela. Hoje, os dois são formalmente réus", afirmou a promotora, que fez questão de especificar por quais crimes a pastora responderá.

"Assim como o Georgeval, a Juliana também responderá por dois crimes de homicídio qualificado, dois crimes de estupro, dois crimes de tortura e por fraude processual. 'Ah, mas por qual motivo ela responderá pelos crimes sem nem ter estado na cena do crime?'. Ela responderá porque o Ministério Público entende que ela deixou as crianças à mercê de um homem perturbado, confuso quanto a sua sexualidade, por ele sempre ter tido relação conturbada com as crianças e por menosprezá-los constantemente. O desvio de caráter de Georgeval também foi considerado."

PASTORA FICARÁ EM CELA ISOLADA

A mãe das crianças, a pastora Juliana Salles, muito abalada precisou ser amparada pelo pai e por familiares em vários momentos durante o enterro
A mãe das crianças, a pastora Juliana Salles, muito abalada precisou ser amparada pelo pai e por familiares em vários momentos durante o enterro
Foto: Carlos Alberto Silva

A pastora Juliana Salles deverá ficar isolada no Presídio Feminino de Colatina, onde ficará presa após transferência dela de Minas Gerais para o Espírito Santo. A coluna Leonel Ximenes, do Gazeta Online, apurou com fontes de dentro do centro prisional que o isolamento servirá para garantir a segurança dela, já que outras detentas podem agredi-la ou até violentá-la, dada a natureza do crime pelo qual a pastora é acusada. A apreensão nos corredores do presídio é grande.

Até o fim da noite desta quarta-feira (20), a pastora Juliana Salles estava no presídio de Teófilo Otoni. Antes, porém, ela passou pelo procedimento de praxe de exame de lesões corporais no Instituto Médico Legal (IML) do município e, em seguida, foi encaminhada para o presídio. 

E O QUE ACONTECE COM O FILHO CAÇULA?

O filho de dois anos do casal, que estava em Teófilo Otoni, em Minas Gerais, onde Juliana foi presa, já está sob a tutela do Conselho Tutelar da cidade mineira. As informações são de que ainda está sendo decidido como a criança será trazida para o Espírito Santo.

Filho caçula (centro)
Filho caçula (centro)
Foto: Acervo Pessoal

Uma das possibilidades consideradas é a de que um membro do Conselho Tutelar mineiro traga o garoto de 2 anos para o Espírito Santo. Outra alternativa seria uma pessoa do Conselho de Linhares seguir para Minas para buscá-lo. Quando chegar, a criança vai passar por uma avaliação das condições de saúde. Será ainda conduzido um estudo familiar para identificar quem são os membros da família que estarão aptos a ficar com a guarda provisória.

“Em situações de risco, quando a criança não pode ser cuidada pelos pais, que no caso estão presos, o Estatuto da Criança e do Adolescente estabelece que será feita uma avaliação da chamada família extensa, ou seja, avós, tios e outros familiares”, relatou a a promotora da Infância de Linhares, Graziella Maria Deprá Bittencourt Gadelha, em entrevista concedida na manhã desta quarta-feira (20).

Foto: Gazeta Online

A promotora solicitou, na última segunda-feira (18), medidas de proteção para a criança. “Solicitamos as medidas protetivas e o juiz da 1ª Vara Especializada da Infância e da Juventude de Linhares, Gideon Drescher, aceitou e determinou as regras de proteção”, explicou.

Pela decisão do juiz, a guarda da criança não poderá ser entregue para a avó materna, mãe de Juliana, uma vez que o juiz entendeu que, em decorrência da denúncia criminal, há riscos para o menor. Vão ser avaliadas outras pessoas da família.

O QUE A PASTORA FAZIA EM MINAS GERAIS?

Os advogados de defesa que representam o pastor George Alves e também a esposa dele Juliana Salles, disseram que ela não estava foragida ou escondida. A defesa informou que a pastora estava em Teófilo Otoni para fazer acompanhamento médico psiquiátrico, por conta da repercussão do caso e ameaças de morte que ela vinha sofrendo em Linhares.

Foto: Umberto Lemos | InterTV

Na cidade mineira, eles disseram que Juliana também era acompanhada por pastores da Igreja Batista Vida e Paz, sendo cuidada por eles e inclusive frequentando os cultos.

FAMÍLIA DE KAUÃ ORGANIZA PROTESTO

Após a prisão da pastora Juliana Salles, a família do menino Kauã Salles Butkovsky, de 6 anos, organiza um protesto pedindo justiça pela morte do menino e do irmão dele, Joaquim, 3 anos. Os dois foram violentados e queimados pelo pastor Georgeval Alves no dia 21 de abril, em Linhares - padrasto e pai das crianças, respectivamente. O ato está marcado para o dia 1º de julho, às 10h, na Praia de Camburi, em Vitória, com saída em frente ao Hotel Canto do Sol. A avó paterna - mãe do pai de Kauã -, Marlucia Butkovsky, confirmou a ação ao Gazeta Online.

Família organiza protesto pedindo justiça pela morte dos irmãos Kauã e Joaquim
Família organiza protesto pedindo justiça pela morte dos irmãos Kauã e Joaquim
Foto: Reprodução/Facebook

Nas redes sociais, a tia de Kauã, Raysa Butkovsky, divulga o evento "Justiça Kauã e Jhoa". Ao compartilhar a caminhada em sua página no Facebook, Raysa pede mudança nas leis.

"Como todos sabem nos foi tirado o nosso bem mais precioso, Kauãzinho. Para que essa situação não saia impune, mediante a tanta monstruosidade, realizaremos um PROTESTO por todas as crianças que sofrem ou já sofreram abuso sexual. Em especial, pediremos JUSTIÇA e MUDANÇA NAS LEIS BRASILEIRAS para crimes hediondos. Não é possível que um crime com tamanha brutalidade e frieza caia no esquecimento".

O cartaz que circula nas redes sociais diz: "Faça bonito. Proteja nossas crianças e adolescentes. Vamos caminhar juntos contra o abuso sexual de crianças e adolescentes. Contra a impunidade, contra o silêncio, contra a violência!".

AVÓ DE KAUÃ PEDE JUSTIÇA

Marlúcia Butkovsky Loureiro, comerciante, avó de Kauã
Marlúcia Butkovsky Loureiro, comerciante, avó de Kauã
Foto: Fernando Madeira

Uma sensação de satisfação misturada com muita tristeza. É assim que a avó paterna do menino Kauã Salles Butkovsky, de 6 anos, vê a prisão de Juliana Salles. Em entrevista ao Gazeta Online, na manhã desta quarta-feira (20), Marlucia Butkovsky, 56 anos, conta como o filho, Rainy Butkovsky - pai do Kauã -, reagiu à prisão e afirma que a família contratou um advogado para ser assistente de acusação. Para a avó, qualquer pessoa que tenha participado ou sido convivente com o crime precisa pagar.

A ENTREVISTA

Vocês já sabiam da prisão da Juliana? Isso a gente já sabia desde ontem. Graças a Deus.

Vocês contrataram um advogado para ser assistente de acusação? Sim.

A senhora sabe o motivo de ela ter sido presa?

Oficialmente, o porquê não. Mas, com certeza, alguma conivência, de alguma coisa em relação a mesmo depois do acontecido.

Por que vocês contrataram um advogado? Começaram a desconfiar dela?

Pra nós, não importa nome. Eu acho que quem participou, quem sabia, que teve conivência com isso aí, vai pagar. Isso é com certeza. Seja quem for, quem for. Porque o que aquele monstro fez, não tem justiça nessa terra. Não tem. Infelizmente, quem estava sabendo de alguma coisa, vai pagar, porque Deus é justo. Não aquele Deus deles cheio de fogo.

Então vocês acham que ela tinha algum tipo de conivência, não que ela participou diretamente do crime?

Eu acredito que, com certeza, descobriram alguma coisa. Pra isso a polícia está fazendo.

Qual é a sensação de vocês ao saber da prisão?

É uma sensação que a gente sabe que o negócio está andando. A gente fica satisfeito de saber que está andando. Como te falei, se qualquer um que tenha participação, que soube disso antes do evento ou que foi conivente depois do acontecido, vai pagar. Duas crianças inocentes, inclusive meu neto, meu único neto. Ele (George) fez aquela barbaridade toda com aquelas crianças. Ele não pode ficar impune e quem soube, que foi conivente, tem que pagar. De um jeito ou de outro, tem que pagar.

Como vocês estão vivendo depois disso tudo?

Um dia após outro na presença de Deus. Pedindo misericórdia a Deus para poder suportar isso tudo.

Vocês desconfiavam do George ou da Juliana em algum momento ou as desconfianças começaram depois que toda essa tragédia veio à tona?

Até então, a gente nunca soube de nada. Como a gente não sabia, a gente só sabia que ela ia para aquela igreja lá. Quando vai para igreja, você acha que é coisa boa. Depois de tudo isso, não tem como. Agora, se ela foi negligente, pode ter certeza, que ela paga também. E se mais alguém tiver conivente com isso, que soube, que apoiou, vai ser punido também. Pode ter certeza.

Mas você acha que tem mais gente envolvida no caso?

Eu não posso dizer. Mas, se tem, pode ter certeza absoluta, vai pagar e vai pagar feio.

E o Rainy, como ele está lidando com isso tudo?

Depois que ele soube da notícia, ele saiu aqui do restaurante, se revoltou agora. Daqui a pouco ele volta.

Ele tá muito nervoso? Ficou satisfeito com a prisão dela?

A gente fica satisfeito porque sabe que a situação está andando, não tá ficando parada. Mas, no fundo no fundo, ninguém fica feliz com uma situação dessa. Uma mãe, como a gente tem visto tanta notícia de mãe, de pai negligente. É impossível. Não tem como.

A reportagem tentou contato com familiares de Juliana, mas as ligações não foram atendidas.

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