Walace de Jesus Santana

Terror na Piedade: a vida e morte do braço direito do "dono do morro"

Um parente e um ex-morador da região contaram a trajetória de Walace de Jesus Santana, 26 anos, do passado com familiares assassinados até sua execução na madrugada de sábado para domingo

Publicado em 11/06/2018 às 13h54

* Por Eduardo Dias e Laila Magesk 

Uma família marcada pelo crime e por tragédias. Era fevereiro de 2010 quando o jovem Walace de Jesus Santana, aos 18 anos, perdeu a prima estuprada e morta a pauladas com apenas 14 anos. Michele Frederico Messias foi encontrada sem vida no dia 23 fevereiro daquele ano, dentro de um prédio abandonado do antigo Colégio Americano Batista, na região do Parque Moscoso. Ela tinha desaparecido no trajeto entre a casa da avó e a da tia, no dia anterior.

Apenas três dias depois de Michele ser encontrada, a tia do garoto, Adanília Frederico, 55 anos, foi atingida no braço e no peito quando subia uma ladeira no Morro da Piedade. Testemunhas relataram à polícia que vários homens passaram gritando: "Cadê os caras do morro? Cadê os 'comédia'? Vamos invadir". Em seguida atiraram em várias direções. O fato aconteceu por volta das 15h. Cerca de oito horas depois, ela morreu.

> MAIO | Morador é executado a tiros no Morro da Piedade

A partir daí, revoltado com a morte das duas familiares, começou a trajetória de Walace no mundo do crime, do soldado raso do tráfico até o posto de braço direito do "dono do morro", que terminou com sua execução às 6h30 da manhã do último domingo (10), no mesmo local onde, numa coincidência trágica, perdeu a tia.

Segundo um familiar dele, que não quer ser identificado por questões de segurança, Walace morava em frente à casa da tia e tinha contato diário com ela. "A tia dele veio de São Paulo para cuidar do neto e morreu na troca de tiros. Aí foi a hora que ele ficou revoltado e ficou nessa vida. Ela era tia dele. Já é o segundo caso na família. Depois desse crime, ele se revoltou e entrou nessa vida", lembra.

"NÓS SOMOS SÓ MAIS UM"

O primo fala da tristeza por mais uma perda. "Como já é o terceiro (assassinato), a família fica em estado de choque. Quando acontece uma coisa dessa, dá tristeza. O maior índice de morte vem dos negros, da classe baixa. Infelizmente, é o que está acontecendo com a gente. Nós somos só mais um no índice de criminalidade da família negra de baixa renda da sociedade", desabafa.

"TODO DIA É UMA GUERRA"

Somente no domingo, o familiar conta que cinco casas de parentes de Walace foram desocupadas. Os parentes estão com medo de ficar no local. De acordo com ele, a "Piedade tá que nem o Iraque"."É a Faixa de Gaza. Todo dia é uma guerra. Gangue rival invade o morro e já tem até preferência: sábado, domingo e segunda. Quando a polícia vai embora, vira as costas, eles voltam de novo. Não tem horário para eles poderem aterrorizar moradores. É de manhã, à noite. o clima está ruim. Todo mundo tá se mudando das suas casas, para pagar um aluguel que nem tem condições. O bairro da Piedade já foi um lugar muito bom para morar. Mas hoje em dia, já não dá mais", diz.

> JUNHO | Moradores aproveitam presença da polícia para se mudar da Piedade

Para o morador, com a entrada de gangues rivais no morro, "as coisas só vão piorar". "São outras pessoas, outro tipo de reação", avalia o homem que também já se mudou do local por medo.

"ESSE CARA ME TIROU DE CASA"

Após entrar para o tráfico de drogas, segundo um ex-morador da Piedade, Walace cometeu vários crimes. O homem, que também não será identificado por questões de segurança, conta que foi expulso de casa por ele. "O cara tirou mais de 17 pessoas lá de cima, porque senão ia morrer. Eu fui ameaçado de morte, tô morando em um lugar escondido. Esse cara foi na minha porta junto com outro traficante me tirar de casa", denuncia.

Segundo ele, Walace "tem vários crimes nas costas". "Ele tá pagando pelo o que ele fez. Se eu plantar aqui, eu vou colher aqui. Eu conheço ele desde pequeno, mas nunca convivi. Até porque, quando ele era menor, a família dele foi morrendo, morrendo, e ele começou nessa vida do crime", conta.

> MARÇO | Família do tráfico domina Piedade e impõe terror, diz morador expulso

"O Walace virou o braço direito do traficante que manda no morro. Tudo que ele mandava, o Walace fazia. Ele era bem ligado à chefia", afirma.  

VINGANÇA

O comandante-geral da PM, coronel Alexandre Ramalho, afirmou que a característica desse crime mostra um viés muito forte ligado ao tráfico de drogas, onde bandidos vieram para matar Walace de Jesus, 26 anos, que também já tem passagens por tráfico de drogas e roubo. "Ele é suspeito de um roubo a uma relojoaria no Centro de Vitória. Essa investigação já está com a Polícia Civil. Mas nós podemos assegurar a sociedade de bem da Piedade que a Polícia Militar está aqui para a segurança deles", destaca.

Ramalho completou que "efetivamente já está comprovado que as pessoas que cometeram esse homicídio não estão na Piedade". "Por isso, nos reforça essa ideia de vir exclusivamente executar esse indivíduo, como se fosse uma vingança. E essa característica é muito marcante nos crimes ligados ao tráfico de entorpecentes", afirma.

Ainda de acordo com informações da Polícia Militar, foram disparados mais de 40 tiros.

A MORTE DE WALACE

A noite deste sábado (9) foi de medo para moradores do Morro da Piedade. Os tiroteios começaram por volta das 20h30, quando cerca de 20 homens armados entraram na comunidade ameaçando moradores. A Polícia Militar foi até o local, chegou a trocar tiros com os bandidos e, durante a madrugada, os tiros chegaram a cessar. No entanto, assim que a PM deixou o local, novos disparos foram feitos e um homem foi morto.

Walace de Jesus Santana, de 26 anos, foi assassinado às 6h30 da manhã deste domingo (10), em uma rampa, próximo da sede do projeto social Raízes do Samba. Os bandidos invadiram a casa de sua mãe, onde ele estava, junto com a avó, de 96 anos, um irmão e a cunhada. Walace conseguiu escapar pela janela e correu pelos becos da comunidade, mas um outro grupo de bandidos estava à espera do rapaz. 

Ele foi atingido com diversos tiros de muitas armas diferentes, entre elas os calibres 380, 9 milímetros e calibre 12. Em seguida, o grupo expulsou a avó, o irmão e a cunhada da vítima de casa e ateou fogo no imóvel. De acordo com familiares, que não quiseram se identificar, a vítima tinha envolvimento com o tráfico de drogas.

O Corpo de Bombeiros precisou ser acionado e, após a Polícia Militar retomar o controle da região, eles conseguiram apagar o incêndio. Os bombeiros tiveram dificuldade de chegar até o local, já que as vielas onde o crime aconteceu são estreitas e não permitem a passagem de carros.

> MARÇO | Em carta, moradora da Piedade relata medo e domínio do tráfico

Um dos quartos ficou completamente destruído. A avó, de 96 anos, ficou em estado de choque, segundo familiares. Ela foi levada para a casa de um conhecido. Walace deixa três filhos, um de 7 anos, um de 4 e outro de 6 meses. Diversas viaturas da polícia e um helicóptero foram utilizados na busca por suspeitos na região. Até o fechamento da reportagem, ninguém havia sido preso.

MORADORES RELATAM SITUAÇÃO DE GUERRA

Os tiroteios já se tornaram comuns na região. Segundo moradores, os traficantes da Piedade estão em guerra com criminosos do morro da Fonte Grande. Eles afirmam que do grupo de 20 pessoas que invadiu a comunidade na noite de sábado, nenhum deles morava no local. Há a suspeita de que traficantes de outras localidades e de facções rivais tenham coordenado o ataque.

“A polícia veio e a gente parou de ouvir os tiros. Acredito que esse grupo tenha vindo pela mata, que cerca o morro. Eles se esconderam quando a polícia veio e assim que perceberam que eles saíram, voltaram a atacar. Aqui está um inferno”, diz um morador, que prefere não se identificar.

> MARÇO | Crime na Piedade: grupo pede justiça para caso de irmãos assassinados

Quem cresceu no local conta que a situação tem ficado cada dia mais complicada, por conta das constantes disputas pelo tráfico da região.

“Já foi um lugar tranquilo para morar, mas hoje todo mundo está descendo e indo morar em outro bairro. Eles entram na casa não só de quem é traficante, mas de quem tem parentesco com eles. É muito difícil. A gente quer mais segurança, nossos filhos já crescem acostumados a ir para debaixo da cama quando ouvem tiros. Tivemos que mudar o quarto de lugar por medo de bala perdida”, afirma uma mãe.

As pessoas que moram na Piedade e voltam do trabalho a noite também enfrentam dificuldades para entrar em casa. Quem também estuda neste horário revela que os bandidos andam armados na rua e ameaçam quem estiver passando, independente de atuar no tráfico ou não.

“Eu estava vindo para casa a noite e vi um homem gritando para parar. Eu preferi não arriscar e voltei para o Centro. Fui dormir na casa da minha namorada. Quem trabalha a noite, só volta no dia seguinte. Eles atiram sem nem querer saber se é bandido ou trabalhador”, conta.

FESTA JUNINA FOI DESMARCADA APÓS CRIME

Uma festa junina que estava programada para acontecer neste domingo, às 18h, na quadra da escola de samba da Piedade foi desmarcada por conta do homicídio. Segundo uma publicação nas redes sociais, a bateria da escola estava ansiosa para voltar aos trabalhos, mas o crime deixou todos de luto.

Um dos membros da bateria da Piedade e coordenador do Círculo Palmarino, uma organização de combate ao racismo, Lula Rocha afirma que a comunidade está abandonada e pede mais presença do Estado na região.

“Desde a morte dos irmãos Ruan e Damião a gente percebe a intensificação deste conflito em Vitória e a Piedade é onde essa guerra está mais acirrada. Nenhuma medida por parte do Estado foi tomada, não dá para continuar aceitando que mais jovens negros sejam mortos. Falta investimento em programas sociais, já que até coisas de primeira necessidade não chegam lá, como vacinas e coleta de lixo. Também falta uma apuração mais adequada dos crimes que acontecem nestes territórios. Ninguém revelou quem matou Ruan e Damião. Se fosse na área nobre da cidade, com certeza esses autores já teriam sido identificados”, analisa.