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Homens acham que são "donos das mulheres"

Especialistas reforçam que casos de violência contra as mulheres praticadas por companheiros ou ex-companheiros têm, em regra, motivações culturais

Cláudia Dematté e Cláudia Garcia, delegada e promotora de Justiça
Cláudia Dematté e Cláudia Garcia, delegada e promotora de Justiça
Foto: Arquivo

As cruéis histórias de violência física contra mulheres conhecidas em um único domingo de fechamento de feriado prolongado têm o mesmo pano de fundo: motivações machistas que, embora possivelmente não reconhecidas dessa forma por quem as praticou, continuam matando os sonhos e honra de mulheres no Estado.

Em Vila Velha, uma jovem foi agredida pelo marido com machadinha na cabeça. Já na Serra, um homem ateou fogo na ex-mulher na frente dos filhos. Os casos de ontem são realidades que continuam desafiando as campanhas de conscientização e os trabalhos em favor da proteção delas. Especialistas reforçam que casos de violência contra as mulheres praticadas por companheiros ou ex-companheiros têm, em regra, motivações culturais. Em outras palavras, partem de homens que acham que as mulheres são propriedades deles e que, por isso, tudo podem.

“A violência é fruto de machismo, da sociedade patriarcal. Em geral, mulheres morrem porque o homem está com ciúmes, não aceita o término do relacionamento, não aceita que a mulher ocupe novos espaços. A supervalorização do masculino em detrimento do feminino é um fator gerador de violência. A educação é a forma de desconstruir valores machistas e a violência”, afirmou a promotora de Justiça Claudia dos Santos Garcia, coordenadora estadual do Núcleo Estadual de Enfrentamento às Violências de Gênero em Defesa dos Direitos das Mulheres, do Ministério Público.

A delegada Cláudia Dematté, chefe da Divisão Especializada de Atendimento à Mulher, destaca que as mulheres não podem sofrer caladas.

“Muitas se calam por vergonha da própria família, dos vizinhos, dos amigos, de ser julgada, por causa dos filhos. Mas a Polícia Civil orienta que elas não se calem e denunciem os agressores. Infelizmente, muitos homens veem a mulher como propriedade, submissa, o que é inaceitável. Quem ama não agride, não xinga, não humilha, não ameaça, não desrespeita”, afirmou.

ENSINAR

A professora da Ufes e coordenadora do Laboratório de Pesquisas sobre Violência Contra a Mulheres no Espírito Santo, Brunela Vincenzi, avalia que as campanhas governamentais devem ser cada vez mais educativas e buscar explicar às pessoas como e quais são as violências do dia a dia contra o público feminino.

“A Lei Maria da Penha traz cinco formas de violência (física, psicológica, patrimonial, moral e sexual). Mostro na minha aula que pedir o salário da mulher no fim do mês, por exemplo, é um tipo de violência, a patrimonial. É necessário admitir os fatos e conscientizar as pessoas”, disse.

A estudiosa também chama a atenção para os casos de agressões nos finais de semana, sobretudo quando há consumo de álcool.

“Pesquisas empíricas mostram que quando se fica mais em casa o conflito escala, a violência aumenta. Não estou recomendando ou achando certo que a mulher saia de casa para não sofrer, mas, como medida urgente, é importante conhecer essas informações e estatísticas”, frisou.

Ilustração
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Foto: Arabson e Marcelo Franco

CARACTERÍSTICA DO RELACIONAMENTO ABUSIVO

SINAIS QUE A MULHER APRESENTA

Aceitação

Quando está em uma relação abusiva, a mulher apresenta alguns sinais. Um deles é fazer sempre tudo o que não quer para evitar que seu parceiro saia do controle. Deixar de falar ou fazer o que pensa para evitar um problema.

Depressão

Mulheres que sofrem violência doméstica podem apresentar quadros de ansiedade, e depressão. A Organização Mundial de Saúde define esse tipo de violência como um problema de saúde pública, que pode motivar suicídios.

Fobia social

Mulheres em relações abusivas perdem a vontade de sair de casa, de trabalhar. Comem muito ou deixam de comer.

SINAIS QUE O HOMEM APRESENTA

Controle 

Tentativas constantes de impor sua vontade controle excessivo (dos horários, dos afazeres, das roupas e do celular da parceira).

Ciúmes 

Ciúmes em excesso (principalmente as mais jovens devem estar atentas. Ciúme excessivo não é sinônimo de afeto).

Outros tipos de violência 

Nem sempre a violência se traduz em agressão física. Ela pode ser moral, psicológica, sexual e patrimonial. Se o homem é agressivo com palavras, faz ameaças ou tenta afetar a autoestima da parceira, ele está sendo abusivo.

ONDE BUSCAR AJUDA

Psicólogos

Se percebeu alguma coisa estranha dentro no relacionamento, mas ainda não quer denunciar, a orientação é procurar psicólogos na Casa do Cidadão, em Vitória. O suporte também pode acontecer nos serviços dos municípios: em Vila Velha, por exemplo, existe o Centro de Referência no Atendimento Especializado à Mulher em Situação de Violência Doméstica, e em Vitória o Centro de Referência de Atendimento à Mulher em Situação de Violência.

Polícia

A Polícia Civil pode ser procurada mesmo apenas para pedir orientações. Existem 13 delegacias especializadas no Estado e o Plantão Especializado da Mulher, que funciona durante 24 horas em Vitória.

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