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Gerson Camata: em nota, defesa de assassino pede julgamento justo

Os advogados de Marcos Venicio Andrade pedem que o ex-assessor de Camata tenha um julgamento justo, e não um "justiçamento público"

Marcos Venicio Moreira Andrade
Marcos Venicio Moreira Andrade
Foto: Reprodução

Os advogados que fazem a defesa de Marcos Venicio Moreira Andrade, assassino confesso do ex-governador Gerson Camata, morto com um tiro no ombro no dia 26 de dezembro de 2018, divulgaram uma nota nesta segunda-feira (7), em que defendem a garantia da ampla defesa, do contraditório e do devido processo legal para que o ex-assessor de Camata tenha um julgamento justo e não um "justiçamento público".

> Quem foi Gerson Camata?

Eles informaram, ainda, que o ex-assessor de Camata está profundamente triste e arrependido pelo crime. Marcos Venicio foi preso no dia do assassinato, minutos depois de atirar contra o ex-governador. Em depoimento, afirmou que agiu sozinho no crime.

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Na nota, os advogados ainda falam sobre a amizade de Camata com Venicio, que teria começado em 1982. "Marcos nem mesmo imaginava que Gerson Camata tinha vindo a óbito, tomando conhecimento da gravidade da situação e do seu falecimento através de seus advogados, já na delegacia", diz parte da nota.

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Gostaríamos, primeiramente, de externar toda a tristeza e arrependimento do senhor Marcos Venicio com o fatídico ocorrido ao ex-senador da República Gerson Camata, bem como pelo sofrimento causado aos familiares e a todo o Estado do Espírito Santo.

É inegável a dor sofrida com a perda de um ser humano, nesse caso, em específico, com a perda da uma pessoa pública, bastante expressiva, que deixou um enorme legado para o povo capixaba.

Contudo, é preciso que o processo se atenha às evidências para não deixar que o sentimento de revolta o contamine e que se condene previamente quem quer que seja. Todo indivíduo tem direito a um julgamento justo, que resguarde direitos e garantias constitucionais, o que não poderá ser diferente no presente caso em destaque.

O marco inicial da amizade e relacionamento entre Gerson Camata e Marcos Venicio se deu na eleição de Camata para o governo do Estado do Espírito Santo, em 1982. Por sua honestidade e caráter, Marcos recebeu a confiança de Camata e passou a ser o responsável por toda a parte financeira das campanhas eleitorais.

Ele teve acesso à intimidade do então governador, assim como aos valores recebidos e pagos durante os 20 anos em que prestou serviços para o ex-senador. Além de desempenhar a função de assessor parlamentar, era assessor para assuntos particulares de Camata, tinha chaves de sua casa, fazia pagamentos pessoais, abastecia a residência dele com mantimentos, atendia seus filhos menores sempre que necessário, transportando-os dentro da cidade ou, por vezes, levando-os até seus familiares no interior. Além disso, realizava pagamentos de funcionários domésticos, entre outros, havendo, assim, mais do que que uma relação de trabalho entre eles.

Em 2003, Marcos passou a presidir o Banestes Seguros, cargo que ocupou até o final de 2005, quando à frente da seguradora, sua personalidade honesta e correta, acabou colidindo com alguns pedidos não muito éticos e, por fim, com uma solicitação de um importante político do nosso Estado para pagamento do sinistro de seu carro, uma vez que a seguradora havia negado.

Ao manter a negativa de pagamento e não atender ao pedido do conhecido político, por coincidência, mesmo com excelente desempenho à frente da seguradora, sua carreira foi interrompida por uma súbita exoneração imotivada.

Marcos, aos 53 anos, se viu desempregado. A partir daí, as portas do meio político se fecharam, simplesmente por ter sido honesto. As portas foram fechadas inclusive pelo ex-senador Camata, quando se rompeu a relação de amizade.

Além do emprego, Marcos perdeu o amigo, a quem considerava um irmão. A dor profunda e o sentimento de abandono o abateram, dando início a um verdadeiro calvário. Marcos entrou em depressão profunda entre os anos de 2006-2009, quando fez as primeiras denúncias relacionadas ao Camata.

Em 2009, ainda bastante magoado, revelou supostos desfalques nos caixas de campanha do ex-senador e diversos pagamentos que teriam sido feitos com as sobras das campanhas a parentes dele e de sua esposa, de modo a não devolvê-las ao partido.

Até onde se sabe, as denúncias foram dadas como infundadas, apesar de Marcos ter apresentado vários documentos que as comprovassem. Nesse contexto, foram quase 10 anos de sofrimento e angústias, que culminaram com o descontrole emocional visível do último dia 26/12. Laudos médicos e o testemunho de amigos comprovarão a gangorra emocional que ele viveu por anos, entrando e saindo de crises depressivas recheadas de remédios para ansiedade e depressão, alterações de humor, comportamento bipolar e esquizofrenia.

O motivo apresentado pela acusação não justifica o homicídio mas, para análise adequada do fato ocorrido, é fundamental que se respeite e entenda a linha histórica

dos fatos narrados. O que se clama agora é por um julgamento justo, por um inquérito decente, em que o sensacionalismo e o clamor popular não tenham espaço.

Destaca-se que Marcos mora na Praia do Canto e o local onde o fato aconteceu é frequentado por ele todos os dias, há muitos anos, mantendo o hábito de fazer suas refeições e comparecer diariamente na padaria local. Ele possui uma conta na banca de revista da esquina e encontra com amigos e comerciantes daquela região diariamente, sendo conhecido e querido por todos, o que não foi apurado nem veiculado pela mídia.

Marcos - conhecido por todos, carinhosamente, como “Marquinhos” -, nunca respondeu a processo criminal de qualquer natureza que fosse.

Infelizmente, o Relatório Final do Inquérito Policial, que serviu de base para o Ministério Público oferecer a denúncia, foi consubstanciado somente por elementos recentes e depoimentos de testemunhas que presenciaram o fato, não apurando e levando em consideração o contexto histórico que alimentou desentendimentos mútuos.

Prova e convicção não são sinônimos. A convicção processual depende de provas que estejam dentro do processo e que não sejam apenas presunções, principalmente, quando essas convicções são internas de quem julga ou investiga. Ainda mais quando se trata de uma vítima com tanta notoriedade e respeito, em um caso amplamente midiático e de grande clamor público.

Por fim, Marcos nem mesmo imaginava que Gerson Camata tinha vindo a óbito, tomando conhecimento da gravidade da situação e do seu falecimento através de seus advogados, já na delegacia.

O que de fato defendemos é a garantia da ampla defesa, do contraditório e do devido processo legal, para que Marcos Venicio Moreira Andrade tenha um julgamento justo e não um “justiçamento” público.

Acreditamos sempre no Poder Judiciário do ES.

VITORIA/ES, 07 de janeiro de 2019.

LAYLA FREITAS

OAB/ES

JÚNIA KARLA PASSOS RUTOWITSCH RODRIGUES

OAB/ES 20.321

ZACARIAS FERNANDES MOÇA

OAB/ES

O CRIME

Foto: Internauta | Gazeta Online

O ex-governador do Espírito Santo Gerson Camata, 77 anos,  foi assassinado no dia 26 de dezembro de 2018 na Praia do Canto, em Vitória. O crime ocorreu em frente a um restaurante próximo à esquina das ruas Chapot Presvot e Joaquim Lyrio.

O ex-governador foi atingido por um tiro no ombro esquerdo, que transfixou todo o corpo e saiu no ombro direito, depois de atingir órgãos vitais. Ambulâncias chegaram a ser acionadas, mas Camata não resistiu ao ferimento.

Foto: Patrícia Scalzer

Sobrinho do ex-governador, o policial rodoviário federal Edmar Camata foi ao local do crime. Lamentou a morte do tio, e desabafou sobre a violência.

A reflexão que fica é sobre a banalização da vida. Mesma banalização que a gente vê em uma área pobre, é a mesma que em uma área rica. A vida vale pouco, as pessoas matam por nada... Mudar isso requer um envolvimento coletivo, uma visão ampla, que não é só liberar arma e produzir mais violência
Edmar Camata

O emedebista morava na Ilha do Frade, em Vitória, mas constantemente ia à Praia do Canto, também na Capital. Ele estava, de acordo com Edmar Camata, sozinho na hora do crime. "Aparentemente, foi uma execução", afirma o policial rodoviário federal.

PRISÃO

A Secretaria de Estado da Segurança Pública afirmou que o suspeito do crime, Marcos Vinicius Andrade, 66 anos, foi detido e levado para o Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP). Marcos é ex-assessor de Camata e autor do disparo que tirou a vida do ex-governador.

O suspeito foi preso por volta das 18h15 desta quarta-feira (26) e presta esclarecimentos na DHPP de Vitória
O suspeito foi preso por volta das 18h15 desta quarta-feira (26) e presta esclarecimentos na DHPP de Vitória
Foto: Ouvinte | CBN Vitória

PERFIL

Gerson Camata se formou em Economia pela Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), e também atuou no jornalismo policial na década de 1960, no programa Ronda Policial, da Rádio Espírito Santo, que era líder de audiência.

Ele iniciou a carreira política em 1967, como vereador de Vitória, pelo partido Arena. Em 1970, elegeu-se deputado estadual, e em 1974, deputado federal pelo Espírito Santo, pelo mesmo partido. Foi reeleito em novembro de 1978 e, com a extinção do bipartidarismo em novembro de 1979 e a consequente reorganização partidária, filiou-se ao PMDB, de oposição ao governo. Em 1981, casou-se com a ex-deputada federal Rita Camata.

Gerson Camata quando esteve no estúdio da Rádio CBN
Gerson Camata quando esteve no estúdio da Rádio CBN
Foto: Vitor Jubini | Arquivo | GZ

Em 1982 lançou sua candidatura ao governo do Espírito Santo, e venceu o pleito com 67% dos votos. Gerson foi o primeiro governador eleito após a redemocratização, e comandou o Estado de 1983 a 1986. Em 1986, desincompatibilizou-se para concorrer ao Senado, sendo substituído pelo vice-governador José de Morais.

Gerson Camata atuou na Assembleia Nacional Constituinte. Na mesma ocasião, sua então esposa, Rita Camata, que concorreu a deputada federal constituinte e se elegera como a mais votada no estado, também assumiu seu mandato. Reelegeu-se em 1994 e em 2002, totalizando 24 anos de atividade no Senado.

> FOTOJORNALISMO | O velório do ex-governador Gerson Camata

No último mandato, em maio 2006, assumiu a Secretaria de Desenvolvimento, Infraestrutura e Transportes do Espírito Santo a convite do governador Paulo Hartung e ficou no cargo até novembro.

De seu casamento com Rita Camata, teve um casal de filhos, Bruno e Enza Rafaela.

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