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Luminol, DNA e testes: perícia desvendou morte de Kauã e Joaquim

Para solucionar o crime que chocou o Espírito Santo, foram realizadas cinco perícias na casa onde um incêndio matou os irmãos Kauã e Joaquim. Trabalho foi fundamental para nortear as investigações

Corpo de Bombeiro fazendo perícia na casa da família em Linhares
Corpo de Bombeiro fazendo perícia na casa da família em Linhares
Foto: Kaio Henrique | TV Gazeta

Desvendar o passo a passo da madrugada de 21 de abril de 2018, quando os irmãos Kauã Salles Butkovsky, de 6 anos, e Joaquim Salles Alves, de 3 anos, morreram em um incêndio na casa onde moravam com a família, no Centro de Linhares, foi uma tarefa bastante trabalhosa para as equipes que atuaram nas investigações. Para montar esse quebra-cabeça, a Perícia Criminal teve um papel fundamental. Exames como luminol, DNA e testes com fogo ajudaram a identificar que a tragédia, na verdade, era um crime.

O trabalho foi realizado pela Polícia Técnico-Científica, Polícia Civil e Corpo de Bombeiros. Em cinco perícias, foi possível encontrar peças-chave da investigação, como respingos de sangue das vítimas pela casa e a presença de um combustível, que incriminaram o pastor George Alves e indicaram que ele estuprou, agrediu e queimou vivos seu filho Joaquim e seu enteado Kauã, segundo as investigações. 

Uma das primeiras pessoas a entrar no local do incêndio foi o tenente-coronel Ferrari, que é perito e na ocasião atuava como comandante do Batalhão do Corpo de Bombeiros de Linhares. De acordo com ele, desde o início já existia a desconfiança de que havia algo estava errado no primeiro depoimento do acusado.

A versão inicial do suspeito era de que o fogo teria começado após um suposto curto-circuito no aparelho de ar-condicionado, que ficava logo acima dos beliches onde os meninos dormiam. Segundo Ferrari, as imagens das câmeras de segurança mostram que o incêndio se iniciou por volta das 2h20, e os bombeiros chegaram na casa em apenas 10 minutos.

O tempo não seria não seria suficiente para uma destruição tão grande, como a encontrada pela equipe no momento em que entrou na residência para combater o fogo.

“Como o local estava totalmente fechado, havia pouca oferta de oxigênio. Somente quando a porta fosse aberta, as chamas deveriam aumentar. Quando chegamos, percebemos uma destruição grande, incompatível com aquele tipo de incêndio. A não ser que um acelerador tivesse sido utilizado. Um combustível”, detalhou Ferrari, em maio do ano passado, quando a investigação da polícia foi finalizada e o pastor indiciado.

Em seguida, continuando os trabalhos de perícia, ele percebeu que as vítimas haviam sido encontradas no foco do incêndio e não tiveram oportunidade de tentar se salvar, como ocorre em um acidente.

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“Normalmente as pessoas que morrem em um incêndio acidental tentam correr, fugir, e acabam se perdendo no caminho, inalando fumaça e morrendo em seguida, mas longe do foco do fogo”, destacou o tenente-coronel, na época.

Isso levava a crer que Kauã e Joaquim estavam inconscientes no momento em que queimaram. O desmaio poderia ter sido causado pela fumaça inalada, mas outro trabalho de perícia toxicológica descartou a intoxicação.

“O objetivo foi determinar se eles foram dopados, pois não tiveram reação, além de determinar o grau de substâncias que aparecem em vítimas de incêndio, que são o cianeto e a carboxihemoglobina, presentes nos corpos”, revelou o chefe do Departamento de Laboratório Forense, perito Fabrício Pelição.

Com a realização dos exames nas vítimas, os peritos chegaram à conclusão de que os irmãos morreram por conta do fogo, e não tinham índice suficiente de intoxicação para uma perda de consciência, porém, estavam desacordados.

Por conta disso, a versão do pastor de que os meninos estavam gritando e chamando por ele, no momento em que George teria tentado salvar os filhos, começou a ser desmentida.

AS INVESTIGAÇÕES

Imagens mostram terceira perícia em casa incendiada
Imagens mostram terceira perícia em casa incendiada
Foto: Samira Ferreira

O primeiro exame da casa foi feito por um perito plantonista de Linhares. Foram realizados os procedimentos periciais iniciais, como fotografias e recolhimento dos cadáveres. Os corpos foram encaminhados ao Departamento Médico Legal (DML) de Vitória.

O quarto estava escuro e insalubre, além de muito quente, devido ao incêndio. O perito constatou que se tratava de local de exame complexo, o que demandou perícia de caráter multidisciplinar, momento em que foi solicitada a participação das equipes de Polícia Técnico-Científica da capital.

Como o caso era complexo – um incêndio de grande monta e com duas vítimas fatais –, foi acionado o Núcleo de Engenharia, que realizou exame a respeito da causa e dinâmica do incêndio. A equipe foi composta por um engenheiro civil, um engenheiro de segurança e dois engenheiros eletricistas.

Esse foi o momento em que os peritos coletaram as informações que determinariam se a versão dada pelo pastor, de que o incêndio começou pelo ar-condicionado, era compatível com os vestígios que foram encontrados no local do incêndio.

Foi realizado exame na casa em busca de material biológico, como sangue oculto e sêmen, utilizando o luminol e luzes forenses.

O luminol reage com o ferro presente na hemoglobina do sangue, emitindo luminescência (brilho) azulado e, por isso, deve ser feito no escuro. Enquanto que para cada tipo de material biológico (sêmen, urina, saliva, sangue, etc), utiliza-se uma fonte de luz diferente (comprimento de onda/cor), como luz ultravioleta e luz infravermelha, identificando a possível presença dos materiais no local, que seriam encaminhados a exames laboratoriais.

SANGUE NO BANHEIRO

Na casa onde morava a família dos pastores, os peritos coletaram materiais encontrados a partir dessas técnicas. O principal material encontrado foi o sangue de Joaquim. Vestígios foram achados no box do banheiro social da residência e nos restos da escrivaninha incendiada no quarto dos irmãos.

Foram realizados exames no carro apreendido que estava sendo utilizado pelo pastor. Os peritos estavam em busca de mais material biológico, como sangue oculto. Para isso, foi utilizado o reagente químico luminol novamente, além de luzes forenses.

Além disso, os peritos encontraram um galão, que teria sido lavado, cujo conteúdo foi encaminhado ao Laboratório de Química Legal para verificar a presença de substância inflamável. O resultado dos exames realizados no galão e no quarto que pegou constatou a presença de combustível derivado de petróleo.

CONCLUSÃO

Peritos voltaram à casa para realizar medições e coletar material para o exame do LQL (barulho de pancadas: coleta de madeira como material de referência para exames laboratoriais). Após a realização de todas as perícias e com os resultados dos laudos técnicos, a força-tarefa criada para agilizar a conclusão do caso, composta por seis delegados, 25 peritos e outros integrantes, chegou à conclusão de que George Alves era o assassino de Joaquim e Kauã, além de terem conseguido elucidar a forma que ele agiu e ainda esclarecer o fato de que ele estuprou e agrediu as vítimas, antes de jogá-las na cama e atear fogo nos corpos.

TRÊS FATOS QUE DESMENTEM VERSÃO DO PASTOR

O delegado André Jaretta fala sobre as investigações e apuração sobre o caso
O delegado André Jaretta fala sobre as investigações e apuração sobre o caso
Foto: Rafael Silva

1. Um passo importante na investigação foi o uso do luminol, substância para identificar vestígios de sangue, encontrado pelos peritos no box do banheiro social da residência e na escrivaninha do quarto das crianças. Um teste de DNA foi realizado e comprovou que o sangue era de Joaquim. O último e decisivo exame realizado para desvendar o crime foi um exame nos corpos.

2. Os peritos conseguiram detectar a presença de uma proteína chamada PSA, que compõe o sêmen humano, nas partes íntimas dos corpos dos irmãos.

3. O Laboratório de Química Forense da Polícia Civil conseguiu identificar a presença de um combustível derivado do petróleo nas partículas que restaram dos objetos queimados no quarto.

Assim, os delegados que compuseram a força-tarefa para a elucidação do caso puderam ter a certeza do que aconteceu, como ressaltou o delegado André Jaretta na ocasião. “As coisas foram se encaixando. Conseguimos comprovar tecnicamente que o pastor molestou as crianças, espancou, a ponto de deixá-las desacordadas e, em seguida, colocou os dois na cama e ateou fogo, matando os irmãos de forma cruel e fria”, lamentou.

 

 

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