Entrevista

"Agora quero retomar minha vida", diz mãe de jovem morta durante sexo

Em entrevista para o Gazeta Online, a técnica de enfermagem Neuci Gomes da Silva, de 52 anos, contou que sua família foi destruída após o assassinato de sua filha caçula, Arielle Martins Pardinho. O namorado da jovem, condenado pelo crime, foi preso na manhã desta terça-feira (04)

Loreta Fagionato

Fotos espalhadas pela casa e um cordão com o nome de Arielle no pescoço ajudam a técnica de enfermagem Neuci Gomes da Silva, de 52 anos, a aplacar a saudade de um tempo que não volta mais. Após o assassinato de sua filha caçula, Arielle Martins Pardinho, que foi morta pelo namorado em 3 de setembro de 2012, com um tiro na boca durante o ato sexual, ela conta que sua vida nunca mais foi a mesma.

O casamento acabou, o filho mudou de país e a outra filha saiu de casa. O sofrimento era tão grande que Neuci não conseguiu nem atuar em sua área de formação. “Quando comecei a trabalhar em hospital, não soube lidar emocionalmente com pessoas baleadas e ensanguentadas. Tive que sair”, afirmou.

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Sozinha, ela precisou reunir forças para lutar por Justiça. Após seis anos e nove meses de espera, Neuci diz que agora quer retomar sua vida. Isso porque Marcos Rogério Amorim dos Santos Júnior, de 28 anos, condenado pelo crime, se entregou na 16ª Delegacia Regional de Linhares na manhã desta terça-feira (05). Ele foi encaminhado para o Centro de Ressocialização de Linhares (CRL) e está preso.

Júnior foi condenado por homicídio qualificado em 6 de dezembro de 2017. Ele recorreu e pôde aguardar em liberdade. Na ocasião, a advogada de defesa Monique Mendonça explicou que seu cliente cumpriu rigorosamente as medidas cautelares impostas a ele “desde a época dos fatos, buscando a sua ressocialização”. Por isso, o juiz havia concedido o benefício. Como os recursos foram negados, foi preciso que o réu se apresentasse para ser preso.

Como a senhora soube que o Júnior se entregou na delegacia?

Eu estava na rua resolvendo alguns problemas e resolvi passar no Ministério Público pra saber porque a prisão ainda não tinha ocorrido. Quando cheguei lá, o doutor Claudeval (França Quintiliano, promotor) avisou que o Júnior estava preso.

Aquilo me deu um gelo, não sei nem descrever a sensação. Foi um misto de alívio e de achar que isso tudo ia acabar, mas na hora percebi que, mesmo com a prisão dele, minha filha não volta. Comecei a tremer muito e a chorar muito, mas agradeci muito a Deus pela justiça ter sido feita.

Para muitos que me disseram que não valeria a pena correr atrás, porque eu não tinha dinheiro para bancar advogado, eu digo: vale a pena, sim. O doutor Claudeval foi excelente, quem teve a oportunidade de assistir o júri viu. O Júnior estava com quatro advogados e minha filha tinha só o promotor, mas foi suficiente.

Apesar de tudo, esse sentimento de justiça acalenta?

Acalenta muito. Principalmente quando você escuta muitas pessoas falando que não ia acontecer nada, e eu, com fé em Deus, acreditei que ia acontecer. Lutei por mais de seis anos, deixei minha vida de lado por mais de 6 anos para poder sentir essa sensação de justiça feita. Porque a minha filha não está presente para se defender. Logo que aconteceu para mim foi terrível, muita gente colocou minha filha como prostituta, mas ela não era. Eu tinha a responsabilidade de provar para as pessoas que minha filha não era. Eu fiz disso um objetivo na minha vida e agradeço a Deus de joelho.

Neuci segura a foto da filha, Arielle, que foi assassinada em 2012
Neuci segura a foto da filha, Arielle, que foi assassinada em 2012
Foto: Loreta Fagionato

O Júnior foi condenado a 13 anos e nove meses de prisão pela morte da Arielle, mas ele saiu em liberdade do julgamento. Como foi ver que ele continuava solto, mesmo seis anos após o crime?

Terrível, tanto que faço tratamento até hoje. A vontade como mãe era partir pra cima e fazer a mesma coisa, mas eu não ia me igualar a ele e minha índole não é essa. O resultado é psicólogo, psiquiatra, remédio para dormir, lidar dentro da minha casa com a solidão, imaginando ela chegar todos os dias dizendo que me ama, e agora não tenho mais ela falando isso para mim.

Tenho até hoje o celular dela e a bolsa que ela usava no dia, não consegui me desfazer. Faz mais de seis anos, mas é como se não fosse ontem. Lembro até hoje da imagem dela no caixão, o choque que levei ao vê-la, não consigo esquecer. Sonho com ela dizendo que foi tudo uma brincadeira e que ela vai voltar.

Tenho mais dois filhos, mas um filho não substitui o outro. Tínhamos nossos problemas, mas nunca ficávamos sem conversar. A dor dessa perda só quem passa para saber. Quem nunca passou por isso não sabe o que é perder uma pessoa que você ama, principalmente um filho. Você só entende o amor de uma mãe e de um pai depois que você tem um filho. Cada dia eu vejo como uma vitória e agradeço a Deus, e na hora de dormir agradeço a Deus por ter vencido esse dia.

Hoje eu estou só nessa casa. Meu filho na época ficou muito revoltado, eu pedia pra ele não fazer nada e confiar em Deus.

Como era sua vida e como ela está agora?

Minha casa era sempre cheia de gente, que vinha aqui, batia papo, a gente brincava. Meus três discutiam muito, mas, ao mesmo tempo, eles se resolviam. Tudo isso acabou, eu perdi minha família.

Quando apareceu a oportunidade do meu filho ir embora para trabalhar, ele foi. Agora, mora em Assunção, no Paraguai. Na época, ele disse que não aguentava mais viver assim e me ver sofrendo. Ele foi embora e fala que não tem vontade de voltar, porque acha que o Júnior vai ficar preso por pouco tempo e logo vai sair.

E o Júnior é primo do meu neto, quando vou ver meu neto eu tenho que passar por lá. Eu sei separar as coisas, os avós não têm culpa do que ele fez, mas é muito difícil. Já me pediram para não vê-lo como assassino, mas como não ver? Ele está preso, mas a família pode vê-lo, e eu não posso ver minha filha.

Às vezes vou ao cemitério visitar o túmulo da Arielle e pergunto a Deus porque passei por tudo isso, vivendo tão pouco tempo nessa cidade. Morei 27 anos em São Paulo e nunca aconteceu nada, nem um assalto. Aí, quando vim para Linhares, em pouco tempo aconteceu tudo isso.

A senhora conta que sua família foi desmembrada após o crime. Seu casamento também acabou?

Meu casamento já estava balanceado, depois que aconteceu isso, acabou de vez. Ele não era pai dos meus filhos, mas criava os três desde pequenos. É excelente pessoa, a gente se dá bem. Eu digo que a gente é como irmãos de alma, ele me ajuda até hoje, mas como marido e mulher não deu certo. Ele não é pai, não sabe a dor de perder um filho, não podia deixar que ele vivesse o meu sofrimento.

A senhora chegou a contratar advogado ou a defesa sempre foi pela promotoria?

Nunca coloquei advogado, é muito caro. Toda vez que perguntava se era preciso contratar advogado, os promotores diziam que não tinha necessidade. Eles são muito pacientes e me explicavam tudo do processo.

Ver o Júnior sair livre do julgamento foi horrível pra mim, mas essas são as leis. As leis desse país não favorecem a vítima, apenas o réu, quem pratica o que é errado. Doutor Claudeval apertou minha mão após a condenação e disse: “Conseguimos, mas ele vai ser preso só daqui um ano”. E isso aconteceu. Mesmo preso, ele vai continuar recorrendo.

O que a senhora acha que aconteceu no dia do crime? Acredita que o Júnior tinha intenção de matar a Arielle ou que foi mesmo um acidente, como ele alegou?

Eu não acredito em acidente. Ele diz que ficou uma bala no tambor e simplesmente disparou, eu não acredito. Ele pode bater na mesma tecla, mas minha filha não está aqui mais para se defender. Ele pode falar o que quiser, mas no dia do julgamento foi unânime. Os sete jurados condenaram ele e nem os quatro advogados de defesa conseguiram provar o contrário. Feminicídio está um absurdo, você não sabe com quem está lidando. Quantas mulheres estão perdendo a vida? Quantas mães estão perdendo as filhas? Nossa lei tem que mudar. Imagina, seis anos para ele ser preso! E eu corria atrás: ia pra Vitória, cobrava em Linhares, cheguei a ligar para Brasília para pedir ajuda.

Eu fiz muita coisa, pesquisei tudo, só não consegui falar com o Júnior.

E o que a senhora gostaria de falar para ele, se tivesse a oportunidade?

Nem sei. Eu só queria olhar nos olhos dele e perguntar porque ele tirou minha filha de mim dessa maneira.

Como ele agiu durante o julgamento?

Eu só via ele chorando, mas chorar é fácil, né? Estou falando como uma mãe com o coração partido. Quando perguntavam a ele de onde veio a arma, ele se recusou a dizer. Se ele não quis responder isso, é porque tem algo errado.

Como era o namoro do Júnior e da Arielle? Tinha ciúmes?

Tinha ciúme sim, não era um namoro tranquilo. Minha filha tinha um pé atrás com ele e me perguntava se eu não gostava dele. Eu dizia que não era que eu não gostava, é que tinha algo nele que me incomodava. Os dois viviam discutindo. Sei que a Arielle era uma pessoa esquentada, se falassem algo que ela não gostava pode ter certeza que ela respondia à altura. Eu penso que naquele dia ele fez algo, ela falou alguma coisa e aconteceu o que aconteceu.

Minha filha foi encontrada nua, a roupa que ela usava desapareceu, nunca mais vi. Só Deus pra saber o que aconteceu.

Agora que o Júnior foi preso, o que a senhora quer fazer da sua vida?

Meu objetivo é voltar a viver. Não me arrependo de tudo o que fiz, mas de agora em diante preciso dar uma guinada na minha vida. Com certeza é o que minha filha gostaria. Tem dias que estou arrasada, tem dias que vem para derrubar mesmo e eu fico presa dentro de casa. Mas depois respiro fundo e luto de novo.

O que a Arielle fazia e quais eram os sonhos dela?

Ela trabalhava na parte financeira de uma clínica médica e sonhava em ser bióloga. Uma semana antes do crime, ela me pediu pra ajudar a pagar a faculdade. Ela dizia que queria muito poder estudar, mas eu pedi para aguardar um pouco porque a situação financeira estava difícil.

 

 

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