Entrevista

"A dona de casa ainda não está preparada para ir até uma delegacia"

Idealizadora de um coletivo que ajuda vítimas de violência doméstica, assistente social fala como a ausência do poder público em comunidades carentes expõe ainda mais as mulheres a este tipo de crime

Fernando Madeira

Há seis anos a assistente social Vilmara Claudino, 42 anos, ajuda a mudar a realidade de mulheres vítimas de violência doméstica em regiões periféricas de Cariacica. Idealizadora do Movimento de Mulheres Cariacica, ela, junto com outras nove companheiras, levam apoio, empoderamento e acolhimento para lugares onde poder público e estado não alcançam. A rede conta também com 48 colaboradoras, de diversos bairros do município, e com diversas profissões. São mulheres que dedicam parte de suas vidas em prol de outras, que estão silenciadas ou esquecidas.

Por que criar esse projeto?

Eu começo dizendo que entraria nessa luta de qualquer jeito, está no meu DNA. Mas tive um episódio particular que deu esse empurrão. Quando tive meu primeiro filho, me vi sozinha. Engravidei aos 19 anos e estudava na época. Namorei por dois anos e quando engravidei, ele me abandonou. Eu não aceitava aquela situação. Não aceitava uma pessoa vir, dividir comigo um monte de projetos e depois me abandonar assim. E quando busquei ajuda, tive que ouvir o que toda mulher solteira e grávida ouve: ‘mas você fez porque quis, então agora vai ter que cuidar sozinha’. Aquilo ecoou fundo dentro de mim. Tive meu filho e só seis anos depois é que fui conseguir colocar o nome do pai na certidão do meu filho. Reconheci que isso só foi possível porque outras mulheres antes de mim brigaram por aquilo. Então decidi que iria lutar para que outras mulheres também tivessem seus direitos garantidos, assim como eu tive os meus.

Como o movimento atua?

Cada uma de nós atua de acordo com as demandas das regiões onde vive, conforme a realidade das suas comunidades. Mas, isso não significa que nossa rede fique restrita. Recebemos muitas denúncias e pedidos de ajuda pela nossa página no Facebook também. Então aí, somamos forças. É um movimento social, filantrópico. Cada uma de nós tem a sua profissão, de donas de casa a advogadas e psicólogas. Temos um grupo no WhatsApp onde a gente se fala quase todos os dias. Os encontros acontecem no escritório de uma membro do movimento, que nos cede o espaço. Levamos os problemas apresentados pelas vítimas para quem de fato precisa ouvi-los e atender aquela determinada demanda. Contamos com uma frente de trabalho grande e com parcerias maravilhosas, como o NEVID (Núcleo de Enfrentamento às Violências de Gênero em Defesa dos Direitos das Mulheres), do Ministério Público do Estado.

Que tipo de trabalho é realizado com as mulheres nas comunidades?

Começamos a nos reunir com pequenos grupos, em cafés da manhã, e isso ampliou. Tomou uma proporção maior. Vamos até escolas ou em outros lugares, onde realizamos palestras e falamos sobre os direitos que as mulheres têm, apresentamos as possibilidades de futuro que podem ter e mostramos as coisas ruins que não podem continuar acontecendo. A questão da violência doméstica é um leque. São inúmeras as situações de opressão que uma mulher da periferia sofre. E são nesses encontros que as demandas surgem e que elas se sentem à vontade para nos contar suas histórias e pedir ajuda.

Qual o entendimento que elas têm sobre violência doméstica?

Muitas acham que é só a violência física. E quando contam sobre o que sofrem, tentam de certa forma amenizar a ação do parceiro, acham que o homem teve um momento ruim apenas, sem entender que o machismo é histórico. Não tem esse entendimento, essa problematização de que a mulher é submissa historicamente. Não vamos chegar nessas mulheres e explicar as diferentes vertentes do feminismo e fazer toda uma desconstrução com termos históricos. Temos como fazer isso de uma outra forma, falando a mesma língua. Elas têm que se sentir representadas para entender que não precisam mais passar por determinadas situações e que essas situações são um tipo de violência.

Como é essa abordagem com representatividade?

É de forma simples e sempre cercada de amparo emocional. Por exemplo, a frase “você não está sozinha” tem muito impacto no momento em que a mulher se vê oprimida, agredida. Elas se abrem, nos vêem, às vezes, como um espelho. Não adianta chegar naquele momento e pegar o braço daquela mulher e dizer: ‘você vai agora na delegacia denunciar seu marido’. Isso é dar dois passos para trás. Muitas tem um sentimento de culpa por estragar a vida daquele que a está agredindo, fora a dependência financeira em relação aquele parceiro. Como elas vão se sustentar?

Vilmara faz parte do Projeto Mulheres de Cariacica, que ajuda vítimas de violência doméstica
Vilmara faz parte do Projeto Mulheres de Cariacica, que ajuda vítimas de violência doméstica
Foto: Fernando Madeira

E quando elas conseguem entender que precisam de ajuda?

Quando a violência já chegou no limite. Quando não foi só um tapa. Aquela mulher já passou por muita coisa antes. As falhas do sistema de Justiça e de segurança na assistência à população em favelas agravam a situação das mulheres vítimas de violência e o risco que elas correm é gigante para entrar na estatística de feminicídio. Poucas são as que em situação de vulnerabilidade social e econômica que recorrem às instituições do estado diante de uma violência familiar. Pouquíssimas.

Qual é o perfil dessas mulheres?

As mulheres negras e pobres são as que mais sofrem com a violência doméstica. E sabe por quê? Porque a dona de casa da periferia ainda não está preparada para ir até uma delegacia. Muitas não tem nem como pagar a passagem. São mulheres com dois, três filhos, vindas de casamentos que não deram certo. Algumas delegacias também não tem preparo para receber essas mulheres. Embora tenhamos trabalhos lindos desenvolvidos principalmente nas Deams (Delegacias Especializadas de Atendimento à Mulher), com o acolhimento inicial para depois partir para a denúncia, muita coisa ainda precisa melhorar.

De quais mudanças estamos falando?

Muitos não dão valor aos movimentos sociais. Vamos aonde o poder público e o estado não conseguem ir. Quando o fazem, é de maneira que a mulher tem que ir até o mecanismo de ajuda e não o movimento contrário. Vamos até onde a massa é extremamente pobre e onde de fato acontece a violência. Exemplo claro, uma mulher procura o Creas (Centro de Referência Especializado de Assistência Social) com uma demanda. Lá, ela recebe apoio, mas precisa de um psicólogo e, às vezes esse profissional vai estar em outro lugar, em outro bairro. Se ela tiver que sair do lugar onde mora e baldiar em busca de ajuda, ela nem vai.

A inexistência do estado nessas comunidades expõe as mulheres a quais crimes?

Com certeza. O estupro marital é o que mais acontece. A posse da mulher, essa construção social machista de que a mulher tem que servir o marido. Muitas entendem que aquilo é uma violência, mas acreditam que nada pode ser feito...A mãe passou por aquilo, a avó, as tias. É a cultura do estupro, mas elas não tem esse entendimento. Elas não entendem que podem mais, que tem direitos.

Nessa realidade, denunciar também a coloca numa situação de risco?

Um dos motivos está justamente na falta de segurança. Elas se tornam mais vulneráveis. Quando vizinhos ou a própria mulher denunciam um episódio de violência à polícia ou à Justiça, muitas vezes ela precisa mudar de comunidade. E nesse contexto social entra um tipo de poder paralelo, o tráfico. Então temos que trabalhar com muito cuidado para que aquela mulher não fique exposta. Para que ela tenha uma oportunidade de retorno caso seja necessário.

Para tentar se proteger da violência, algumas mulheres percorrem o caminho do tráfico?

Principalmente as jovens. Tentando se salvar, as meninas cooptadas pelo tráfico ou que se casam com traficantes estão sujeitas a todo tipo de violência e a situação delas é ainda mais delicada, mais sistemática. São tão objetificadas que servem como moeda de troca ou pagamento. Estupradas, humilhadas e agredidas, às vezes como vingança por algo que fizeram.

Quais os tipos de violência se deparam com mais frequência?

A violência doméstica passa por diversas nuances e uma delas é a dependência financeira. Tem as mulheres que o empoderamento financeiro ainda não chegou e elas requerem uma ajuda nesse sentido. É uma falácia muito grande dizer que as mulheres de periferia estão confortáveis aonde estão. A mulher que nasce em uma favela vem com a realidade daquele lugar. A mulher negra da periferia vai ter que correr duas vezes mais se quiser buscar ajuda. Ela nasce podada dos espaços que são dela de direito.

Quais são as situações mais difíceis?

Aquela mulher que por alguma razão não conseguiu estudar, ela chega aos 40 anos perdida. Muitas nessa faixa etária não tem nem o primeiro grau. Como que essas mulheres vão conseguir se empoderar? Bancar uma casa sozinha? Muitos falam que as mulheres, dentro dessa realidade, que continuam num relacionamento abusivo estão porque gostam de apanhar, é mentira. É cruel. Aquilo ali é o que deu pra ela, é o pedaço que deixaram para ela, onde muitas vezes tem que suportar um companheiro violento porque dependem dele.

Como mudar essa realidade?

Levando esse olhar de quem conhece a realidade. Muitos projetos são inválidos, é gastar dinheiro público. Não vão ter a eficácia necessária. Empoderamento para algumas pessoas é fazer maquiagem, colocar um salto na mulher e fazer ela se sentir bonita. É muito mais do que isso. Se você perguntar para uma mãe hoje o que ela deseja para a filha é que ela tenha uma realidade, uma vida completamente diferente da que ela teve. Ter um canudo na mão é maravilhoso. Mas aí você pega alguém que cresceu no décimo quinto andar e que só desceu para buscar pizza na portaria e uma pessoa que nasceu lá dentro da favela, que conhece as mazelas daquele lugar, quem vai chegar da melhor forma? Bota as duas cadeiras lado a lado e vamos ver quem vai dar mais resultado. É estar no lugar de fala.

O que mais pode ser feito?

O problema está no homem. Além de cadeia e punição, muitos também deveriam passar por um processo de desconstrução. Tem homens que não deixam as companheiras irem pra zumba, estudar. É uma questão cultural e isso precisa ser mudado.

Já pensou em desistir da luta?

Nunca! Já cai, mas me levantei. Perdi meu filho aos 14 anos, em 2017, vítima da violência. Foi assassinado. Ele era meu parceiro, participava comigo desta luta. Graças a minha rede de apoio, às mulheres que me cercam, eu venci. Ele teria orgulho de mim.

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