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Você sabe reconhecer os sinais de um relacionamento abusivo?

Em relacionamentos tóxicos o homem é agressivo nas palavras, faz constantes ameaças, xinga durante discussões e faz ataques à confiança e autoestima da mulher. Casos mais graves podem terminar em tragédia

É comum que homens acusados de feminicídio e agressões domésticas tenham ficha limpa na polícia e sejam vistos pela sociedade como pessoas acima de qualquer suspeita
É comum que homens acusados de feminicídio e agressões domésticas tenham ficha limpa na polícia e sejam vistos pela sociedade como pessoas acima de qualquer suspeita
Foto: rebcenter-moscow/Pixabay

Carla Cristina queria ter um perfil em uma rede social, como tantas jovens de 25 anos. Mas a dona de casa era proibida pelo próprio namorado, que tinha um ciúme possessivo pela mulher. Com medo, a moça resolveu criar o perfil escondida e, ao ser descoberta, foi obrigada a entregar as senhas para que William pudesse vigiá-la. O trágico fim dessa história aconteceu na última quarta-feira (17). Assassinada com um canivete, Carla entrou para a estatística das mulheres vítimas de feminicídio do Estado.    

A primeira vista, a proibição da rede social pode não parecer tão importante diante do crime cometido na quarta-feira. Mas ao prestar atenção, é possível perceber que assim como no caso de Carla muitas mulheres agredidas e assassinadas por seus companheiros vivem relacionamentos abusivos que apresentavam sinais de perigo antes mesmo do ato de violência física em si.

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SINAIS    

De acordo com especialistas, é comum que homens acusados de feminicídio e agressões domésticas tenham ficha limpa na polícia e sejam vistos pela sociedade como pessoas acima de qualquer suspeita. O comportamento violento desses agressores vai aparecendo de forma progressiva e sutil.   

William Douglas Soares Rodrigues, 28, é acusado de matar a namorada, Carla Cristina
William Douglas Soares Rodrigues, 28, é acusado de matar a namorada, Carla Cristina
Foto: Reprodução

Como em qualquer conto de fadas, os homens tendem a ser românticos, compreensíveis e cuidadosos durante o período de conquista. Mas com o tempo, por meio de situações de ciúme, domínio e opressão, os agressores começam a mostrar sinais de quem realmente são e o perigo que representam à integridade emocional, física e psicológica dessas mulheres.

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MACHISMO    

A promotora de Justiça Cláudia dos Santos Garcia, coordenadora estadual do Núcleo Estadual de de Enfrentamento às Violências de Gênero e em Defesa os Direitos das Mulheres, do Ministério Público, explica que casos de violência contra as mulheres partem do fato de que esses homens enxergam suas parceiras como propriedades.    

 “A violência é fruto de machismo, da sociedade patriarcal. Em geral, mulheres morrem porque o homem está com ciúmes, não aceita o término do relacionamento, não aceita que a mulher ocupe novos espaços”, afirma.    

Violência contra mulher
Violência contra mulher
Foto: Marcos Santos/USP

COMO PERCEBER COMPORTAMENTOS ABUSIVOS?  

A pergunta que paira na cabeça de muitas mulheres é: como posso saber se estou em um relacionamento abusivo? A dúvida é comum, uma vez que muitas sentem medo, vergonha, e possuem a autoestima atacada por seus parceiros, fazendo com que elas possam demorar a perceber ou denunciar a violência que estão sofrendo. 

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Especialistas explicam que o sentimento de posse desses agressores começa a aparecer quando o homem passa a tomar decisões pela mulher e controlar seus horários, roupas, atividades e, como foi o caso de Carla Cristina, o celular e redes sociais. A professora da Ufes e coordenadora do Laboratório de Pesquisas sobre Violência Contra a Mulheres no Espírito Santo, Brunela Vincenzi, ressalta que a Lei Maria da Penha lista cinco tipos diferentes de violência: física, psicológica, patrimonial, moral e sexual. 

 “Mostro na minha aula que pedir o salário da mulher no fim do mês, por exemplo, é um tipo de violência, a patrimonial. É necessário admitir os fatos e conscientizar as pessoas”, disse.

Em relacionamentos tóxicos o homem é agressivo nas palavras, faz constantes ameaças, xinga durante discussões e faz ataques à confiança e autoestima da mulher. Eles também podem ser manipuladores ao inverter situações de briga, se colocar como vítimas e fazer a mulher acreditar que é culpada pelas agressões que sofre.

“É uma escalada. Quando conversamos com as vítimas, vemos que tudo inicia-se com uma violência psicológica, depois moral, depois parte para uma agressão física ou sexual. Pesquisas indicam que é difícil haver uma tentativa de homicídio isolada”, explica a promotora de Justiça Cláudia Garcia.

Delegada Cláudia Dematté
Delegada Cláudia Dematté
Foto: Arquivo

SILÊNCIO PERIGOSO

Especialistas orientam: Ao perceber qualquer um desses sinais, a mulher precisa buscar ajuda e denunciar o agressor. Infelizmente, essa situação nem sempre é realidade. Muitas mulheres que sofrem abusos silenciam-se e sentem dificuldades em buscar ajuda para sair desses relacionamentos.   

 A delegada Cláudia Dematté, chefe da Divisão Especializada de Atendimento à Mulher explica que esse silenciamento muitas vezes é motivado por vergonha. “Muitas se calam por vergonha da própria família, dos vizinhos, dos amigos, de ser julgada, por causa dos filhos”, afirma.

O comportamento da vítima também é fruto de um relacionamento abusivo que vai piorando gradativamente. Em muitas situações, quando começam os comportamentos tóxicos, as mulheres começam a se isolar, entram em depressão e desenvolvem, até mesmo, fobia social. A vontade que o homem mude, motivada pelo sentimento envolvido, também é motivo para muitas mulheres ficarem.

Quanto mais a mulher não reage, mais o homem ganha confiança para aumentar a violência. Por isso, ela deve denunciá-lo o quanto antes. Mesmo que não queira representar contra ele, existem medidas protetivas que podem ajudá-la”, alerta a titular do Delegacia Especializada Atendimento à Mulher (Deam) de Vitória, Juliana Saadeh.

A psicóloga Adriana Salezze explica que mulheres presas em relacionamentos abusivos na maioria das vezes realmente não percebem ou demoram muito a perceber. Quando veem a realidade, passam a sentir medo de denunciar seus parceiros. “As mulheres ficam muito presas à emoção, a paixão, e ficam um pouco cegas. Depois de um determinado momento, quando conseguem perceber, passam a ter medo de sair da relação por questões emocionais, de insegurança, incerteza do que vai vir, questões legais e jurídicas e, até mesmo, medo que a justiça demore muito a ser feita”, assinala.

Para essas vítimas, que ainda permanecem em silêncio, a terapeuta familiar deixa um alerta. “Se você passa a sentir medo da pessoa com quem você está, receio de se expressar, medo de reações explosivas e impulsivas dessa pessoa já pode ligar o sinal de alerta”, aconselhou.

Salezze conceitua a relação abusiva como aquela em que há um excesso de poder, um desejo de controlar e dominar o outro. “Nessas relações não existe confiança, não existe respeito, não existe liberdade individual, não existe uma socialização saudável, questões que são fundamentais pra ter um relacionamento saudável”, ressalta.

Violência contra a mulher
Violência contra a mulher
Foto: Pixabay

COMO AJUDAR UMA VÍTIMA?

Familiares e amigos geralmente percebem o perigo antes das vítimas. Nesse momento, podem se sentir inseguros quanto sobre qual postura assumir, já que não deve-se calar diante de situações de abuso, mas também é preciso ter sabedoria para a própria proteção da vítima. Adriana Salezze chama atenção para o fato de que é importante que a pessoa abusada tenha uma rede de apoio fortalecida. 

O certo é tentar conscientizar a vítima da sua situação, as vezes com uma conversa, as vezes mandando vídeos sobre o assunto pra que a pessoa tome consciência. O foco é fortalecer aquela pessoa para que ela se sinta segura, ouvida e acolhida pra sair dessa relação abusiva
Adriana Salezze, psicóloga

A promotora Cláudia Garcia também ressalta que no momento certo é preciso agir. “Ouça sem julgá-la e, no momento certo, encaminhe-a para os serviços de ajuda”, aconselha. 

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