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Jovens de 16 e 17 anos estão mais distantes das urnas

Total de eleitores nesta faixa etária no Estado caiu pela metade

Carlos Eduardo, Clara, Beatriz e Pedro  estão desiludidos com a política, mas acreditam no poder do voto
Carlos Eduardo, Clara, Beatriz e Pedro estão desiludidos com a política, mas acreditam no poder do voto
Foto: Vitor Jubini

Corrupção, escândalos e instabilidade financeira no país têm contribuído para o desinteresse de muitos eleitores com a política. Com jovens na idade do primeiro voto (16 e 17 anos) e que não possuem a obrigatoriedade de irem às urnas não tem sido diferente.

Dados do Tribunal Regional Eleitoral do Espírito Santo (TRE-ES) mostram que em cinco anos caiu pela metade o número de eleitores nesta faixa etária no Estado. Em 2012 eram 34.851 jovens que tiraram o título contra 17.513 que se registraram no Tribunal em 2017.

“O desgaste do processo político, da representação pública têm uma parcela de interferência no ato voluntário dos jovens de se alistar. O desânimo soma-se à falta de perspectiva de trabalho, empregabilidade, violência, toda situação social do país. É de se esperar a redução destes eleitores”, analisa o cientista político Fernando Pignaton.

Apesar de números parecidos, são as meninas com 16 e 17 anos que têm tirado menos o título . Em 2012, elas eram 17.927 aptas a votar no Espírito Santo contra 8.974 de 2017. Já os meninos com essa idade eram 16.924 há cinco anos contra 8.539 no ano passado.

A reportagem de A GAZETA entrevistou alguns jovens na faixa etária do levantamento e constatou de fato o desânimo observado nos números, o que por outro lado não fez com que os mesmos deixassem o desejo de votar de escanteio.

Estudante do ensino médio de uma escola pública, Roberta Possatti Palmeira, de 16 anos, é uma destas pessoas.

“Ninguém está animado para as eleições. Quero votar, mas não sei se vou ter opção. São sempre as mesmas pessoas e não queremos coisa velha, queremos o novo, mas ele nunca vem. Mas tenho que agir de alguma forma e o voto é a maneira mais segura de agir”, afirmou.

Os dados do TRE também mostram que a maioria destes eleitores de 16 e 17 anos está cursando o ensino médio, assim como Roberta. Em 2012, estes estudantes eram 79% do total de eleitores desta faixa etária, contra 70% registrados no ano passado.

Com 17 anos, Pedro Henrique Silva também cursa o ensino médio, mas em uma escola particular. Ele já possui o título de eleitor desde 2017, quando não teve eleição. Ele diz que apesar das notícias ruins sobre a política que acompanha nos noticiários, está empolgado para votar pela primeira vez.

“Quero tentar mudar o país escolhendo bons candidatos. Através do voto podemos eleger pessoas capazes. Mas ainda estou analisando os possíveis nomes”, disse Pedro.

Beatriz Simões Marins, de 16 anos, aluna do ensino médio do mesmo colégio de Pedro, ainda não possui o título e pretende tirá-lo em breve. A estudante se mostra chateada com tudo quem vem ocorrendo no país, assim como seus colegas Clara Longano e Carlos Eduardo Montenegro, ambos de 16 anos. Mas a vontade de mudar os rumos do Brasil através do voto é maior para eles.

“Estamos em um período de bastante instabilidade no país, mas espero que votando consciente a gente consiga mudar este cenário ruim”, disse Beatriz, que pretende usar sites confiáveis da internet para pesquisar o histórico dos candidatos.

Direito ao voto

O direito ao voto para jovens de 16 e 17 anos foi conquistado durante a mobilização para pressionar a Assembleia Nacional Constituinte de 1987-1988, que elaborou a Constituição democrática para o país após o fim da ditadura militar (1964-1985). A nova Carta Magna garantiu o direito ao voto facultativo aos jovens a partir dos 16 anos.

Entenda mais

Quem é obrigado a votar? Os maiores de 18 anos até 69 anos.

Quem não é obrigado? Analfabetos, menores de 18 anos ou quem já completou 70 anos.

Ainda dá tempo de tirar o título? Para tirar o primeiro título (alistamento), fazer revisão (alteração de dados) ou transferir o domicílio eleitoral, o eleitor tem até o dia 9 de maio para regularizar sua situação.

Onde? Nos três casos, o eleitor deve comparecer a um cartório eleitoral no município que reside.

O que levar? Os maiores de 18 anos que vão tirar o primeiro título devem levar o certificado de alistamento militar, além do documento original de identidade e comprovante de residência. Os demais deverão levar apenas a identidade e o comprovante de residência.

Biometria - As pessoas que não compareceram nas cidades onde foram realizados exames biométricos tiveram o título de eleitor cancelado. Mas estes eleitores poderão comparecer aos cartórios eleitorais, em data a ser informada pelo TRE-ES, para regularizar a situação.

Redes sociais viram válvula de escape para expressão de ideias

O desânimo de jovens capixabas de 16 e 17 anos em exercer o direito de votar não tem sido uma característica observada apenas neles, mas faz parte de um fenômeno mundial ligado à internet.

Para o assessor técnico do Tribunal Regional Eleitoral do Estado (TRE-ES), Vinicius Oliveira, os jovens têm usado as redes sociais como forma de expressar suas reivindicações e deixado de buscar representação política por meio do voto.

“O acesso à informação e a facilidade de difusão de ideias pela internet têm feito com que eles não necessariamente precisem de um representante político para defender aquelas ideias. Ele passa a ter protagonismo no debate e no pensamento dele diminui a necessidade da representatividade, o que pode ser uma ilusão”, analisou Vinícius Oliveira.

“É um fenômeno mundial, não exclusivo entre brasileiros e não só do eleitor facultativo, mas de um modo geral tem ocorrido o desinteresse pela política”, disse.

Para o assessor técnico, porém, no Brasil, em anos eleitorais, o interesse por exercer o voto tende a aumentar. Comparando a última eleição realizada no Espírito Santo, em 2016, o número de jovens com 16 e 17 anos aptos a votar (com título de eleitor) era de 25.992. No ano anterior (2015) eram 17.779, número parecido com os 17.513 de 2017.

“O debate político como um todo tende a crescer em anos eleitorais. Os candidatos se expõem, as questões que envolvem a cidade, o Estado e o país aparecem com mais veemência em jornais, redes sociais e isso aquece o debate. O jovem eleitor, com isso, passa a querer participar, é uma tendência, sim. Também existe a ação pró-ativa da Justiça Eleitoral, com intuito de conscientizar e aumentar as inscrições eleitorais”, afirmou Vinícius Oliveira.

Partidos de olho

Não é por acaso que os partidos, nos últimos anos, têm fundado ou dado bastante destaque a alas jovens dentro de seus quadros. No Brasil, em 2017, eram mais de um milhão de jovens de 16 e 17 anos aptos a votar (1.296.994), de acordo com dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

Ao todo, no ano passado no Brasil eram mais de 146 milhões de eleitores (146.470.266), o que mostra que o número de jovens nesta faixa etária não chega a 1% do eleitorado, mas que para o assessor técnico do TRE-ES, Vinícius Oliveira, não deixa de fazer com que eles tenham relevância no pleito. “É um número expressivo, principalmente se considerar as eleições competitivas”, afirma.

“E analisando as ações de marketing dos partidos para as redes sociais, o uso de linguagem mais simples, dos convites e criação das alas jovens, esses elementos revelam, que os candidatos têm interesse grande nessa parcela do eleitorado”, explicou.

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