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"Delação do fim do mundo": de 415 citados, só um condenado

Colaboração de delatores da Odebrecht gerou 270 investigações, mas só 5 delas virou ação penal

Passado um ano, a delação da Odebrecht não foi capaz de levar os políticos que denunciou para o banco dos réus. Chamado de “delação do fim do mundo”, o conjunto de depoimentos de executivos da construtora, que veio à tona em abril do ano passado, citava 415 políticos de 26 partidos.

A maioria deles, porém, ainda não foi acusada formalmente de nenhum crime. De 270 investigações iniciadas em todo o país a partir da colaboração premiada da empreiteira, apenas cinco se transformaram em ações penais. E só um citado foi condenado por corrupção.

Fachada da Odebrecht: delação completa um ano este mês
Fachada da Odebrecht: delação completa um ano este mês
Foto: Marcos Alves/AG

No Supremo Tribunal Federal (STF), onde ficaram os casos de deputados, senadores e ministros, a maioria das investigações sequer foi concluída pela Polícia Federal (PF). Dos 74 inquéritos que tramitam na Corte, apenas um virou ação penal. Em outros cinco, a Procuradoria-Geral da República (PGR) pediu o arquivamento por prescrição.

O alvo da única ação penal no Supremo é o senador Romero Jucá (PMDB-RR), acusado de receber R$ 150 mil em propinas para ajudar a Odebrecht na tramitação de duas medidas provisórias. Em março deste ano, a denúncia foi aceita, e Jucá se tornou réu.

Neste caso, os procuradores entenderam que as doações eleitorais da empreiteira foram pagamento de propina. Mas, em outras instâncias, juízes as classificaram como “caixa 2”.

Enquanto o crime de corrupção pode levar o condenado a pegar 12 anos de cadeia, o caixa 2 tem sido enquadrado no artigo 350 do Código Eleitoral, que prevê pena máxima de cinco anos de prisão.

Caso Alckmin

No último dia 12, o Superior Tribunal de Justiça aplicou esse entendimento em um processo do ex-governador de São Paulo e pré-candidato à Presidência, Geraldo Alckmin (PSDB). Segundo a delação da Odebrecht, o tucano teria recebido R$ 10,3 milhões nas campanhas estaduais de 2010 e 2014 de forma ilegal.

Um ano após receber o pedido de investigação, o STJ decidiu mandar o caso para a Justiça Eleitoral de SP, apesar do pedido da força-tarefa paulista para recebê-lo. Se a investigação ficasse a cargo da Justiça criminal, Alckmin poderia ter que responder por corrupção.

Alckmin perdeu o foro no STJ em 6 de abril, quando deixou o governo paulista para concorrer ao Palácio do Planalto e por isso seria investigado pela força-tarefa. O ex-governador nega que tenha recebido dinheiro por meio de caixa 2.

O STJ recebeu outros 14 processos, além do que envolve o ex-governador paulista. Nenhum virou denúncia na esfera criminal até agora.

Tribunais estaduais têm repetido o entendimento do STJ e encaminhado para a Justiça Eleitoral casos que envolvem doação de campanha.

Dos 14 processos originados na delação da Odebrecht que foram para a Justiça Federal da Bahia, 12 acabaram em varas eleitorais. Assim como Alckmin, os políticos citados nessas ações serão investigados por caixa 2 e não por corrupção.

As outras quatro ações penais que tiveram início com a delação da Odebrecht tramitam nas justiças estaduais, por envolverem políticos sem foro privilegiado.

Condenado

 

O caso mais avançado é o do ex-presidente do Banco do Brasil e da Petrobras Aldemir Bendine, condenado a 11 anos de prisão por corrupção passiva e lavagem de dinheiro. Os delatores afirmaram que ele cobrou propina da empreiteira em troca de proteção após assumir a presidência da Petrobras em 2015. Atualmente, Bendine está preso no Complexo Médico Penal de Pinhais, em Curitiba.

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Também em Curitiba, o ex-presidente Lula é réu no processo que investiga reformas realizadas pela Odebrecht e a OAS em um sítio de Atibaia, no interior de São Paulo. A acusação se baseou na colaboração da empreiteira. Lula nega que seja beneficiário das reformas. O ex-presidente está preso por causa de outro processo, o do triplex do Guarujá (SP).

No Rio, as acusações do MPF contra o presidente afastado da Assembleia, Jorge Picciani (PMDB), usaram informações prestadas pelos delatores da Odebrecht. Segundo eles, Picciani teria recebido

R$ 11 milhões de propina da empreiteira. Ele está em prisão domiciliar após decisão do STF.

A quinta denúncia da “delação do fim do mundo” foi feita no Distrito Federal, contra o ex-deputado Moreira Mendes (PPS-RO), acusado de receber R$ 100 mil para favorecer a empreiteira em projetos de lei.

A agilidade dessas varas não é vista no resto do país. Mais de 100 pedidos de investigação ainda não avançaram para a fase de denúncia.

Policiais criticam falta de detalhes

Policiais que atuam nas investigações reclamam da falta de detalhes das colaborações premiadas da Odebrecht. Segundo eles, os depoimentos foram tomados em um prazo curto e não foram aprofundados, levando a acusações genéricas. Durante as negociações de acordos, PF e MPF brigavam pelo protagonismo na assinatura de delações. No caso da Odebrecht, só procuradores participaram das tratativas.

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